Política

ELEIÇÕES NA CÂMARA

Líder do PSOL na Câmara, Sâmia Bonfim defende apoio ao bloco de Maia com Baleia Rossi (MDB)

Na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, o PSOL está dividido entre lançar candidatura própria ou se alinhar ao reacionário bloco encabeçado pelo atual presidente Rodrigo Maia (DEM). Sâmia Bonfim, líder do partido, defende o voto no MDBista Baleia Rossi.

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 4 de janeiro| Edição do dia

Durante o período eleitoral em diversos momentos o Esquerda Diário abriu um debate com o PSOL por suas alianças com partidos de conciliação de classes, como PT e PCdoB, e, ainda pior, com partidos burgueses como PDT, PSB e REDE, tal como ocorreu na aliança da chamada “Frente Democrática” da candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo.

Como alertamos, tal postura sinalizava passos importantes do PSOL no sentido de uma adaptação ao regime político brasileiro que, se sempre foi comandado pela burguesia em nome de seus interesses, hoje se mostra ainda mais reacionário a cada dia, aprofundando um regime que rompe com o pacto da Constituinte de 88 e, a partir de um golpe institucional, toma medidas cada vez mais autoritárias para atacar os direitos dos trabalhadores e as conquistas sociais obtidas por meio de décadas de lutas organizadas dos sindicatos, movimentos sociais e da organização de nossa classe.

Infelizmente, passadas as eleições, o PSOL continua dando sinais claros de que pretende seguir no sentido oposto da construção de uma alternativa política independente dos trabalhadores e que se disponha a lutar não apenas contra Bolsonaro e Mourão, mas contra todo o regime do golpe e para que sejam os capitalistas que paguem pela crise.

Nessa segunda-feira, 4, isto foi demonstrado mais uma vez pelas declarações de Sâmia Bonfim, deputada federal por São Paulo que é a atual líder do PSOL na Câmara dos Deputados. Frente à disputa para a presidência da Câmara, dois blocos reacionários se construíram: de um lado, Bolsonaro apoia o candidato Arthur Lira, do PP, partido ao qual o presidente foi filiado entre 2006 e 2014; do outro, o bloco em torno do reacionário Rodrigo Maia (DEM), atual presidente da Câmara que articulou as reformas trabalhista e da previdência, e que apoia o candidato Baleia Rossi (MDB).

Nessas reacionárias eleições à presidência da Câmara marcadas pelo fisiologismo e a troca de favores entre a oligarquia política que conduz esse regime podre e anti-trabalhadores, o PSOL tradicionalmente lança uma candidatura própria e se recusa a se alinhar a algum dos blocos dos partidos patronais. Mas, nesse ano, marcado pela postura “pragmática” que o partido vem assumindo dentro dessa política institucional reacionária, o PSOL está dividido: parte dos parlamentares seguem defendendo uma candidatura independente, mas outra parte, encabeçada pela atual líder da sigla na Câmara, Sâmia Bonfim, defende o apoio ao bloco de Rodrigo Maia e o voto em Baleia Rossi.

Sâmia, que faz parte do Movimento Esquerda Socialista (MES), tendência interna do PSOL, afirmou que considera “importante compor o bloco”, recobrindo essa postura absurda de apoio ao bloco do MDB, partido de Michel Temer, com “exigências claras, como a aprovação de uma renda básica, não pautar nenhum retrocesso na ‘agenda de costumes’, não pautar privatizações nem autonomia do Banco Central”. Enquanto recentemente a mobilização massiva na Argentina mostrou o caminho, se sobrepondo ao reacionário Congresso e à presidência “progressista” de Alberto Fernandez para arrancar por meio da luta o direito ao aborto, a liderança do PSOL aqui quer fazer um acordo com a direita patronal para garantir “nenhum retrocesso” na mal chamada “agenda de costumes”. Isso no país em que morrem milhares de mulheres todos os anos em decorrência de abortos clandestinos.

Sâmia Bonfim classificou Arthur Lira como um “perigo real” e disse: “Acho ruim o PSOL ser identificado como a sigla que não atuou ativamente para derrotá-lo”. Mas aparentemente Sâmia não acha ruim que o PSOL seja identificado como a sigla que se uniu ao bloco dos partidos que estiveram na linha de frente do golpe institucional em 2016 e aprovaram todos os ataques contra os trabalhadores, tirando seus direitos trabalhistas, sua aposentadoria, impuseram um teto de gastos draconiano aos gastos com serviços públicos, e que hoje aprovam praticamente todas as pautas que são colocadas por Bolsonaro na Câmara. Isso demonstra como para o MES - que já chegou ao ponto de louvar a Java Jato e Sergio Moro e assumir uma postura conivente com o golpe - o combate a esse regime não é uma tarefa fundamental para a esquerda socialista.

É incrível a que ponto chega a lógica absurda do “mal menor”, em que a perspectiva da construção da organização independente dos trabalhadores já desapareceu por completo, e em vez de uma atuação no parlamento para fortalecer as lutas, se vê a perspectiva dos parlamentares de esquerda como barganhadores de migalhas e acordos espúrios entre os dois blocos reacionários e patronais que se enfrentam.

É necessária uma organização de esquerda que encare os combates que temos sob uma perspectiva distinta, procurando pensar estrategicamente como cada movimento dentro da institucionalidade deve estar a serviço da construção de um projeto revolucionário que coloque uma perspectiva de enfrentamento a esse regime, e não que se dilua na direita golpista e patronal procurando “parecer” encontrar uma via para enfrentar Bolsonaro se aliando com aqueles que, no fim das contas, estão de mãos dadas com ele para nos atacar.




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