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Fórum de Davos | “Lucrando com a dor”: o brutal informe sobre o crescimento da desigualdade

Esse é o título do informe da Fundação Oxfam apresentado nesta segunda-feira, horas antes do Fórum de Davos. Mostra com dados inquestionáveis como cresceu a riqueza com a pandemia e a crescente crise alimentar. Antes do evento, o FMI adiantou que se aproximam “mais calamidades”. Ao longo dos 4 dias de duração do Fórum, 60 mil pessoas morrerão por falta de acesso à saúde no mundo.

terça-feira 24 de maio | Edição do dia

O Fórum Econômico Mundial se reúne de forma presencial novamente, após 2 anos. Como sempre, será em Davos, na Suiça, reunindo mais de 2.000 líderes políticos, empresariais e de diversas organizações de um mundo dominado pela pandemia do coronavírus e os efeitos da guerra na Ucrânia.

Entre os principais oradores estarão o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva - que acaba de publicar um documento com definições preocupantes. “A economia mundial enfrenta talvez a sua maior prova desde a Segunda Guerra Mundial. Nos enfrentamos com uma potencial confluência de calamidades”, disse ela.

A preocupação é correta. A crise internacional se aprofunda com a guerra, os problemas energéticos, a inflação e outros problemas que arrastam a economia mundial. Mas os rostos dos líderes compartilharam as caretas de preocupação com alguns sorrisos. Calamidades são mais cedo que tarde descarregadas sobre os povos do mundo. Pior ainda: para os capitalistas, elas se transformam em oportunidades de negócios.

Isso é confirmado por um relatório da ONG Oxfam publicado, justamente, no início do Fórum. O título resume os dados brutais acumulados na investigação: “Lucrando com a dor”.

Ele revela, com dados incontestáveis, como a pobreza extrema cresce no mundo na mesma proporção que a riqueza extrema. Se tomarmos como parâmetro a duração do Fórum de Davos, 4 dias, nesse período as fortunas dos empresários de energia e alimentos aumentarão em dois bilhões de dólares. Se olharmos do outro lado, 3 milhões de pessoas cairão na pobreza extrema. 60 mil pessoas morrerão por falta de acesso aos sistemas de saúde.

Tudo isso acontecerá em apenas 96 horas. Enquanto os líderes projetam seus power points sobre calamidades e preços de alimentos e energia, enquanto comem iguarias reunidos em prédios luminosos e climatizados. “Que bárbaro é o aumento do trigo e do gás”, dirão em 100 idiomas.

O relatório da Oxfam retoma algo que é conhecido: a pandemia significou uma crise sanitária, social e econômica, mas nela as desigualdades entre as classes foram exacerbadas. O relatório fornece novos dados que não dão nada além de raiva. Após a pandemia:

  • 10 pessoas possuem mais que 40% da população global
  • Bilionários enriqueceram nos últimos 2 anos o que antes levava 23 anos.
  • Bilionários de alimentos e energia estão US$453 bilhões mais ricos do que há dois anos.
  • 263 milhões de pessoas caíram na "pobreza extrema" em 2022.
  • Surgiram 62 novos bilionários na indústria alimentícia.
  • Esses lucros e concentração de riqueza estão contribuindo para o aumento dos preços; estima-se que nos EUA tenham influenciado o aumento da inflação em 60%.

Para obter outra imagem concreta, a Oxfam resume assim: “uma pessoa pertencente à metade mais pobre da população mundial levaria 112 anos para ganhar o que alguém do 1% mais rico ganha em um ano”.

