Internacional

Opinião

Luta de classes na França e seus exemplos para o Brasil

Os recentes exemplos da luta de classes na França, como por exemplo os Coletes Amarelos, a greve geral contra a reforma da previdência e a greve dos petroleiros em Grandpuits, pavimentam a possibilidade de formação de um partido revolucionário da classe trabalhadora na França. Essa é a batalha que a CCR, sessão francesa da Fração Trotskista, da qual o MRT faz parte, está levando à frente nesse momento. Tomemos esse exemplo para combater Bolsonaro, Mourão, os militares e todos os golpistas no Brasil.

Rosa Vertov

Estudante de Relações Internacionais na UnB

sexta-feira 16 de abril| Edição do dia

Gigantesca coluna de grevistas da Coordenação SNCF-RATP que encabeçou a manifestação do dia 9 de janeiro de 2020 em Paris (LP/Yann Foreix)

São 362 mil mortes por COVID-19 no Brasil. São anos e anos de reformas atrás de reformas, derrotas categóricas e desmoralizantes. Temos hoje um governo genocida e ultraneoliberal capitaneado por Bolsonaro, mas que está junto do saudoso da ditadura Mourão, dos militares, dos governadores e do judiciário, atores determinantes no apoio a todas as reformas e também do golpe institucional.

Mas nos últimos dias, diversas categorias foram à luta, como os rodoviários no Distrito Federal, em Porto Alegre, Natal, Recife, Espírito Santo; as metalúrgicas da LG em São José dos Campos/SP e da Ford em Taubaté/SP contra as demissões; os metroviários em São Paulo, Porto Alegre e no Distrito Federal; as trabalhadoras da saúde em Belo Horizonte - para muitas trabalhadoras e trabalhadores tornou-se insuportável ver mais e mais ataques, condições insalubres de trabalho e a demora infernal na vacinação. A classe trabalhadora brasileira não sofreu uma derrota permanente.

É nesse sentido que retomo os exemplos do recente ciclo de luta de classes na França para pensar os caminhos para a luta no Brasil. Esse país foi palco da irrupção de diversas lutas, como foi com os Coletes Amarelos, a greve contra a reforma da previdência de Macron e a greve de petroleiros da Total em Grandpuits.


Imagens das mobilizações dos Coletes Amarelos em 2018

Foi em meio a essas mobilizações que surgiu uma nova camada de jovens, imigrantes, negros e mulheres operárias profundamente impactadas e à frente dessas lutas. A partir da sessão francesa da Fração Trotskista, da qual o MRT também faz parte, a Corrente Comunista Revolucionária (CCR), tendência interna do NPA (Novo Partido Anticapitalista), interviemos em todas essas lutas apontando como apenas a classe trabalhadora por meio dos seus métodos históricos de luta - as greves e piquetes, os comitês de fábrica e de greve, a auto-organização por cada local de trabalho em permanente oposição às burocracias sindicais que separam as categorias em luta e buscam negociar migalhas com as patronais - é que poderia não só conquistar melhores condições de trabalho, mas avançar para desestabilizar e questionar o próprio capitalismo na França.


Bloco de petroleiros de Grandpuits

Por meio do Revolution Permanent, diário irmão desse Esquerda Diário, chegamos a milhares e milhares de jovens estudantes e trabalhadores da linha de frente de cada luta, divulgando ideias de combate.

Hoje na França, existe uma possibilidade de que se possa construir um partido revolucionário de trabalhadores, uma alternativa anticapitalista, anti-imperialista, feminista, anti-racista e comunista. Existe uma jovem vanguarda, mas que ainda não tem uma direção política revolucionária que seja capaz de conduzir os explorados e oprimidos em direção à superação desse sistema de miséria.

É nesse sentido que a CCR lançou a pré-candidatura de Anasse Kazib para presidente em discussão interna dentro do NPA - trabalhador ferroviário, filhos de imigrantes e um dos líderes da greve contra a reforma da previdência e da coordenação da RATP/SNFC. Essa coordenação foi uma forte demonstração de força e auto-organização que junto de milhares de trabalhadores e jovens parou a França por mais de um mês contra os ataques de Macron. Mesmo diante das tentativas da majoritária do NPA de implodir o partido, a CCR deu fortes batalhas para que se priorizasse os debates democráticos e manter a agrupação da vanguarda, e hoje, nossa política é um chamado à toda esquerda anticapitalista no sentido da construção de um partido revolucionário da classe trabalhadora na França. Só um potente partido imbuído de uma estratégia socialista, capaz de ser um catalisador da rebelião, das lutas que tem à frente essa nova camada de jovens e trabalhadores dispostos a questionar tudo, só assim poderemos ultrapassar a dinâmica das revoltas e avançar em direção à revolução.


