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Lula na Europa | Lula confraterniza com líderes do imperialismo europeu que atacam os povos oprimidos

A viagem de Lula pela Europa tem sido a expressão do clima antecipado das eleições. Enquanto Bolsonaro está fazendo turismo no deserto, andando de Harley Davidson no Catar, o ex-presidente petista é recebido com pompas no Parlamento Europeu e até pelo odioso neoliberal Emmanuel Macron. De um lado, o isolamento da extrema direita, do outro, a adesão de líderes do imperialismo europeu ao projeto lulista.

quinta-feira 18 de novembro | Edição do dia

Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução/Twitter

É evidente o contraste entre o isolado Bolsonaro, há pouco tempo ignorado na cúpula do G20, com o requisitado Lula em giro pela Europa. Um fato se liga diretamente ao outro, Bolsonaro faz questão de se postular como a personificação da extrema direita global - apesar de seu isolamento cada vez maior-, após a queda de Trump, se notabilizando por seu negacionismo climático e sanitário. Além do fato de que mesmo o poder tendo passado para as mãos democratas, Bolsonaro mantém sua linha de vassalagem em primeiro lugar a Washington.O que explica a repulsa dos demais líderes a sua pessoa, pois gostam de ostentar o verniz demagógico do capitalismo verde, mesmo estando à frente de alguns dos países mais poluidores do mundo. Mas a adesão a Lula passa também pela mensagem que o ex-presidente quer transmitir.

A viagem de Lula é, evidentemente, mais uma peça de sua campanha já em curso. O conteúdo do discurso eleitoral do ex-presidente se assenta na nostalgia do passado e na promessa de sua restauração dos anos dourados, e isso não apenas em relação ao Brasil mas na dinâmica global. Lula se coloca como o profeta de uma marcha ré dos nacionalismos econômicos que emergiram com a crise de 2008, o profeta de um mundo caduco em que o fracasso do multilateralismo do seu período de governo pariu figuras como Trump, Boris Johnson e Bolsonaro.

“No entanto, são protagonistas de uma das mais extraordinárias experiências da história moderna, que foi a construção da União Europeia.(...) A União Europeia, o Parlamento Europeu e vocês, senhoras e senhores eurodeputados, são portanto exemplos dessa virtude humana. A União Europeia não é perfeita, como nada é, mas é um patrimônio da humanidade, como exemplo de cooperação e construção da paz entre os povos”, trecho do discurso de Lula no Parlamento Europeu.

No Parlamento Europeu, em que foi ovacionado, Lula fez um discurso para agradar os ouvidos dos defensores da União Europeia, em um momento em que o bloco europeu segue sob contestação popular, como foi o resultado do Brexit, em uma ruptura capitalizada pela extrema direita através de Boris Johnson. Porém, também pela esquerda tiveram enormes expressões de descontentamento popular contra a tirania da Troika e das instituições da UE, como foram os plebiscitos na Grécia contra a imposição dos ajustes nas costas do povo trabalhador grego, e que se não fosse a direção traidora do Syriza poderiam ter resultado numa ruptura pela esquerda contra essa hegemonia da burguesia europeia.

Essa contestação do empreendimento da União Europeia é o maior sintoma da crise orgânica que toma os principais países europeus. Uma crise que se revela na crise de representatividade dos diversos sistemas políticos, como na Alemanha em que a eterna chanceler Angela Merkel caiu após 2 décadas no poder. A viagem de Lula aliás foi a convite da social-democracia alemã, da fundação Friedrich Erbert, associada ao SPD que herdou o poder após a era Merkel, mas numa coalizão bastante pulverizada para eleger o primeiro-ministro, Olaf Scholz, com quem Lula se encontrou. O convite a Lula é uma mostra dos esforços da social-democracia pelo mundo de estancar a hemorragia da democracia liberal burguesa, que vem sendo desafiada pela ascensão da extrema direita, mas também pela luta de classes como os Coletes Amarelos na França e as jornadas massivas pela independência da Catalunha em relação ao Estado Espanhol.

