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Machismo, promessas e demagogia por parte da direita no debate da Band em Porto Alegre

Show de machismo e da decadência do regime político golpista: veja como foi o primeiro debate em TV aberta entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, realizado ontem (01) pela emissora Band.

sexta-feira 2 de outubro| Edição do dia

Os maiores destaques foram, sem dúvidas, o machismo e a falta de soluções reais para a crise que vivem os trabalhadores e a juventude da cidade. Como um replay sem fim, vemos candidatos antigos na política gaúcha pautando debates que não resolvem os problemas profundos da população porto-alegrense, como o desemprego, a precarização e a fome e fazem promessas como se pudessem criar uma ilha de prosperidade em meio a um país do Bolsonaro em crise econômica e sanitária gravíssima.

Ao contrário de debates sérios, presenciamos um show de machismo: a cada novo embate entre os representantes da extrema-direita e da direita, as esposas dos candidatos entravam como suposto argumento para atacar o adversário. E o que falaram sobre a demissão das trabalhadoras terceirizadas da SMED? Sobre o aumento da violência doméstica na pandemia? Nada. Rodrigo Maroni (PROS) estava mais preocupado em citar Manuela D’Ávila (PCdoB) do que qualquer outra coisa, se alçando como campeão do machismo no debate, uma disputa acirrada entre os candidatos. Em quase 100% de suas falas, Manuela era citada como traidora ou mentirosa, sem entrar no debate político e claramente dando muito mais ênfase em atacar Manuela do que os outros adversários. Ele chegou ao cúmulo de dizer que Manuela não podia ser considerada feminista pois criticava Maria do Rosário, como se mulheres não pudessem ter divergências. Já com Marchezan (PSDB), Maroni falou manso e o elogiou. Nós do Esquerda Diário temos duras críticas a Manuela D’Ávila e ao seu partido, que insistem em se aliar com a direita Brasil a fora, mas repudiamos frontalmente as ofensivas machistas por parte dos candidatos da direita.

Valéria Muller, candidata em Porto Alegre a vereadora do MRT por filiação democrática no PSOL, comentou sobre o debate:

Além de machistas, demagogos. O desprezível Valter Nagelstein (PSD), representante de tudo que há de mais nojento, racista e machista na extrema-direita, tentou aparecer como preocupado com a população, porém é o mesmo que fez piada quando o Brasil atingiu 50 mil mortos por COVID e que leva a frente projetos reacionários na câmara de Porto Alegre, como o Escola Sem Partido e a reabertura do comércio sem nenhuma condição sanitária aos trabalhadores, tudo em nome do lucro dos grandes empresários. Tenta emplacar uma espécie de Bolsonaro gaúcho, deixando bem claro que quer governar para a turma do Parcão e do Moinhos, fazendo com que os mais pobres sejam arrasados pela crise enquanto seus amigos empresários nadam em lucro.

Outro demagogo profissional é Marchezan, que tem coragem de falar sobre as “poucas” mortes por COVID em Porto Alegre enquanto a capital gaúcha está entre as que menos fez teste na população, incluindo os trabalhadores da saúde, e mais de 4 mil pessoas já morreram pela doença. Marchezan insiste no “bom resultado” de seu mandato para a saúde, mas na verdade o único bom resultado é para os empresários que poderão avançar na privatização do IMESF enquanto cerca de 1300 trabalhadores da saúde amargam no desemprego e a população sofre.

O transporte público também foi um tema bastante presente no debate. Quanto ao projeto político de Marchezan, o que tem a oferecer para os rodoviários e os usuários é um transporte urbano privatizado, sucateado e com preços altos. Durante seu mandato avançou nesse projeto, alimentando a ganância das máfias donas do transporte público de Porto Alegre, tentou avançar na privatização da Carris e na demissão de mais de 3.000 cobradores, algo que não conseguiu levar a frente devido a luta dos rodoviários no final de 2019.

