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ELEIÇÕES CAMPINAS

Lívia Tonelli: “por que retiro minha candidatura pelo PSOL em Campinas diante da coligação com o PT"

No último sábado, dia 8 de Agosto, o PSOL confirmou sua coligação com o PT nessas eleições para a prefeitura de Campinas, anunciando o nome de Edilene Santana para o cargo de vice, junto a Pedro Tourinho para prefeito. Diante disso, após abrir inúmeros debates públicos sobre o erro dessa decisão, Lívia Tonelli, militante do MRT, professora da rede pública estadual e LGBT, declara retirar sua pré-candidatura a vereadora por legenda democrática no PSOL.

segunda-feira 10 de agosto| Edição do dia

Imagem: Lívia Tonelli em fala no carro de som do 15M de 2019 em Campinas

Frente à extrema direita de Bolsonaro e seu governo repleto de militares, é preciso debater com qual política e programa é possível enfrentar a extrema direita e o regime dos golpistas, do Judiciário e do Congresso, que vêm impondo que sejam os trabalhadores a arcarem com suas vidas e direitos os custos dessa crise econômica e sanitária. É necessário unir na luta de classes os trabalhadores, as mulheres, os negros e LGBTs contra o desemprego e a precarização do trabalho e construir candidaturas revolucionárias com um programa para que sejam os capitalistas que paguem pela crise. Ao contrário disso, o PT administrou o capitalismo brasileiro por 13 anos, abriu espaço para a direita, nos lugares em que governa segue aplicando os ajustes e, em milhares de sindicatos, freia as lutas da classe trabalhadora.

Em Campinas, o PT já foi parte do Executivo em quatro mandatos e carrega um histórico de ajustes e repressão. Essa coligação do PSOL com o PT, que também se expressa em outras cidades importantes, foi decidida sem prévias e criticada pelo método burocrático por parte de seus militantes. As organizações políticas desse partido que se colocaram contrárias não fomentaram um debate vivo e público na esquerda de Campinas. Por sua vez, após abrir inúmeros debates em plenárias do PSOL a que foi convidada, em suas redes sociais e pelo Esquerda Diário, Lívia Tonelli retira sua pré-candidatura a vereadora do MRT por legenda democrática, considerando um importante erro do PSOL.

Chamamos o conjunto dos trabalhadores, negros, mulheres e LGBT’s e também todos aqueles que consideram o PSOL uma alternativa a debater essas questões, tendo em vista a necessidade da independência política dos trabalhadores e trabalhadoras.

Veja a declaração completa de por que Lívia Tonelli retira sua pré-candidatura a vereadora:

“Serão as primeiras eleições municipais no governo Bolsonaro, e é urgente termos uma política e um programa à altura de enfrentar a extrema direita e a obra desse regime golpista. Já passamos das 100 mil mortes, que têm raça e classe no Brasil, e eu vejo, por meio dos meus estudantes, cada vez mais desespero, familiares que estão desempregados, dependendo de um auxílio emergencial de valor totalmente insuficiente para sobreviverem, jovens fazendo entregas em suas bicicletas sem os direitos mais elementares. É evidente que junto a Mourão e os militares, a extrema direita de Bolsonaro destila seu ódio anti-operário, racista, misógino e LGBTfóbico. Mas conta com o STF, o Congresso de Maia e Alcolumbre e os governadores, como Doria, para que os trabalhadores paguem essa conta.

Jonas Donizette (PSB), presidente da Frente Nacional de Prefeitos, é a prova viva de um espectro político burguês que quer se pintar de oposição racional e democrática, mas ataca os trabalhadores com sua Reforma da Previdência Municipal e a precarização dos sistemas de saúde e educação com as OSs (Organizações Sociais). Em Campinas, foram milhares de postos de trabalho fechados na pandemia e as mulheres trabalhadoras têm sido as mais afetadas. Já são centenas de profissionais da saúde infectados nos hospitais da cidade, e ainda existe a ameaça de reintegração de posse da Comunidade Mandela no próximo dia 31, em nome da especulação imobiliária. Milhares de famílias na miséria, é isso o que querem os capitalistas.

Precisamos urgentemente de candidaturas revolucionárias contra Bolsonaro, os golpistas e os capitalistas. Mas participar dessas eleições, que são justamente um terreno que os políticos da ordem usam para legitimar seus ataques, seus privilégios e festejar uma farsa democrática num regime ainda mais à direita, só faz sentido para nós se formos porta-vozes dos mais explorados e oprimidos nesta crise contra todos os que nos atacam. Por isso, considero uma medida correta que o PSOL tenha me cedido sua legenda democrática em um regime tão proscritivo, mas não serei pré-candidata à vereadora porque esse partido confirmou sua coligação com o PT.

