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Machado de Assis: um escritor Universal

Pedro Pequini

Machado de Assis: um escritor Universal

Pedro Pequini

“O escritor pode ser homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.” ASSIS, Machado

O senso comum correntemente defende a ideia de que a escrita de Machado de Assis seria universal. Todavia, enquanto amantes de literatura e marxistas, devemos voltar nosso olhar para isso com estranhamento, a fim de destrinchar os interesses políticos que jazem por trás de tais ideias. Esse será o objetivo deste artigo.

Um ensinamento escolar

No meu ensino médio, lembro-me de um esquema feito pelo meu professor, quando começamos as aulas de Machado, no qual de um lado ele colocava "Universal", e, do outro "Local/Datado". Era mais ou menos assim:

Universal x Local

Depois disso, argumentava que as obras do Machado de Assis, por tratarem da nossa alma, alcançavam o mais profundo das angústias humanas e, portanto, permaneciam atuais, podendo ter sido escritas por alguém de qualquer nacionalidade, estando, consequentemente, do lado do "Universal". Com isso, a escola desprendia o fundador da Academia Brasileira de Letras do tempo e do espaço, quase como se seus livros pairassem acima de nossas cabeças.

Talvez, você também tenha aprendido coisas parecidas na sua formação. Talvez, você já tenha usado de tais ideias para defender o nosso tão querido Machado contra alguém que não via valor nas amarelas páginas do famigerado defunto autor. Agora, será que munidos de vagos argumentos como "alma", "angústias humanas" e "universalidade", estamos bem preparados para explicar a grandiosidade expressa em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"?

Um escritor "pouco brasileiro"

Bom, tratemos primeiro da última parte: o que será que há de fundo na ideia de que suas obras pode ter sido escritas por alguém de qualquer nacionalidade"? Para tentar responder isso, retomemos a longa tradição que acusa Machado de ser um escritor pouco brasileiro.

Mário de Andrade, em um texto feito para o centenário do Machado de Assis, no qual apresenta várias críticas ao escritor, a despeito da sua grandiosidade técnica, contrapõe-o a outros escritores para demonstrar seu pouco ethos brasileiro, seu carente espírito de nacionalidade:

“o que ele melhor representa é a continuação dos velhos clássicos, continuação tingida fortemente de Brasil, mas sem a fecundidade com que Álvares de Azevedo, Castro Alves, Euclides e certos portugueses estavam… estragando a língua, enriquecendo-a no vocabulário, nos modismos expressionais, lhe dilatando a sintaxe, os coloridos, as modulações, as cadências, asselvajando-a de novo para lhe abrir as possibilidades de um novo e mais prolongado civilizar-se”

A ausência de palmeiras e sabiás na literatura machadiana pode, à primeira vista, fazer com que concordemos com a tese de Mário. De fato, ao voltar seu olhar para a classe alta carioca, temos, em suas narrativas, ambientações domiciliares mais "neutras" se comparadas às carregadas descrições românticas que adornavam seus versos e prosas com a fauna e flora típicas do Brasil.

Neste momento do andar da carruagem, vale à pena retomar à programática frase de Machado, cuja significação norteia toda sua produção:

“O escritor pode ser homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”

Aqui, temos Machado demonstrando sinteticamente que é possível ser brasileiro e datado do século XVIII mesmo quando retrata-se um drama vivido na França do século XII. Ao não falar de palmeiras e sabiás, não se perde o traço profundamente nacional e do seu tempo, muito pelo contrário, pois isso está na forma como é decidido apresentar suas narrativas, está no olhar do narrador. Machado, desta forma, emancipa o escritor brasileiro de ter de apresentar o Brasil a partir do olhar do estrangeiro.

Em uma célebre passagem de um dos seus textos críticos, Instinto de Nacionalidade, Machado cristaliza essa ideia a partir de uma comparação com Shakespeare:

"O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e não acabaria se fosse necessário recorrer aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser impresso em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se o autor do Song of Hiawatha não é o mesmo autor da Golden Legend, que nada tem com a terra que o viu nascer, e cujo cantor admirável é; e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês. Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam."

Logo, ao contrário da tese de que Machado estaria flutuante em relação ao espaço, é um escritor profundamente brasileiro, talvez o maior de todos. Seus livros engendram os processos históricos vividos e analisados por ele, tornando-os fortemente enraizados nas cores locais. Como escreveu uma vez talvez o principal crítico do Machado, Roberto Schwarz, na introdução do livro "Um Mestre na Periferia do Capitalismo":

"Em confronto com a noção corrente de "universalidade", demonstra-se o prejuízo estético na opção de ignorar as particularidades locais formalizadas pelo autor"

Um artesão da alma

Alinhados com o mundo das ideias de Platão, aqueles que saem em defesa do Machado enquanto um artesão da alma no fundo acreditam que há algo no ser humano que permanece imutável desde o início dos tempos até o infinito e além. Tal argumentação é profundamente idealista na medida em que acha possível a ideia preceder a matéria, como se trouxéssemos memórias de um mundo imaterial precursor deste.

Enquanto marxistas e, portanto, materialistas, encaramos a realidade desde uma perspectiva histórica e vemos que todos somos frutos dos nossos tempos e espaços.

Entretanto, somente isso também não explica como, a despeito do fato de Machado de Assis ser um escritor do seu tempo, ele permanece mais atual do que nunca. Para compreender isso, é necessário encarar as profundas contradições na formação do Brasil que Machado tão bem entendeu e retratou.

Enquanto um país da periferia do sistema, desde o início confluímos elementos atrasados e avançados do capitalismo. Mantínhamos, por exemplo, no século XVIII, a escravidão como mão de obra, algo já superado pelo trabalha assalariado em boa parte do mundo, e importávamos o que havia de mais desenvolvido no transporte de produtos e pessoas, a malha ferroviária da Inglaterra.

Para esse fenômeno, Trotski encontrou uma lei que nomeou de "Desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo". Com isso, o dirigente do exército vermelho deu conta de explicar como países como a Rússia estariam prontos para a revolução socialista sem precisarem passar por uma revolução burguesa, uma vez que já estavam profundamente inseridos na dinâmica internacional do capital.

Machado de Assis, em suas obras, deu conta de expressar essas contradições tão profundas da sociedade brasileira de sua época, as quais em essência permanecem até os dias de hoje. Portanto, podemos dizer que Machado aparece enquanto “universal” (aqui lê-se atual) por ter sido um escritor profundamente do seu tempo, por ter mergulhado nas estruturas sociais de sua época, as quais, embora apodrecidas e decadentes, mantêm-se até hoje, permitindo, assim, que nós, ao ler suas obras em 2021, infelizmente, nos identifiquemos com o conteúdo narrado.

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