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Mãe sobre Ensino Remoto na UFES: "sei que os meninos não terão condições de fazer"

Frente à pandemia que cresce no país sem controle e nem testes, o excludente e racista Ensino Remoto (EARTE) é arbitrariamente implementado na UFES. Trazemos aqui um profundo relato de Lucia Mara Martins, mãe dos dois primeiros estudantes com Deficiência Intelectual a ingressarem na Universidade Federal do Espírito Santo.

sábado 29 de agosto| Edição do dia

Lucia e seus filhos Samuel (à esquerda) e Bruno (à direita), estudantes de Ciências Sociais e Serviço Social, respectivamente

No Brasil com cerca de 3,7 milhões de casos e mais de 117 mil mortes, só no estado do Espírito Santo, já se encontra com 109.493 infectados pela covid-19 e 3.117 óbitos. Esses números assustadores são resultado do negacionismo de Bolsonaro, mas também de governadores como Casagrande, sem nenhum controle efetivo reabertura dos comércios, sem testagem massiva, e que agora além do enorme ataque que é a implementação do Ensino Remoto à distância, declarou que as universidades e faculdades do estado podem retomar as aulas presenciais em setembro.

Em meio a um momento histórico da crise econômica, política combinada a profunda crise sanitária do capitalismo, a única saída para a burguesia é seguir fazendo com que os trabalhadores paguem por ela. Junto a precarização do trabalho avança a precarização da educação, cada dia mais visível na imposição do excludente Ensino Remoto Emergencial que facilita um projeto de precarização ainda maior da educação, avançando para a privatização, atingindo sobretudo os estudantes mais precários, com toda a conivência da Reitoria, que implementou o modelo de ensino na UFES à base de reprimir estudantes com PM.

Viemos levantando nesse diário, que não podemos confiar nessa estrutura de poder que é a Reitoria, que passa ataques sem pestanejar nas universidades afetando a tantos estudantes e trabalhadores. É o que escancara ainda mais o caso da Lucia Mara dos Santos Martins, mãe dos dois primeiros estudantes com Deficiência Intelectual a ingressarem nos devidos cursos , na UFES, Bruno, estudante de Serviço Social e Samuel, estudante de Ciências Sociais. Lucia batalha todo esse tempo, e a partir do coletivo em que é coordenadora geral Mães Eficientes Somos Nós, com cartas de repúdio enviadas a todos os departamentos possíveis da universidade, com manifestações na porta da Reitoria, buscando apoio de entidades estudantis, mas o que encontrou foi a frieza de resposta alguma e a falta de mobilização de entidades estudantis que deveriam colocar todo seu peso e influência no combate a esse projeto excludente que é o Ensino Remoto (EARTE). Lucia declara: "Estou ficando doente de tão revoltada que estou."

Já é excludente por si o filtro social do vestibular que destrói o sonho de milhares a ingressar na universidade, também são enormes os desafios enfrentados principalmente aos estudantes precários, PCDs, negros e negras, lgbts, mulheres com filhos, trabalhadores, e trabalhadoras que fazem malabarismo junto ao trabalho doméstico para permanecer num espaço que a todo momento mostra a quem realmente as universidades neste sistema capitalista estão à serviço. Se antes a alegria tomava conta da imensa conquista de Bruno e Samuel, por ter vencido todo o processo de exclusão social e invisibilidade, a falta de expectativas atribuídas a pessoas com deficiência passando por isso desde a educação básica, e frente ao que já é excludente e um filtro social que é o vestibular, precisaram permanecer lutando contra todas as barreiras da permanência no espaço, com todas as dificuldades de acessibilidade, Samuel com Deficiência Intelectual e Bruno com Deficiência Intelectual e Autismo. Mas hoje, com o modelo de ensino à distância (EARTE), as barreiras se tornaram ainda mais determinantes e reais para a continuidade do sonho da formação para os dois e para a sua mãe que vem batalhando junto a eles para a garantia de todos os seus direitos a inclusão e que deveriam ser garantidos pelos vários dispositivos legais que versam sobre os direitos das pessoas com deficiência. Lucia desabafa:

"Estou sofrendo muito, as aulas na UFES iniciam nos próximos dias e sei que os meninos não terão condições de fazer, não por eu julgá-los incapazes, mas pelo próprio modelo do Ensino Remoto (EARTE) que já nasce totalmente deficiente e excludente e é intencional para a expulsão velada de muitos estudantes e que não terão as condições necessárias, sendo com deficiência ou não. A única proposta da UFES é que quem não quiser que tranquem o período. Não vou trancar, pois sei que se o fizer nunca mais eles voltam pra UFES. Vou ter que matricular eles, por dois motivos: para que os monitores que os assistem, não fiquem sem a bolsa de monitoria, e também não perderem o direito ao monitor, visto que foi extremamente difícil conseguir estes monitores que os assistem, para isso tive que ir ao extremo. Fico pensando que todos os esforços feitos, não adiantou nada, eles não estão nem aí para a existência de PCDs na universidade. Para a UFES, Samuel não existe, Bruno ainda existe para dois professores dele, que direto entra em contato comigo para que ele participe de algumas discussões referentes ao curso. Já Samuel é totalmente invisível, tanto pelo departamento, tanto para o curso, tanto pelos professores e também pelos seus colegas. Eu me sinto extremamente culpada por ter feito meus filhos acreditarem que era possível eles entrarem na universidade. Que eles iriam conseguir, que seriam pioneiros, e de que toda a luta feita teria valido a pena, serem os primeiros a transpassar o muro de barreiras e adentrarem a este espaço universitário em que muitas pessoas nas mesmas especificidades da deficiência deles jamais conseguiram ingressar, devido ao próprio processo de negação de direitos que estes perpassam ao longo de sua vivência na educação básica. Hoje vejo que não era para tê-los deixado sonhar tão alto, para ter uma queda bruta destas. Estou muito triste, sem motivação para lutar, lutamos, lutamos e nada vai para frente. Nossos filhos continuam "mortos" para o sistema. Mesmo que cheguemos aos nossos limites do desespero, para o sistema somos falas vazias. Não tenho mais esperança de que valeu a pena um dia ter os feito acreditarem de que era possível, sendo que esse sistema não os querem lá e o tempo todo os empurram para fora e acirrando ainda mais o processo com este Ensino Remoto. Por meio de muita luta, consegui garantir o acesso deles no Ensino Superior, mas garantir a permanência deveria ser de total responsabilidade da universidade, o que não está acontecendo. A alegação da UFES de quando eles entraram e de que se conseguiram passar no vestibular é, porque tinham condições, ou seja, transfere toda a responsabilidade para os meninos. Sem dar as condições a eles. Todas as condições de acessibilidade de que são necessárias para eles. Eu não aceito este discurso da universidade. Eles usam este discurso, acredito que, seja devido aos meninos não terem uma Deficiência visível e as estes a invisibilidade e exclusão se torna ainda maior.”

