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GREVE DA MRV EM CAMPINAS | Lições da forte greve dos trabalhadores contra a escravista MRV

Nesta semana, os trabalhadores da construtora MRV em Campinas voltaram ao trabalho depois de mais de 40 dias de uma forte greve. Nós do Esquerda Diário estivemos presente nessa importante luta e apresentamos aqui algumas lições que foram possíveis tirar desse processo.

quinta-feira 2 de setembro | Edição do dia

A força dos trabalhadores em greve conquistou uma parte dos direitos reivindicados contra a MRV, em meio a um cenário nacional de duros ataques

No canteiro de obras da MRV de Campinas, o escândalo de uma empresa que reproduzia um trabalho análogo à escravidão, mas que pagava até $38 mil reais de PLR (Participação nos Lucros e Resultados) para as chefias e até $390,00 reais para os trabalhadores da construção, é parte de entender a raiva acumulada da brutal exploração do trabalho e o fato de estarmos diante de um setor econômico, a construção civil, em crescimento e lucros exorbitantes, mesmo com toda a crise social, política e econômica do país. Fatores que motorizaram a mobilização dos 700 operários de Campinas, e depois de mais 100 de Santa Bárbara D’oeste, de que estavam no caminho certo para reivindicar seus direitos contra o dono da empresa, Rubens Menin, um bilionário também dono da CNN e reconhecido por financiamentos milionários a times de futebol.

Isso, em meio a uma situação nacional em que estamos vendo a aprovação de duros ataques à classe trabalhadora. Já tínhamos visto a privatização da Eletrobrás passando, e nas últimas semanas vimos também a privatização dos Correios, a MP1045 que legaliza a retirada ainda maior de direitos básicos trabalhistas, a ofensiva que busca aprovar a Reforma Administrativa e as tentativas de aprovar a PL490 e o marco temporal para atacar os indígenas, que mostram força para resistir. Isso tudo com desfiles militares e ataques autoritários do judiciário também aos que lutam. Expressões de uma situação reacionária permeada por intensas disputas e crises intraburguesas mas quando se trata de atacar a classe trabalhadora, Bolsonaro, Mourão, Congresso, Judiciário e governadores, como Doria, estão unificados para fazer passar todas as medidas anti-operárias possíveis.

Foi nesse cenário difícil que a greve da MRV expressou muita força, e que pela vontade de luta dos trabalhadores também foi um exemplo. Foram centenas de homens e mulheres, que apesar de serem a minoria estiveram na linha de frente da luta com enorme energia, esmagadora maioria de negros e nordestinos, que diziam incansavelmente aos quatro cantos do complexo Imperial Garden: “Dessa luta não saimos sem vencer”. Assim, protagonizaram uma das maiores greves da construção civil do país, em que foi possível levar a MRV, uma empresa escravista, intransigente e que atacou o direito de greve cortando salários, para a negociação.

Conquistaram assim, depois de mais de 40 dias de greve, uma parte da sua reivindicação pelo aumento da PLR. Com incorporação de mais $700 reais no valor pago de 2020, $830 reais que será pago no ano de 2021 e barraram o corte de salários, com 70% do valor pago pela empresa e 30% reposto em trabalho nos próximos meses. O que mostra que essa conquista foi possível porque os trabalhadores confiaram na sua própria força.

Um exemplo que poderia ter se transformado numa causa popular em Campinas e nacionalmente

A luta da MRV é um grande exemplo de qual caminho temos que seguir, ela mostra, contra qualquer fatalismo e ceticismo, que muitas vezes é alentado pelas direções sindicais, de que há disposição, ainda que moleculares, para se enfrentar com o cenário que vivemos, e portanto, é preciso organizar nossa luta. E esse exemplo poderia ser ainda maior, porque uma greve com essa força, dos trabalhadores que constroem prédios onde nunca vão morar e contra uma empresa que tem trabalho análogo à escravidão, em meio a um cenário de fome e miséria da nossa classe, teria um enormes potencial de se conectar com a população e o conjunto dos trabalhadores, a começar por Campinas, mas também com vários trabalhadores da construção civil pelo país.

Um exemplo é que nós do Esquerda Diário tivemos uma iniciativa de panfletar sobre a greve nos demais canteiros da MRV pelo país, buscando romper com o silêncio midiático que estava sendo imposto. Na porta dos canteiros percebemos que havia apoio dos trabalhadores à greve em Campinas, com trabalhadores que chegaram a dizer “agora somos 701” ou “não sabiamos da greve, tem que apoiar”, expressões de como há insatisfação dos trabalhadores com o desemprego e a miséria que estão nos impondo e que os que lutam contra isso podem mostrar um caminho para enfrentar essa situação e também receberem solidariedade para que nenhuma luta seja isolada.