“Tudo para os empresários e nada para os rodoviários” poderia ser o lema também de Sebastião Melo (MDB) e José Fortunati (PTB), dois candidatos que hoje disputam separados mas já governaram juntos a capital gaúcha. No debate, os dois falaram sobre o combate a corrupção quando na verdade seus partidos golpistas estão afundados em investigações por corrupção. O PTB de Fortunati é o mesmo PTB de Roberto Jeferson, baixo clero do centrão, aliado de Bolsonaro e corrupto de primeira ordem. O MDB de Melo é o mesmo de Sarney, Calheiros, Cunha e tantos outros corruptos que governam o país há anos para os ricos. Certamente não é eficiente combater a velha política corrupta e golpista depositando confiança naqueles que governaram junto dos grandes barões do transporte, verdadeiras máfias, que estão sempre prontas para atacar os rodoviários.

Manuela D’Ávila apresentou no debate um programa com aparência democrática, mas que esconde um conteúdo liberal. Fortaleceu a necessidade de combate ao desemprego e à fome, mas não apresentou medidas concretas para isso. Como resolver o desemprego em meio a uma forte crise sem atacar o lucro dos empresários milionários que enriquecem cada vez mais às custas da precarização do trabalho? Sem tocar nos privilégios dos políticos, nas isenções fiscais milionárias, nos sonegadores bilionários e nas grandes fortunas da cidade não será possível investir no DMAE para que não falte água nas periferias de Porto Alegre. Dessa forma, o “diálogo” que Manuela defende no seu discurso parece ser um recado aos grandes empresários da capital para que fiquem tranquilos, pois se eleita a cidade será governada ao lado deles, como inclusive tem feito seu companheiro do PCdoB Flávio Dino no Maranhão, onde aprovou a reforma da previdência e definiu como serviço essencial as empregadas domésticas em meio a pandemia.

A candidata do PSOL Fernanda Melchionna fez duras críticas ao reacionário Nagelstein e denunciou as demissões das trabalhadoras do IMESF, fruto da política de Marchezan. Melchionna falou sobre a necessidade de cobrar dos ricos, mas fez falta um conteúdo anticapitalista em seu discurso para que de fato possamos ter a perspectiva de atacar a desigualdade na sua nascente: o sistema capitalista. Sem uma política anticapitalista não será possível resolver os problemas dos trabalhadores, das mulheres, dos negros e dos LGBTS. Fazer um fundo municipal com os recursos que as empresas devem não resolve o problema do transporte público, por exemplo, porque o patrão seguirá lucrando, a empresa segue nas mãos de uns poucos que exploram outros milhares.

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Chama atenção que os candidatos da direita e da extrema-direita falam como se não vivêssemos uma das maiores crises econômicas da história. São feitas promessas utópicas como geração de empregos sem discutir a concretude dos problemas, como se fosse possível resolver o desemprego na capital gaúcha enquanto a realidade nacional é de crise profunda. A única forma de conquistarmos de fato saúde, educação e transporte públicos de qualidade para todos, é atacando o lucro dos capitalistas e se enfrentando com todo o sistema político que desde o golpe de 2016 vem retirando liberdades democráticas e descarregando a crise nas costas da maioria da população. E cabe lembrar aos candidatos que Porto Alegre não é uma ilha: não resolveremos os problemas regionais sem se enfrentar com o regime político nacional do golpe. Por isso precisamos lutar para unificar a classe trabalhadora brasileira contra os governadores que tiram nossos direitos e também contra Bolsonaro, Mourão e todos os capitalistas.

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Por fim, importante lembrar que o debate não contou com a participação de dois candidatos que, por mais que não tenhamos acordo com a política deles, tinham o direito democrático de poder participar: Julio Flores (PSTU) e Luiz Delvair (PCO). A exclusão dessas duas candidaturas que não recebem dinheiro de grandes empresários é um absurdo e expressa o caráter antidemocrático dessas eleições, onde as candidaturas patronais são beneficiadas pelos monopólios dos meios de comunicação, como é o caso da Band.




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