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Editorial Estadual | Lições do 7S para construir o 2O em Pernambuco

Na região onde a rejeição ao governo é a mais alta, o que vimos em Recife foi que esse anti-bolsonarismo não se expressou em atos massivos contra o governo, ao mesmo tempo que os atos pró Bolsonaro foram significativos.

terça-feira 28 de setembro | Edição do dia

A nível nacional, as últimas pesquisas vem mostrando uma tendência de queda da popularidade do governo. Na região Nordeste, a rejeição ao governo é ainda maior. A última pesquisa realizada por estado é do final de 2020 e mostra que avalição Ruim/Péssima do governo é de 46%, taxa que já deve ter subido a essa altura. Isso se expressou nas eleições, onde a candidata de Bolsonaro, a delegada Patrícia ficou em 4º com apenas 14% dos votos e que desde então ninguém mais tem notícia dessa figura asquerosa.

Isso não é à toa. O Nordeste é uma das regiões mais afetadas pelos ataques implementados desde o golpe institucional, e que Bolsonaro continuou. Os últimos dados do desemprego mostraram que Pernambuco liderava esse ranking. Isso se liga ao fato que os índices de pobreza e de insegurança alimentar são maiores na região. A questão da moradia aqui também é crítica, com a região liderando o índice de défcit habitacional. Recentemente, também vimos na Grande Recife ocupações de famílias que perderam suas casas em deslizamentos ou porque simplesmente não conseguiram pagar o aluguel, pois aqui foi considerado a 2ª cidade mais cara de aluguel - ocupações que sofreraram repressão da justiça e da polícia. Para a piorar, a cidade é considerada a capital da desigualdade no país.

Apesar de tudo, esse anti-bolsonarismo que vem crescendo, e que aqui na região é mais forte, não foi o que se expressou nas ruas do Recife no dia 7. Os atos contra Bolsonaro se mantiveram de tamanho similar ao anterior, ao mesmo tempo que Bolsonaro conseguiu reunir um contingente razoável de pessoas em Boa Viagem.

A nível nacional, já discutimos como as grandes direções das centrais sindicais, como CUT dirigida pelo PT ou CTB, dirigida pelo PCdoB, tem atuado para manter a passividade, convocando atos espaçados aos sábados ou feriados e isolando as mobilizações em curso, como os indígenas em Brasília, a greve da MRV em Campinas, da SaeTowers em Betim ou da Carris no RS. Ao invés de organizar a força da classe trabalhadora nas bases, coordenando as lutas em curso e cercando de solidariedade e promovendo greves em paralisações para lutar contra Bolsonaro, Mourão e todos os ataques em curso - que são muitos - atuam para canalizar o descontentamento crescente com Bolsonaro para uma saída eleitoral em 2022, com Lula. Para terminar, escreveram uma carta pedindo para que o Congresso liderado pelo aliado de Bolsonaro Artur Lira, e o STF, que foi linha de frente do golpe e dos ataques como as contrarreformas, assumam as rédeas do país – como se já não estivessem. Isso também se liga com a política que defendem de impeachment. Este, além de ser um mecanismo bonapartista do sistema político utilizado em alguns momentos para atacar o mínimo direito democrático do sufrágio universal, como vimos no caso de 2016, é um programa que neste momento significaria a entrada do reacionário General Mourão no poder e a defesa do conjunto deste regime apodrecido uma vez que para o impeachment ser aprovado é preciso maioria no Congresso Nacional. Ou seja, significaria o conjunto das forças reacionárias e de direita aprovarem o impeachment. Por hora, esse programa é descartado por boa parte dos setores do regime que poderiam implementá-lo - os mesmos que a esquerda clamem para que tomem a frente do país! Isso só mostra como apesar das disputas, boa parte desses setores é cúmplice do governo e não tem o menor interesse em derrubá-lo. Portanto, caso o impeachment se efetive, vai ser para desviar qualquer anseio popular e salvar o conjunto das instituições deste regime garantindo que STF, Congresso Nacional e os partidos da direita fiquem intactos e consigam uma outra via de garantir que o plano de ajustes seja levado até o final.. E agora, a Campanha Fora Bolsonaro ainda aceita a participação de partidos burgueses como Rede, Cidadania, PSB e PV!