Junto aos meus companheiros do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) e do Esquerda Diário, lutei contra o golpe institucional, a prisão arbitrária de Lula e toda a ofensiva imperialista da Lava Jato, mas sempre batalhando pela independência política da classe trabalhadora para enfrentar a extrema direita. Essa coligação é incapaz de derrotar o projeto da extrema direita em Campinas. A verdade é que o PT não somente fortaleceu, com suas políticas, os interesses dos nossos inimigos, que rifaram seu governo, como o agronegócio, as bancadas fundamentalistas evangélicas e as forças repressivas policiais e militares. Mas também desmoralizou parte dos trabalhadores que um dia confiaram no seu projeto.

Ainda assim, os governadores do PT no Nordeste seguem retirando direitos dos trabalhadores, avançando com as Reformas da Previdência que apoiaram, às vezes se valendo da polícia, como fez Rui Costa na Bahia. Em meio à pandemia, seguem homenageando essa polícia assassina contra a qual as massas negras protestam internacionalmente, como fez Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte. Seguem, junto ao PCdoB, com as burocracias sindicais da CUT e da CTB, freando as lutas dos trabalhadores, sem unificar com os milhões de desempregados e precários no Brasil. Não é assim que faremos com que sejam os capitalistas a pagarem pela crise. Em Campinas, a história demonstra que não é diferente: se a prefeita Izalene do PT ficou conhecida como “Izalene Zero” há mais de uma década, reprimindo greves com polícia e sem dar reajuste aos trabalhadores, o que fará este partido nesta crise muito mais aguda se governar? A conciliação de classes é ainda mais utópica agora.

Com isso, reafirmo o que vim dizendo incansavelmente. O que o PSOL está fazendo é um grande erro, que vai no sentido de bloquear a independência política dos trabalhadores em Campinas, e também em várias outras cidades importantes, como Belém e Recife. Não é à toa que os militantes desse partido criticam os métodos burocráticos, sem prévias, que o Diretório utilizou para legitimar essa decisão. Para vários, está claro que essa decisão é uma armadilha. Como não desconfiar, se em cidades como Florianópolis, na “Ilha Mágica”, o PSOL não somente se coliga ao PT, como ao próprio PSB do Jonas Donizette? Como não desconfiar se recentemente figuras do próprio PT criticaram esse partido por chegar a se coligar até mesmo com candidaturas bolsonaristas em Belford Roxo, por exemplo?

Infelizmente, embora eu tenha realizado inúmeros chamados a que todos os militantes descontentes travassem um debate público, as correntes que se colocaram no campo da oposição à decisão do Diretório pouco ou nada falaram publicamente, como o MES, a Resistência, o mandato de Mariana Conti e a CST. Queremos discutir não somente as decisões que remetem à essa coligação eleitoral, mas justamente o que está por trás delas e os rumos que o PSOL está tomando. Afinal, organizações como a Resistência apoiam a mesma coligação em Recife, e o MES foi parte de atos com figuras burguesas ajustadoras como FHC e Huck, com Melchionna e David Miranda. Queremos discutir a necessidade de existir de fato uma política independente do conjunto desse regime podre e de todas as alternativas que conciliam com ele.

É por isso que viemos denunciando que as frentes amplas enfraquecem os trabalhadores, e que precisamos de uma frente única da nossa classe para lutar contra todas as variantes burguesas. É por isso que viemos debatendo com todos aqueles que, levantando a política do impeachment de Bolsonaro, terminam por fortalecer outras alas do mesmo regime podre. Precisamos mudar as regras do jogo, e não somente um jogador, pois o impeachment fortalece os próprios militares saudosistas da ditadura, ou o Judiciário e o Congresso que levaram Bolsonaro ao poder. Batalhamos pelo Fora Bolsonaro e Mourão e por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que seja imposta pela mobilização dos trabalhadores, em combate à extrema direita. Batalhamos pelo não pagamento da dívida pública no Brasil, que permita um plano de obras públicas controlado pelos trabalhadores em combate à fome, ao desemprego e ao problema da moradia, e por uma lei que proíba as demissões. Batalhamos por um SUS 100% estatal, sob controle dos trabalhadores e gestão popular.

Sabemos que nada disso virá de um partido que administrou o capitalismo em seus 13 anos de governo, e não podemos semear nenhuma ilusão nos trabalhadores e trabalhadoras, nos jovens, nas mulheres, no povo negro e LGBT que vêem a necessidade de uma alternativa à esquerda. Chamo todas e todos os militantes do PSOL e aqueles que vêem esse partido como uma alternativa em Campinas a aprofundarmos esses debates.

Meus companheiros e companheiras do MRT, em várias cidades, impulsionarão candidaturas revolucionárias a serviço dessas ideias: em Santo André, com Maíra Machado, em São Paulo, encabeçada por Diana Assunção, em Contagem, com Flávia Valle, no Rio de Janeiro, com Carolina Cacau, e em Porto Alegre, com Val Müller. No próximo sábado, dia de 15 de Agosto, estarei na mesa de Lançamento da Pré-candidatura da Professora Maíra Machado com Letícia Parks, e chamo todas e todos a acompanharem e apoiarem seu programa.”




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