Veja mais em: Esquerda Diário leva a greve de Campinas para empresas da MRV de norte a sul

Iniciativas como essa poderiam ser infinitamente mais fortes para alcançar a população e outras categorias de trabalhadores, a começar pelas categorias dirigidas pela própria CUT, que dirige o sindicato dos trabalhadores da Construção Civil de Campinas, chamando a cercar de solidariedade a greve e a transformar essa luta num fato político na cidade e nacionalmente, mas não foi isso que ocorreu. Um exemplo claro disso seria a solidariedade da Apeoesp, sindicato de professores também dirigido pela CUT, em que muitos são professores dos filhos desses trabalhadores que certamente apoiariam essa luta contra uma empresa escravista, mas que em nenhum momento o sindicato chamou publicamente a esse objetivo.

Veja mais em: Carta das professoras e professores do Nossa Classe Educação aos trabalhadores em greve da MRV

Medidas como o comitê de apoio da Unicamp poderia ter se multiplicado pelas categorias de trabalhadores e movimentos sociais, esse poderia ter sido o papel também da UNE e entidades estudantis e demais centrais sindicais, como CTB, Intersindical e Conlutas e do conjunto das organizações de esquerda, e assim ter ampliado e fortalecido a greve para que ela inclusive tivesse meios financeiros de se manter pelo tempo que os trabalhadores achassem necessário, abrindo caminho para ampliar a conquista e mostrar ao conjunto da classe que esse é o único caminho possível para enfrentar a extrema direita de Bolsonaro e os ataques.

O empecilho para que as lutas como essas possam servir para unificar as reivindicações econômicas: por melhores condições de salários e trabalho, com as demandas políticas: a luta contra os ataques e o governo Bolsonaro e Mourão, é justamente o fato de que muitas vezes elas acontecem e ficam isoladas, sem se tornar uma causa popular que possa se unificar com outras categorias de trabalhadores. Assim, leva a que as próprias pautas também encontrem limites para expandir. Essa é justamente uma crítica que viemos fazendo as grandes centrais sindicais, que ao contrário de organizarem essas lutas que ocorrem, chamam os inimigos da nossa classe, como o Congresso e o Senado, o STF e a justiça, e governadores como Doria, que são aqueles que também estão nos atacando e tirando nossos direitos, a assumirem a dianteira do país. Essa política nos sindicatos, é a expressão da atual política do PT, que quer confirmar alianças eleitorais com vários setores da direita, e para isso não querem os trabalhadores lutando, pois poderia atrapalhar os seus planos.

E mais do que nunca é preciso que o exemplo de luta da MRV possa se expandir, para mostrar que o único caminho para enfrentar todos esses ataques é o caminho da mobilização da classe trabalhadora, através de seus métodos históricos, como greves, piquetes e paralisações. E que assim, as centrais sindicais levantem um plano de lutas real e nacional, que possa levar a uma greve geral para derrotar Bolsonaro, Mourão e todos os ataques, levantando a luta também por uma Assembleia Constituinte para colocar o povo na ofensiva para decidir os rumos do país.

A importância da auto organização dos trabalhadores

Durante a greve foi possível ver que a principal forma de organização dos trabalhadores ocorria nos piquetes, com assembleias que aconteceram algumas vezes, em que era votado a continuidade ou não da greve. O que é fundamental, mas numa luta como essa, é preciso sempre ampliar as medidas para que os trabalhadores possam ser sujeitos da sua própria luta, com espaços para falar, fazer propostas e se unificar com os demais canteiros.

Uma proposta de comitê inter canteiros, com representantes votados de cada canteiro para unificar os trabalhadores da construção civil de Campinas, com os trabalhadores de Santa Bárbara D’oeste e Paulínia, que também são trabalhadores da MRV e passam pelas mesmas condições, para decidir os rumos da luta, poderia ter sido uma medida para que a greve tivesse ainda mais força desde o início, chegando a milhares em greve na região.

Essa força dos trabalhadores, com medidas concretas de auto organização e articulação poderia ser ampliada e também servir para expandir a reivindicação dos direitos. Nós defendemos que os trabalhadores possam ter salários de acordo com o Dieese, para de fato ter uma vida digna, onde possam viver com direitos elementares. Uma luta como essa poderia também reivindicar o aumento de salários, para que inclusive o aumento da PLR fosse incorporado ao salário para expandir os direitos e para que tenha Epis adequados, materiais, e que o grito que ouvimos de “Basta de escravidão nos canteiros” se fizesse ainda mais forte e fosse ouvido por todos os canteiros do país.