Ler também:Editorial MRT - 2/10: derrotar Bolsonaro com um programa operário para que os capitalistas paguem pela crise

Por falar em Lula, ao mesmo tempo que a rejeição ao atual presidente é mais alta no Nordeste, o inverso ocorre com o ex-presidente petista, que ostenta altos índices de aprovação por aqui. Não à toa, escolheu justamente a região para fazer sua primeira grande viagem eleitoral depois da pandemia, escolhendo justamente Pernambuco como primeira parada, sua terra natal. No entanto, ao invés de usar isso para fortalecer as mobilizações, Lula vem aqui para negociar apoio eleitoral (e para um futuro governo) com todo tipo de figura de golpista e de direita, como o PSB que reprimiu os atos do dia 29/05!

Infelizmente, as forças que se postulam à esquerda do PT não foram uma alternativa. Uma parte das correntes no PSOL apoiaram todas as decisões das burocracias sindicais na Campanha Fora Bolsonaro. Outras correntes como do PSOL como o MES, junto ao PCB e a UP, fizeram a assembleia Povo Na Rua para tentarem aparecer como mais de esquerda. No entanto, tal iniciativa não passou de lives onde o direito a fala era restrito e que se limitou a chamar mais atos, sem organizar assembleias massivas nos locais de trabalho e estudo onde dirigem e sem fazer nenhuma exigência às grandes centrais sindicais para que essas rompessem com a política que criticamos anteriormente. Não apenas isso, mas em assembleias de várias universidades, onde nós da Faísca propusemos tais exigências, essas correntes foram abertamente contra. No entanto, mais recentemente desistiram até mesmo da aparência mais de esquerda e só fizeram ratificar a decisão da Campanha Fora Bolsonaro de atos no dia 2 de outubro e 15 de novembro! Mais de 40 dias entre um e outro! Já a CSP-Conlutas, dirigida pelo PSTU, não apenas se cala sobre a política das centrais, como ainda assina declarações em conjunto com a mesma, como a carta pedindo para o Congresso e o STF assumirem as rédeas do país. Portanto, como podemos ver, a situação de passividade é alimentada abertamente pelas direções do movimento operário estudantil.

Sobre isso, veja o texto Assembleia Povo na Rua: uma live que não pode substituir assembleias de base

Aqui no estado a situação é ainda pior. As mobilizações foram abertamente boicotadas desde o início. Na véspera do dia 29/5, a mesma justiça que esses setores pedem para tomar a rédea dos país, fez uma recomendação através do Ministério Público para que os atos não acontecessem sobre pretextos “sanitários”. De forma totalmente burocrática, a UJS, se utilizando do nome da União dos Estudantes de Pernambuco, a UEP - que eles dizem dirigir após não reconhecerem a eleição que os derrotou em 2019, começou a divulgar em grupos de whatsapp mensagens desconvocando o ato, dizendo que esse ia ser apenas simbólico. A posição foi seguida pelo PSOL estadual. Nesse dia, a polícia do Paulo Câmara, cuja vice é presidente do PCdoB, reprimiu ferozmente a mobilização, a ponto que 2 trabalhadores perderam um olho. Após o PSB notar que a foi o único estado que reprimiu naquele nível, o governador veio dizer que “não tinha dado a ordem para reprimir”, apesar da repressão ter durado horas e do gabinete do governo ter acompanhado o processo. Boa parte da esquerda, não apenas acatou essa desculpa fajuta, como aceitou tranquilamente que o PSB continuasse compondo os atos, algo que nós do MRT problematizamos desde as reuniões de organização do 8 de março!

Ver também: Quem deu as ordens em Recife?

