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Leher defende autonomia dos docentes... contra os grevistas da UFRJ

domingo 14 de junho de 2015| Edição do dia

Roberto Leher é um reconhecido intelectual teórico da área da educação, e também conhecido por sua atuação sindical e na esquerda antigovernista. Sua eleição para reitor da UFRJ foi acompanhada por setores da esquerda universitária em todo o país. Agora, em meio a greve dos estudantes e dos técnicos administrativos desempenhou um papel que decepciona milhares de seus eleitores no movimento estudantil. Em nome da institucionalidade votou contra a reivindicação de suspensão do calendário acadêmico que era exigida por 1mil estudantes grevistas em ato.

A greve dos estudantes da UFRJ iniciada junto aos técnico-administrativos no dia 29, teve uma grande demonstração de força nos dias 10 e 11 com mil estudantes ocupando a REItoria em ato exigindo a suspensão do calendário letivo para que com isso a universidade reconhecesse a sua greve e a dos técnicos.

Nestes dois dias, se reuniram respectivamente o Conselho de Ensino e Graduação e o Conselho Universitário, dois organismos antidemocráticos da universidade onde estudantes e técnicos, têm direito apenas a 15% dos votos cada enquanto professores detêm 70% dos votos, para decidir sobre a manutenção ou suspensão do calendário letivo.

Mesmo após o CEG ter indicado a suspensão do calendário, o Conselho Universitário decidiu passar por cima da greve dos dois setores e reconhecer institucionalmente o prosseguimento das aulas dadas pelos professores, categoria que não deflagrou greve, ao mesmo tempo em que deliberou que nenhum professor poderá atribuir faltas, e que haverá direito às reposições, revisões de conteúdo e segunda chamada após o término da greve. Apenas os cinco representantes estudantis votaram pela suspensão, contra 27 professores que votaram pela manutenção do calendário vigente.

Neste dia, os representantes da COPPE (instituto de pós graduação da Engenharia), da Petrobrás, dos grandes laboratórios de pesquisa financiado pelas empresas privadas e dos projetos de privatização dentro da UFRJ como a EBSERH contaram com o apoio da “bancada progressista” da universidade, representada pelo futuro REItor Roberto Leher, para impor a continuidade de suas atividades mesmo com a greve de dois setores que somados são 70 mil dentro da UFRJ.

Leher, que foi eleito com mais de nove mil votos de estudantes, defendeu e votou contra aqueles que o elegeram e estavam ali presentes em ato pela suspensão, argumentando que se deveria respeitar a autonomia do movimento docente, e que aquele espaço (o CONSUNI) não poderia parar as atividades deste setor.

“O movimento docente da UFRJ não precisa de uma interrupção de atividades em virtude de decisão de uma instância institucional [...] nós não necessitamos de suspensão por conselho para fazermos as nossas lutas”, disse Roberto Leher, ao declarar sua posição contra a suspensão do calendário acadêmico.

Agora, que está na vésperas de ser investido com “poderes institucionais” o teórico e sindicalista reconhecido nacionalmente retoma a instituição e suas instâncias para o “consenso”, para consensuar justamente com os setores mais privatistas e anti-greve e anti-movimento. Em nome da institucionalidade, justifica-se o injusticável

Esta posição é argumentada sob o signo da “autonomia do movimento”. O movimento que lhe importa, não é, antes de mais nada aquele que majoritariamente lhe elegeu, o estudantil, mas o docente e como alguém que preza pela “institucionalidade”, não quis se enfrentar com setores à direita. A autonomia dos professores, que ainda não é “movimento docente”, porque por decisão da maioria em assembleia decidiu não entrar em greve e seguir o calendário, na realidade significa deixar as mãos livres para estes professores perseguirem os estudantes com a ameaça de reprovação.

Aqueles professores que em assembleia votaram contra a sua própria greve decidiram conscientemente manter a universidade funcionando e produzindo, enquanto estudantes evadem por não ter onde comer ou morar e atrasam as poucas bolsas que existem; enquanto diversos cursos precarizados que funcionam em containers estão sob risco de despejo por falta de verbas; enquanto centenas de trabalhadores terceirizados estão sendo demitidos em algumas unidades da UFRJ e ainda há funcionários trabalhando sem receber nada, como os porteiros do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, sem contar os cortes nos salários dos terceirizados da limpeza desde janeiro deste ano.

Esta autonomia dos professores, além de ignorar os motivos que levaram técnico-administrativos e estudantes a entrar em greve, ignora o fato de que com a greve dos técnicos nenhum estudante pode pegar livros na biblioteca ou acessar os laboratórios de informática. Mas a obstinação de certos professores contra a greve é tão grande que em algumas unidades chegam a tomar funções atribuídas aos técnicos, como colocar os geradores para funcionar.

O que Leher e aqueles professores que costumam apoiar as reivindicações dos estudantes ignoraram neste dia foi o fato de que a autonomia destes professores quer dizer a autonomia das empresas que exploram a universidade para produzir conhecimento à serviço de um punhado de empresários, contra os interesses da juventude e dos trabalhadores de dentro e fora da UFRJ.

A autonomia de prosseguir com o calendário letivo é a autonomia da Petrobrás e diversas grandes empresas privadas seguir usando o “capital intelectual” da UFRJ para a produção do conhecimento em proveito privado, é a autonomia dos laboratórios da COPPE de seguir produzindo para o lucro de poucos, enquanto no entorno da UFRJ há uma massa de moradores no complexo da Maré que sequer tem acesso ao saneamento básico.

Segundo estes interesses, que mantém a universidade elitizada e também explora diretamente a produção que é feito dentro dela, a UFRJ não pode parar, doa a quem doer, e estes interesses são opostos aos interesses dos estudantes em greve que querem condições para manter-se na universidade, mas também transformá-la.

Nesta votação, Leher famoso por defesas teóricas e sindicais de uma universidade democrática colocou-se contra a posição, democrática, do maior setor da universidade, os estudantes, justamente quem o elegeu. Em meio a tamanha crise do sistema universitário brasileiro e sua inflexão particularmente aguda no Rio e na UFRJ em particular uma reitoria de esquerda poderia cumprir um papel de exemplo a todo país. Para isto seria preciso defender não os docentes em geral, ou a “instituição em geral”, mas aqueles setores em luta. Entre a COPPE e outros setores privatistas e entre quem luta por permanência não há interesse “institucional comum”. Entre os que querem as mãos livres para acabar com o semestre, forçar estudantes a furar greve, e os estudantes que lutam para garantir seus interesses também não há terreno “neutro” comum. É preciso tomar lado. Leher, antes mesmo de sua posse está tomando.

Foto: Renan Silva, site do SINTUFRJ




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