A pandemia é o capitalismo

As crescentes fortunas não contradizem a preocupação de alguns dos líderes que estarão em Davos. E daqueles que não estarão também. The Economist, um dos jornais mais conservadores e influentes do mundo, publicou recentemente um editorial intitulado: "A iminente catástrofe alimentar". E acrescenta que “a guerra está levando um mundo frágil à fome em massa”. Sem deixar de responsabilizar Putin por toda a situação, esquecendo o papel da OTAN no conflito, insiste que "alimentar um mundo frágil é assunto de todos". É que, com olfato de classe, sabe que tudo isso pode se tornar um combo explosivo. As disputas comerciais podem trazer mais tensões geopolíticas, mas também desespero e tensões sociais: a fome e o aumento das contas deram a luz à rebeliões ao longo da história.

Ao final do relatório, a Oxfam sugere que "os governos devem tomar medidas urgentes para freiar a riqueza extrema. Devem aumentar imediatamente a tributação sobre a riqueza, o capital e os benefícios “caídos do céu” das grandes empresas, e investir esse dinheiro na proteção da população com maiores necessidades e na redução das desigualdades e do sofrimento".

É a mesma coisa que a ONG levanta a cada Fórum de Davos. Certamente de boa vontade. Mas sempre com o mesmo resultado: a Oxfam fala com eles com o coração e os poderosos contestam com os bolsos. Contas altas, inflação, fome, precariedade, guerras comerciais e agora ainda por cima mísseis.
A pandemia é o capitalismo. As calamidades são geradas pelo capitalismo. Um sistema baseado, precisamente, na apropriação privada de tudo o que a humanidade produz. Que transforma serviços básicos em lucro. Que transforma a saúde em um negócio mesmo na pior das pandemias. Que rouba o tempo e o fruto do trabalho de trabalhadores e camponeses. Que enche barcos de comida na frente de crianças famintas.

Os que crimes sociais enumerados pela Oxfman são os mesmos que Friedrich Engels denunciou no início da Revolução Industrial: “quando a sociedade tira de milhares de seres humanos os meios indispensáveis ​​de existência, então o que se comete é um crime”. Apesar do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, com serviços que podem melhorar a vida da população e aumento da produtividade para alimentar o planeta, as desigualdades são tão criminosas quanto há um século e meio.

No país de Bolsonaro, o reacionarismo criminoso da extrema-direita, a precarização do trabalho imposta com a reforma trabalhista, o desemprego, a inflação, o avanço das privatizações e o impacto da irresponsabilidade de governadores e do negacionismo federal na pandemia são as marcas da ofensiva capitalista que enriquece o agronegócio e o capital financeiro.

Como escrevemos em nosso Editorial, é preciso construir a força para que a mobilização da classe trabalhadora e dos pobres e oprimidos seja capaz de reverter todos os ataques que passaram desde o golpe de 2016 e se aprofundaram com o governo Bolsonaro, exigindo para isso que as burocracias sindicais saiam da paralisia, desenvolvendo a auto-organização das massas e batalhando para impor, através dos métodos da luta de classes contra o bolsonarismo, os militares, a casta de juízes e o centrão que hoje dominam o país, um programa para que os capitalistas paguem pela crise.

Contra os parasitas que lucram bilhões com nosso sofrimento, precisamos organizar a força necessária para expropriar as multinacionais alimentícias e as grandes empresas do agronegócio, para colocá-las sob controle dos trabalhadores como forma de enfrentar a fome. É preciso revogar integralmente as reformas neoliberais e todas as privatizações, como o enorme ataque em curso com a privatização da Eletrobrás, bem como reduzir a jornada de trabalho sem redução dos salários, dividindo as horas de trabalho entre empregados e desempregados para que todos tenham trabalho com direitos.

Estes são exemplos de um programa de independência política da classe trabalhadora que nós do MRT levantamos e gostaríamos de debater com o conjunto da nossa classe e da esquerda, diante da barbárie ultraneoliberal da extrema-direita e da paralisia eleitoral da conciliação de classes petista. A classe trabalhadora e os pobres do mundo precisam de seus “fóruns”, reuniões e assembleias para discutir como acabar com esse sistema criminoso e lutar por essa nova sociedade. É a única saída.




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