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França | Macron e Le Pen: um debate que não traz nada de positivo para as camadas populares

O "duelo" entre Macron e Le Pen finalmente teve seu debate, um dos piores da Quinta República francesa. Um disfarce tecnocrático que veio fechar uma campanha presidencial que procurava ignorar a realidade dos trabalhadores e sua principal preocupação: o baixo poder aquisitivo dos salários. Essa preocupação recebeu apenas uma resposta: isso será decidido pela classe empresarial.

sábado 23 de abril | Edição do dia

Raramente vimos um debate tão entediante. O primeiro debate desta eleição presidencial, um "remake" de 2017 (onde ambos os candidatos, que também chegaram ao segundo turno, debateram) é, em última análise, apenas o coroamento de uma campanha que despertou profundo desinteresse em amplas camadas de trabalhadores e trabalhadores, da juventude e das classes sociais populares, como evidenciado pelo recorde de abstenção no primeiro turno desta eleição.

Uma campanha onde se expressavam as características das democracias mascaradas como ilustram a crise aberta em torno dos fundos partidários recebidos pelos partidos do regime, os espaços concedidos à extrema direita, a ausência de debates e, por fim, este “duelo” televisivo protagonizado por dois candidatos com uma agenda profundamente anti-social, autoritária e racista.

Na forma, foi feita uma cortesia recíproca entre os dois candidatos, incluindo uma troca de cumprimentos ao final do debate. Isso também mostra a proximidade de seus respectivos projetos. No fundo, o teor das discussões essencialmente tecnocráticas ignorou as preocupações da maioria da população após cinco anos de ofensiva neoliberal. Embora o formato do debate tenha colocado a questão social como o primeiro tema a ser abordado, enquanto os editorialistas dos grandes jornais mantinham as ilusões de um programa de Marine Le Pen apresentado como "muito social", em contraste com o de Emmanuel Macron.

Se esse debate mostrou alguma coisa, é que em termos de salários e medidas contra o alto custo de vida, o programa de Marine Le Pen é: não digamos nada.

Poderíamos resumir a sequência nesta troca: Emmanuel Macron pergunta a Marine Le Pen "Mas você não vai dizer nada sobre o salário, Sra. Le Pen?" . Ela responde: "Não, mas eu encorajo você a fazer isso, como eu!". Ao se recusarem a falar em aumento salarial, na realidade mostram que a política dos dois candidatos está totalmente subordinada aos desejos do MEDEF (Nota da edição: Movimento de Empresas da França. Organização patronal criada em 1998 que reúne empresários da indústria, do comércio e de serviços).

Em relação à aposentadoria, não se apresentaram mais diferenças entre os candidatos, exceto mais uma vez nos aspectos técnicos e estéticos. No entanto, Marine Le Pen tentou durante a campanha dar uma aparência "social" ao se opor a Macron e sua tentativa de trazer a aposentadoria para 65 anos, com sua promessa de uma "aposentadoria aos 60". Uma promessa que, na verdade, diz respeito apenas a "quem começou com um emprego com carteira assinada antes dos 20 anos", como deixou claro no debate.

Um jogo de espelhos nas questões internacionais

Enquanto Emmanuel Macron repreendeu Marine Le Pen "você fala com seu banqueiro quando fala com a Rússia?" em referência ao empréstimo obtido em 2014 pela candidata do Rassemblement national (NR: "Agrupamento Nacional", herdeiro da Frente Nacional de extrema-direita) com um banco russo próximo ao Kremlin. Le Pen respondeu: "Você recebeu Vladimir Putin com grande pompa em Versalhes".

De qualquer forma, Macron deixou claro seu programa militarista de fortalecimento da OTAN quando afirmou que queria uma "Europa forte (...) com potências fortes como a França”.

Sobre a ecologia, Marine Le Pen se posicionou a favor da "deslocalização" e do "patriotismo econômico" para que "deixemos de importar metade de nossas frutas e verduras", chamando Macron de "hipócrita do clima". Macron que ao organizar e participar de cúpulas climáticas, que terminam em fracasso, permitindo que petrolíferas como a Total continuem poluindo apesar de falar em "transição ecológica", argumento usado para demitir trabalhadores. A outra verdade que Le Pen (e também Macron) ocultaram é que ambos são defensores dos lucros das grandes empresas responsáveis pela crise climática.

Bem no meio do "debate" foram pronunciadas as palavras segurança e islamismo. Em última análise, trata-se de uma expressão de que, para ambos os candidatos, a questão não é a mais importante da campanha atual. Além disso, os dois, de fato, buscam atrair um setor dos eleitores da esquerda institucional representada por Jean-Luc Mélenchon, que neste caso rejeitou majoritariamente a ofensiva autoritária e racista do governo.

Macron é bastante criticado pelos setores populares por sua política repressiva, de segurança, mas também por sua base de direita que gostaria que ele fosse ainda mais repressivo. Enquanto isso Le Pen procura suavizar sua retórica, ainda que sobre a questão do véu para as mulheres muçulmanas, ela disse o que pensa: “Quero lutar contra o islamismo. Não luto contra o islã, sim contra a ideologia islamista que ataca os fundamentos da nossa república”.

Foi isso que Emmanuel Macron usou para se passar por um liberal preocupado com o respeito "à constituição", e tentar fazem com que esqueçam os cinco anos de ofensiva autoritária, xenófoba e islamofóbica com a Lei de Segurança Global, a Lei de Asilo e Imigração e a Lei de separatismo.

No final das contas, esse debate entre os dois se assemelhou ao de 2017. O atual presidente, aquele que mais teve a perder após meses "sem campanha", optou pela ofensiva, que sem dúvida é seu campo favorito, mas não fez nada além de reforçar a arrogância que o caracteriza.

Seja como for, esse debate permitiu que Macron e Le Pen prefigurassem seus planos de batalha para os próximos cinco anos. Dois programas que deixam claro seu apego aos benefícios do empresariado e à manutenção ou mesmo ao reforço da política racista, como ilustra a proibição do véu reafirmada por Marine Le Pen.

Um debate que não só soa como uma repetição de 2017, mas também ilustra o desgaste do macronismo, contra uma Marine Le Pen que procurou parecer mais confiante do que há cinco anos, falando de cifras e tentando captar votos fora de seu espaço, enquanto tentou esconder sua estratégia de demonizar os setores populares, especialmente os imigrantes.

Independentemente dos resultados do segundo turno no domingo, 24, tanto Macron quanto Le Pen não são um bom presságio para os trabalhadores da França. Para enfrentar os próximos cinco anos, mais do que nunca, teremos que preparar a resposta na rua contra as políticas antissociais, racistas e autoritárias que estão por vir.




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