Como relata Lucia, Samuel e Bruno são pioneiros em ingressar nos cursos de Ciências Sociais e Serviço Social, uma grande oportunidade não só para eles, como também para os estudantes dos respectivos cursos que oportuniza a conviverem e aprenderem, a lidar com as especificidades dos que sãos diferentes, num sistema que em sua estrutura está o preconceito, essa é uma forte experiência que pode surgir a partir das vivências que eles trazem ao espaço. Como pontua Lucia: "Na engenharia um estudante PCDI como eles não entra." Dando ênfase de que, principalmente para o curso de Serviço Social que carrega como proposta de seu currículo pensar o debate e iniciativas sobre a acessibilidade à pessoas com Deficiência Intelectual, por exemplo, poderia cumprir uma função social muito importante nesse embate, mas que pouco tem feito, já que os estudantes vêm encontrando nos próprios cursos uma imensa barreira, inclusive sofrendo exclusão pelos próprios estudantes e professores, sendo ainda esse processo mais intenso e acirrado no curso de Ciências Sociais.

Lucia declara: "O processo de exclusão que os estudantes vêm vivenciando aprofundam as crises e os surtos. Pessoas com as especificidades da Deficiência que Samuel e Bruno possuem, precisam de cuidados diários, inclusive com medicações e que os pais lutam diuturnamente e até pisando em ovos para que eles se mantenham bem. Com a exclusão, dado às características do Ensino Remoto, as crises e os surtos serão potencializados, e é uma situação que não estará ao nosso controle de cuidados mais, isso não seria responsabilidade da universidade também? Visto que são estudantes e a responsabilidade também passa a ser dela. Foi pensado nestas especificidades na hora de aprovarem o Ensino Remoto? Estão se eximindo da responsabilidade, jogando tudo nas costas dos estudantes. A UFES precisa saber que a culpa do fracasso e de tudo que pode ocorrer nesse período é culpa da universidade, e não dos estudantes. Acredito na força do movimento estudantil para inclusive barrar esse projeto, mas infelizmente mantenho minhas críticas ao DCE que era uma entidade que poderia ter dado peso à mobilização para derrubar esse projeto de ensino remoto e que considero totalmente excludente. O movimento estudantil da UFES precisa repensar e tensionar ao máximo para que estudantes como o Samuel e Bruno também sejam sujeitos na luta, não só para garantir a participação na luta, mas também pensar em como essa luta favorece a possibilidade de que no futuro outros estudantes como eles possam ingressar na universidade e já ser garantido sua permanência."

Diante desse revoltante e emocionante relato, quase somem as palavras. Mas, nós, da Juventude Faísca, não só nos solidarizamos e apoiamos a Lucia, como declaramos: não, Lucia! Você não é culpada! Não é culpada por permitir que seus filhos sonhem com a universidade. A culpa é de um sistema e de governos que excluem, que destroem sonhos em nome da manutenção dos lucros dos capitalistas. Mas dizemos: basta! Basta da precarização da educação, da precarização da saúde, da precarização da vida! Queremos sonhar e construiremos um mundo sem exploração e opressão. A revolta que sentimos com o relato da Lucia e tantos outros casos que expressam como já são afetados por esse cenário de crise, em que os capitalistas querem nos fazer pagar, canalizamos para fortalecer e potencializar ainda mais a nossa luta, pela unidade da luta dos estudantes com os trabalhadores, pelo fim do vestibular, por universidades que estejam à serviço de toda a classe trabalhadora. Fazemos um chamado, especialmente a partir desse relato, aos estudantes de Ciências Sociais e Serviço Social na UFES, a construir uma forte mobilização que carreguem em sua essência essas pautas, que pensemos debates e iniciativas a partir de cada entidade estudantil, de cada Centro Acadêmico e que o DCE coloque toda sua influência no movimento estudantil a não aceitar esse ataque que precariza ainda mais a educação, mas que construa pela base uma impactante mobilização.

Precisamos levantar a estatização dos monopólios do ensino, tomar em nossas mãos as definições de como se dará o ensino nesta situação de crise, pensando também como ficarão as universidades pós-pandemia e qual o papel que devem cumprir na sociedade. Confiamos na força dos estudantes aliados aos trabalhadores, e essa força precisa ser colocada em cena não apenas para resolver as nossas demandas imediatas, mas para questionar o que for preciso da universidade e revolucionar esse espaço para batalhar por outra sociedade, livre das mazelas que vivemos hoje.




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