LITERATURA OPINIÃO

Literatura, leitura e livros na situação colonial

Sobre As verdadeiras riquezas, de KaoutherAdami.

segunda-feira 2 de novembro| Edição do dia

“Árabe de merda. Imigrante de merda. Cor marrom. Cor da merda. Rato. Lixo humano. Fora da França. Fora da Europa. Muçulmanos malditos. Muçulmanos sujos. Detritos humanos. Encarcerar todos. Expulsar todos. Matar todos. Bloquear seus países. Destruir seus países. Proteger a liberdade. Proteger a Igualdade. Proteger a Fraternidade. Libertar a República...”

Paris 17 de outubro de 1961, mais de 20.000 homens e mulheres árabes – na sua maioria muçulmanas e muçulmanos nascidos na França – saem pacificamente às ruas em protesto contra a repressão e o genocídio francês na Argélia. A Frente de Libertação Nacional, que conta com a participação militante ativa de não-argelinos como o martiniquense Frantz Fanon, convoca a manifestação pacifica em Argel. A polícia dirigida pelo nazista Maurice Papon, condecorado em 1946 com o honroso estatuto legal da Carte d’Ancien Combattant de la Resistance, golpeia, esmaga, atira e mata quase duzentas pessoas. A maioria dos corpos são jogados no Sena que se pinta, literalmente, de vermelho. Será preciso uma semana para retirar os corpos do rio. Cadáveres árabes. O presidente francês, Charles De Gaulle, declara que as pessoas mortas não passam de quinze e que a causa das mortes foi a violência dos conflitos entre os próprios argelinos. O mundo todo, com exceção dos árabes, acredita na sua palavra. No final das contas: o que é Argélia senão uma colônia? Quem pode colocar em dúvida a palavra de heróis como De Gaulle e Papon frente às vozes de mulheres cobertas de roupa e homens de barba? Qual o valor da palavra das colonizadas e dos colonizados? Qual o valor das imigrantes e dos imigrantes? Qual o valor de uma pessoa refugiada?

No seu último livro, As verdadeiras riquezas (Nos richesses), a escritora argelina Kaouther Adami (1986) abre a necessária possibilidade de nos fazer estas e outras perguntas. O livro, publicado originalmente em francês em 2017, foi traduzido ao português por Sandra Stroparo e publicado no ano de 2019 pela editora Rádio Londres. Com uma escrita temperada, o romance combina os estilos epistolar e de diário, ambos em primeira pessoa, com um estilo fluído e agitado narrado em terceira pessoa. Tudo isto enquanto acompanhamos os dois personagens centrais destas histórias: Edmond, um jovem argelino, neto de colonos franceses, que se propõe fundar uma livraria e editora em Argel em 1936; e Ryad, outro jovem, desta vez francês, filho de imigrantes argelinos, que em 2017 chega em Argel com a tarefa de esvaziar e fechar o que resta da antiga livraria e editora. A convergência dos dois relatos e seus entrecruzamentos biográficos e geopolíticos que perpassam a Segunda Guerra Mundial e a independência da Argélia nos convidam a conhecer a história de uma relação, de uma relação colonial. Mas não através dos fatos necessariamente dramáticos como o Massacre de Paris e a libertação argelina, senão através do desenvolvimento da literatura árabe em língua francesa. Foi precisamente a editora Charlot, fundada por Edmond Charlot, a primeira a publicar vários dos grandes escritores em língua francesa do século XX, muitos deles nascidos na Argélia, como,por exemplo,Albert Camus, prêmio Nobel de 1957, assim como Mohammed Dib, Jules Roy, Kateb Yacine, André Gide, Himoud Brahimi, e Emmanuel Ròbles.

O evidente espírito despolitizado dos dois protagonistas contrasta fortemente com o mundo que habitam: Edmund, tão interessado e submerso nas letras e nas artes; Ryad, preocupado exclusivamente em esvaziar a livraria para voltar aos braços da sua namorada francesa em Paris. Mas, é exatamente através dessas vidas desinteressadas na sociedade e nas outras vidas que a narração permite nos aproxima dos grandes conflitos do século passado e de parte dos grandes processos dos anos contemporâneos. Tudo isso com os fios condutores da literatura e da produção escrita. Começando com o estabelecimento de um selo editorial, passando pelo seu sucesso, sua expansão e sua morte – em parte absorvida pela concorrência (impossível) com outras editoras, desta vez da metrópole. A editora e livraria se transforma paulatinamente em uma biblioteca assimilada pelo Estado argelino após a independência para, finalmente, passar a ter tão pouco interesse público e tão raras visitas que o Estado resolve vendê-la. Neste ponto, acompanhamos Ryad no desmonte da biblioteca na sua condição de estagiário de um empresário francês que comprou a propriedade para estabelecer uma franquia de doces.

Tal como o relato de Abdallah no romance, os livros como mercadoria física cada vez são mais raros, na medida em que as pequenas livrarias e editoras também desaparecem. O elo conetor entre Edmond e Ryad, duas pessoas que jamais chegaram a se conhecer, é o personagem de Abdallah, um velho admirador da figura de Edmond que trabalhou tanto na época da livraria quanto da biblioteca, e que, agora com seu fechamento, apresenta-se como um despossuído, não só em relação às suas condições materiais de existência,mas também às possibilidades de imaginar, pensar e sonhar que a leitura e os livros possibilitam... inclusive dentro de uma situação colonial.




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