“Acreditamos num mundo cada vez mais plural, unido em torno de valores como solidariedade, cooperação, humanismo e justiça social. Acreditamos numa nova governança mundial, começando pela ampliação do Conselho de Segurança da ONU, e vamos continuar lutando por ela.”

O centro do discurso de Lula foi sobre a necessidade de cooperação e unidade, um disfarce tradicional da social-democracia para sua prática política de conciliação de classes. Bastante simbólico desse conteúdo foi que durante essa turnê pela Europa, Lula deu declarações acenando positivamente frente às especulações de Geraldo Alckmin como vice em sua chapa, dizendo que tem “profundo respeito por ele” e que “não há nada que aconteceu que não possa ser reconciliado”. Esse Alckmin, que Lula disse ainda que é o “único tucano que gosta de pobre”, foi o governador que administrou o estado de São Paulo por mais de uma década atacando e precarizando os serviços públicos, principalmente a educação e a categoria de professores, e reprimindo violentamente a população com a PM - como não lembrar do massacre do Pinheirinho?

O encontro de Lula com o presidente francês Emmanuel Macron vai no mesmo sentido. Macron é um presidente odiado pelos trabalhadores franceses, tendo sido alvo do levante dos Coletes Amarelos, contra reformas sociais e aumento de imposto sobre os combustíveis, e também dos protestos contra a reforma da previdência, que levaram a uma greve geral em 2019. Mesmo sendo esse reacionário, inimigo dos trabalhadores, no cálculo político de Lula, pesa o fato de Macron ser um desafeto de Bolsonaro, principalmente na questão do meio ambiente onde, de forma demagógica, o presidente francês busca se posicionar como defensor da questão ambiental. O petista mostra que sua política externa será a extensão da política interna, para derrotar Bolsonaro vale todo o tipo de aliança.

“Felizmente, essa era de trevas que se abateu sobre o planeta, por conta da ascensão de governos de extrema direita pelo mundo afora, emite claros sinais de que está chegando ao fim. Partidos e candidatos progressistas vêm conquistando importantes vitórias. Isso está acontecendo em vários países, e estou certo de que vai acontecer também no Brasil, a partir da eleição presidencial do ano que vem.”

Assim como Lula já havia acenado em relação à China, essa é mais uma movimentação do ex-presidente sinalizando que a diplomacia recente de alinhamento automático a Washington terá um fim num possível governo seu, ainda que Lula e o PT mantenham os votos simpáticos a Biden. O entusiasmo da recepção dos líderes europeus também busca reestabelecer pontes com um parceiro estratégico na América Latina, após ter sido frustrado, por exemplo, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, travado pelo negacionismo ambiental de Bolsonaro e que seria benéfico para as indústrias alemãs.

Lula denunciou em seu discurso o valor exorbitante gasto pelo imperialismo estadunidense para promover as guerras no Oriente Médio, 8 trilhões de dólares, dinheiro suficiente para erradicar a fome no mundo. É um sinal que de que os acordos com o Partido Democrata não vão bem, que prefere uma alternativa da direita neoliberal clássica para governar o país em 2023. No entanto, Lula não disse nenhuma palavra sobre o fato de França, Alemanha, Reino Unido, também terem tomado parte e financiado essas mesmas guerras. Seja o imperialismo estadunidense, seja o imperialismo europeu, o papel do imperialismo é a defesa dos interesses da burguesia em detrimento dos trabalhadores das mais diversas nacionalidades. Como mostra a eterna pretensão de Lula por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, sua perspectiva é meramente aumentar a margem de manobra do país dentro da geopolítica que o sistema capitalista permita. Somente a luta dos trabalhadores poderia oferecer uma resposta consequente ao domínio imperialista, batalhando para reverter as entregas das riquezas nacionais, assim como das privatizações ao capital estrangeiro. Por isso defendemos uma assembleia constituinte livre e soberana em que os trabalhadores possam lutar pela emancipação nacional contra o julgo dos diferentes imperialismo.




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