Grevistas do transporte (SNCF e RATP) invadem e realizam manifestação surpresa na Gare de Lyon em Paris no dia 23 de dezembro de 2019 (O Phil des Contrastes)


Coluna da Coordenação RATP-SNCF 16 de janeiro de 2020 em manifestação contra a reforma da previdência, com Anasse à frente (Revolution Permanent)

Saiba mais: A nova geração operária na França e a necessidade de um Partido Revolucionário dos Trabalhadores

A experiência francesa demonstra: para derrotar Bolsonaro, Mourão, os militares, governadores, o judiciário e todos os autores do regime golpista é preciso uma saída independente, uma saída da classe trabalhadora. A reabilitação de Lula, que perdoou os golpistas e é um dos pilares da política de passividade da CUT, numa eterna espera pelas eleições de 2022, é uma manobra para desviar o descontentamento das massas para dentro do regime, com todas as reformas ultraneoliberais de Bolsonaro e dos golpistas intactas.

Por isso, é preciso exigir da CUT e da CTB dirigidas pelo PT e PCdoB, para unificar os focos de resistência operária e popular para impor a estatização de todo o sistema de saúde sob controle operário, reconversão industrial para produção de insumos de combate ao vírus, quebrar as patentes das vacinas para sua distribuição universal e para produzi-las em território nacional imediatamente. Para revogar todas as reformas neoliberais como a trabalhista, da previdência, o teto de gastos, dando condições mínimas de trabalho para nossa classe, um plano de obras públicas nacional controlado pelos trabalhadores e financiado com o fim do pagamento da dívida pública fraudulenta.

Para conquistar todas essas medidas, precisamos fazer isso por meio da luta de classes contra o regime do golpe institucional de conjunto, sem nos iludir com saídas institucionais como o impeachment - que é basicamente pedir para Artur Lira, o centrão e o STF golpista habilitarem Mourão como presidente; precisamos impor pela uma Assembleia Constituinte livre e soberana, avançando para auto-organizar a classe trabalhadora junta de todas e todos os oprimidos rumo a um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo.

Leia mais: Unificar os focos de resistência: que as centrais sindicais construam um dia nacional de lutas no 20 de abril

O exemplo das lutas na França demonstram que a classe trabalhadora internacional ainda mantém a cabeça erguida em vários lugares do mundo - devemos nos apoiar nessa força desde o Brasil, a classe trabalhadora não tem fronteiras, é uma só em todo mundo. É possível botar abaixo esse regime, combater a pandemia e abalar todas as estruturas do Estado capitalista. Estamos sim num momento profundamente reacionário no Brasil, mas as coisas não ficaram assim para sempre. A luta de classes é implacável! Os ventos internacionais sopram luta!

A pandemia impôs um “interregno” no último ciclo da luta de classes a nível mundial, mas houve contra-tendências importantes como a própria rebelião negra do Black Lives Matter no coração do império yankee, a luta contra o golpe militar em Mianmar que avança para níveis próximos ao de uma guerra civil. O capitalismo em sua época imperialista já não pode manter seu equilíbrio por fora de crises, guerras - mas também de revoluções. E esse último fator é o fundamental para a classe trabalhadora, no Brasil e no mundo, virar o jogo, em direção a uma sociedade superior, sem opressão nem exploração, o fim do capitalismo e a sociedade de classes - o comunismo.

Para chegar até esse objetivo, é preciso transformar as revolta em revoluções conscientes. O partido revolucionário é um componente fundamental, sem o qual não se avança para transformações radicais na sociedade, é o elemento consciente capaz de ser um catalisador da auto-organização da classe trabalhadora consciente que luta para que as massas sejam poder político. Alçar todas e todos os trabalhadores como sujeitos de gerir um "Estado de novo tipo", sob as ruínas do Estado burguês, a ditadura do proletariado - a mais ampla democracia de massas, soviética, e o maior terror ditatorial para a ínfima minoria de burgueses.

Toda revolução parece impossível até que
ela seja inevitável
- Trótski

Essas e outras reflexões serão parte do IV Congresso do MRT. Mais do que nunca é necessário nos apoiarmos na experiência da classe trabalhadora internacional. Essas são algumas das perspectivas do MRT para que construamos um partido da classe trabalhadora no Brasil e, internacionalmente, como sessão brasileira da Fração Trotskista, reconstruir o partido mundial da revolução socialista, a IV Internacional.




Tópicos relacionados

Colunistas Esquerda Diário   /    Luta de Classes   /    Marxismo   /    Internacional

Comentários

Comentar