A aliança da juventude: o exemplo do Comitê de Apoio da Unicamp

Muitas vezes, a luta da juventude e a dos trabalhadores, apesar de se enfrentarem com os mesmos inimigos, ocorre de forma separada. Mas a unificação da juventude com os trabalhadores também é uma lição dessa greve. Isso porquê, o Comitê de apoio da Unicamp, impulsionado a partir da juventude Faísca, presente no Centro Acadêmico de Ciências Humanas da Unicamp, o CACH, reuniu estudantes e coletivos de esquerda da universidade para a greve ganhar mais solidariedade em Campinas. Os estudantes mostraram a potência da aliança operário-estudantil, estiveram dia-a-dia no piquete dos trabalhadores e fizeram diversas ações para fortalecer e levar a greve mais longe.

“Cada vez que vocês chegavam cantando a gente se animava com a greve”, foi uma das frases ditas por uma trabalhadora. Isso porque uma das ações do Comitê foi chegar de manhã no piquete alguns dias cantando: “Trabalhador, pode lutar que os estudantes estão aqui pra te apoiar”, música que inspirou até mesmo as filhas das trabalhadoras e dava forças aos trabalhadores a seguirem nesse caminho.

Além disso, os estudantes fizeram diversas outras iniciativas, com lambes pela cidade, faixa em viaduto, panfletagem, twittaços e arrecadaram apoios dos intelectuais da Unicamp. Um exemplo também de solidariedade e da potência da juventude em fortalecer as lutas de trabalhadores, também fortalecendo a luta em defesa da Educação e por uma Universidade à serviço dos trabalhadores e do povo pobre.

O comitê foi um exemplo de organização e unificação dos estudantes para tirar a greve da MRV do isolamento. O que também fortalece a concepção de que é preciso levantar um movimento estudantil que se ligue profundamente às lutas dos trabalhadores. Um exemplo para também ser seguido pelas entidades estudantis e nas próximas lutas que virão.

72 matérias e cerca de 30 mil acessos sobre a MRV: O que dizem os trabalhadores sobre o papel do Esquerda Diário?

“Sem o Esquerda Diário a nossa greve teria ficado esquecida, parada, ninguém teria visto, mas graças ao Esquerda Diário nossa greve foi divulgada, comentada, a nossa greve foi anunciada, então a importância do Esquerda Diário na nossa greve foi fundamental para nosso crescimento, para nossa vitória. O Esquerda Diário foi um instrumento que buscamos em outros lugares e não encontramos, então o Esquerda Diário apareceu para nos apoiar e nos divulgar e para nos ajudar a sair vencedores dessa greve… Se nós saímos vencedores dessa greve grande parte responsável foi o Esquerda Diário”.

Esse é um dos relatos que recebemos ao fim dessa greve. Nós do Esquerda Diário e do MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores) buscamos ser parte e intervir ativamente nas lutas da classe trabalhadora. Por isso, colocamos nossa energia na greve da MRV, indo dia-a-dia nos piquetes e contra a mídia tradicional, que calou a voz dos trabalhadores para atender os interesses do dono da CNN, fizemos 72 matérias sobre a greve, com quase 30 mil acessos.

Veja mais em: Pela voz dos trabalhadores: Que diferença fez o Esquerda Diário na greve da MRV?

Os trabalhadores se sentiram fortalecidos, como agradeceu um deles aqui. Aplaudiram o vídeo que fizemos em frente à Arena MRV em Belo Horizonte, com a professora Flávia Valle, para mostrar que as vidas dos trabalhadores valem mais que os estádios de futebol financiados pela MRV, o que causou indignação da empresa, como citado em negociação. Além das outras medidas para levar a greve para outros canteiros e também impulsionar a carta das trabalhadoras às atletas olímpicas financiadas pela MRV, o que ganhou até mesmo as páginas do blog do jornalista Juca Kfouri.

“O que vocês fizeram de ir em vários lugares do Brasil para divulgar nossa greve, foi espetacular. Foi sensacional.”

“Acho que a maior força ali foram vocês, desde o começo junto com a gente ali, dando a maior força pra gente, foi muito bom, vocês disseram que aprenderam com a gente e a gente também aprendeu muito com vocês. As matérias que a gente vê de vocês são muito boas e eu acompanho. Não só daqui, mas também de Belo Horizonte, do Nordeste que vocês fizeram.”

Esses relatos dos próprios trabalhadores permitem ver que os trabalhadores da MRV consideram que o Esquerda Diário impediu que eles ficassem “escondidos naquela praça”. Como eles mesmos dizem, nosso jornal deu força e foi assim um fator para que essa luta chegasse mais longe e pudesse alcançar uma conquista de parte dos direitos reivindicados.

Nós, temos imenso orgulho de ter lutado lado a lado com as lutadoras e lutadores da MRV. E dessa experiência apresentamos aqui algumas das lições e contribuições que pudemos tirar e também deixar. E como disseram os próprios trabalhadores ao final: até a próxima! Já que as batalhas pela frente são muitas, e a cada processo é preciso aprender com erros e acertos, acumular experiências para fortalecer nossa luta incansável contra os patrões, governos, e o capitalismo.




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