Se a atuação da CSP-Conlutas a nível já é totalmente adaptada às grandes centrais sindicais burocratizadas, aqui é ainda pior: em vários dos atos, no seu carro de som só se ouvia praticamente os representantes dos... policiais! Já a verdadeira UEP é dirigida por setores que impulsionam a Assembleia Povo na RUA, como UP e PCR, junto ao Afronte e correntes do PT. No entanto, se nos primeiros atos convocaram assembleias que, por serem convocadas em cima da hora e mal divulgadas ao invés de construídas nas bases dos cursos, foram esvaziadas, nos últimos atos se limitaram a meramente divulgar o dia e o local. Para tentarem lavarem a cara de sua atuação, tentam inflar os números reais dos atos, como o militante do PCB Jones Manoel que diz que foram 50 mil no Recife

Enquanto a esquerda tinha política que alimentava a passividade, a direita bolsonarista fazia o oposto. Bolsonaro fez uma ampla convocação aos atos e articulou com várias lideranças de direita como das Igrejas Evangélicas. E aqui na região escolheu Pernambuco para ser seu ponto forte, se aproveitando de ser o estado com mais evangélicos no Nordeste. Logo antes dos atos, veio ao Recife para o evento de passagem do Comando Militar do Nordeste e depois realizou uma motociata no Agreste. Como resultado vimos que tanto a carreata quanto o ato de rua realizado dia 7 em Boa Viagem, ainda que longe de ser massivo, foi expressivo para o rechaço que o presidente tem. Esses atos também estão servindo para impulsionar a figura de Clarissa Tércio, que tem despontado como a principal figura dessas manifestações aqui e que visa concorrer ao Palácio das Princesas em 2022. Além disso, vimos como Bolsonaro conseguiu, em certo sentido, moralizar sua base, era visível uma mudança no clima da cidade, com muito mais bolsonaristas dando as caras e se manifestando em defesa do governo publicamente.

Os limites dos atos bolsonaristas se expressam no recuo com a carta escrita por Temer, que analisamos aqui e aqui. No entanto, é necessário debater porque o anti-bolsonarismo que se expressa na queda de popularidade do governo - e que é mais acentuada aqui na região - não se se expressou com força nas ruas. Por isso, convocamos as forças que se colocam como à esquerda do PT a rever sua política de adaptação às burocracias sindicais.

É por isso que é urgente a conformação de um pólo classista e antiburocrático que reúna a esquerda, seus sindicatos, parlamentares para apresentar uma política de independência de classe e um programa operário para enfrentar a crise. Um programa operário que poderia começar levantando com muita força o reajuste automático dos salários de acordo com a inflação e contra o desemprego de 14% lutar por emprego para todos com a repartição das horas de trabalho entre empregados e desempregados, em uma forte campanha nacional que contribuísse também dessa forma para unificar os processos de luta que estão em curso e demonstrar que este programa é incompatível com a aliança com burgueses e partidos de direita que atuam permanentemente para aumentar a exploração contra a classe trabalhadora. Exigir o congelamento do preço dos alimentos e das contas de água, luz, gás com os valores anteriores aos altos índices de inflação e ao mesmo tempo lutar por uma forte unidade entre empregados e desempregados, enfrentando também o trabalho precário que atinge majoritariamente mulheres e negros em nosso país além da juventude.

Nas próximas manifestações do dia 2 de outubro acreditamos que seria um passo para a conformação desse polo a construção de blocos classistas unitários da esquerda defendendo Fora Bolsonaro e Mourão e um programa operário contra a crise, que inclua a anulação de todas as reformas e ataques contra os trabalhadores e o povo pobre, entendendo que nossos inimigos são Bolsonaro, Mourão e também a direita tradicional e todas as instituições desse regime golpista, bem como os empresários e capitalistas que lucram com nosso suor e sangue. Por isso fazemos um forte chamado às correntes de esquerda a romperem com a política de alianças com a direita e conformar um bloco com este conteúdo, no qual debateremos as diferenças em relação ao programa frente a crise política, uma vez que a maioria da esquerda está junto com setores da direita, além do PT e PCdoB, defendendo o impeachment de Bolsonaro que colocaria Mourão no poder, uma política para resguardar e salvar este regime apodrecido, enquanto nós consideramos que seria necessário como parte da nossa luta impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana onde a população pudesse debater e decidir os grandes problemas que atingem as massas trabalhadoras e pobres do país avançando em sua auto-organização para levar adiante medidas como o não pagamento da dívida pública, a anulação de todas as reformas antioperárias e uma reforma agrária radical que certamente teriam forte resistência dos capitalistas, e neste caminho seria possível avançar na luta por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.




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