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Na última sexta-feira, Harris se tornou a primeira mulher e negra na história dos Estados Unidos a bombardear o Oriente Médio. Um feito à altura de sua trajetória política no Partido Democrata e de seu histórico de criminalização da população negra em seu próprio país, sendo conhecida por sua “linha dura” a favor do encarceramento em massa no sistema industrial prisional.

domingo 28 de fevereiro | Edição do dia

Boukamal, cidade síria na fronteira com o Iraque, 26 de fevereiro, cerca de 1h da manhã no horário local. Caças aéreos estadunidenses lançam sete bombas de precisão em construções de milícias apoiadas pelo regime iraniano. Todas as sete bombas atingem seus alvos. O saldo ainda incerto de mortos pode chegar até 22 pessoas, de acordo com o Observatório Sírio para Direitos Humanos.

Este foi o recado dado, em menos de dois meses de sua gestão, por Joe Biden, mais novo chefe de estado do imperialismo ianque – segundo o Pentágono, “uma resposta militar proporcional”, tomada “junto com medidas diplomáticas”, aos recentes ataques de milícias apoiadas pelo Irã a um complexo militar perto de Bagdá, no Iraque, que abriga tropas estadunidenses. Uma mensagem clara ao mundo (desta vez, em especial ao regime iraniano) sobre o que se esperar da política exterior estadunidense sob a presidência democrata.

Em meio a uma crise global, agravada pelas consequências da pandemia, Biden busca recobrar posições dos EUA no tabuleiro geopolítico que possam fortalecer o país nas disputas comerciais com a China. Se por um lado tenta remodelar “amigavelmente” o diálogo com aliados, após anos do unilateralismo de Trump, acenando novamente para órgãos diplomáticos e multilaterais como a OTAN e retornando ao acordo climático de Paris, por outro deixa claro que, apesar das intenções de reatar também o acordo nuclear com o Irã, não medirá esforços para investir prontamente com ofensivas militares contra qualquer tipo de ameaça aos interesses do imperialismo estadunidense e de seus aliados.

Não esqueçamos, porém, que entre os mandantes do ataque aéreo à Síria está também a recém empossada vice presidente: Kamala Harris. Na última sexta-feira se tornou, assim, a primeira mulher e negra na história dos Estados Unidos a bombardear o Oriente Médio. Um feito à altura de sua trajetória política no Partido Democrata e de seu histórico de criminalização da população negra em seu próprio país, sendo conhecida por sua “linha dura” a favor do encarceramento em massa no sistema industrial prisional.

Durante a campanha eleitoral e desde o início do governo Biden, Harris tem sido uma peça-chave nos esforços democratas para reconstruir a legitimidade de seu partido e do prestígio das instituições do regime político nos EUA, duramente golpeadas e desgastadas após os atos massivos do movimento Black Lives Matter que, no ano passado, tomou por meses a fio as ruas de todo o país e fez ecoar a luta antirracista pelo mundo.

Afinal, qual figura melhor que a de uma mulher negra para desviar para as urnas os anseios de milhões de jovens e trabalhadores que protagonizaram o maior levante dos Estados Unidos desde o movimento por direitos civis, questionando o racismo e violência policial sistemática, a falência dos sistemas de saúde em meio às consequências catastróficas da pandemia, o desemprego em massa, demandando o direito à sindicalização, e que recolocaram a luta de classes no coração do imperialismo mundial?

Diante das ameaças à “maior democracia do mundo”, que escancarou suas rachaduras logo nos primeiros dias de 2021 com a invasão do Capitólio por bandos trumpistas, os democratas agora empreendem uma grande campanha para alinhar o máximo de setores da esquerda progressista e do establishment estadunidense, incluindo setores conservadores, em torno de uma espécie de “frente ampla anti Trump” – e estampa como fachada da “renovação política” a escolha calculada de uma figura feminina como Harris para a vice presidência (buscando conquistar setores do próprio Partido Democrata que levantaram a campanha #ImWithHer, em apoio a Hillary Clinton nas últimas eleições) e a chegada ou reeleição ao parlamento de uma série de deputados jovens negros, latinos e árabes como Alexandra Ocasio Córtez, Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley. Nada além do que a velha máxima “se não pode vencê-los, junte-se a eles”, aplicada ao novo contexto de crise e decadência neoliberal, numa estratégia calculada para domesticar e institucionalizar as demandas democráticas de massas, e tirar das ruas os movimentos sociais e ativistas que pediam o fim da polícia e aprofundavam o questionamento ao status quo da ordem capitalista.

No entanto, a falácia da representatividade e da política de identidade cai por terra quando resgatamos o histórico racista e opressor da política dos democratas, apesar de seus grandes esforços agora, junto à mídia aliada, para apagá-lo . O que esperar de uma figura como Harris, ex policial que se elegeu como promotora em São Francisco com o apoio de sindicatos policiais para manter a pena de morte na Califórnia, que aumentou de 52% para 67% a taxa de condenação por crimes no estado em três anos, que foi contra o tratamento adequado ao gênero de prisioneiros trans, e que, em nome de uma “guerra contra a evasão escolar”, defendeu a pena de encarceramento ou fiança de 2 mil dólares aos pais de alunos que tivessem 10% de faltas nos dias letivos?

Da mesma forma, Barack Obama, primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no final do ano passado se colocava como “conselheiro amigo” dos manifestantes do BLM, apontando como irrealista a bandeira do movimento pelo desfinancimento da polícia. Nada mais adequado, considerando que foi em seu governo que Eric Garner foi assassinado pelas mãos da polícia em 2014, originando a primeira onda dos protestos pelas vidas negras nos EUA. Mas também não esquecemos que, em seus anos no poder, manteve 9 milhões de pessoas encarceradas ou sob liberdade condicional, e construiu o maior complexo penitenciário do mundo com capacidade para 2,2 milhões de presos. Biden, que no ano passado defendeu ensinar à polícia que atire “na perna e não no coração” dos negros, e que hoje arrasa a Síria ao lado de Harris, enquanto vice presidente na gestão Obama foi apelidado “senhor dos drones”, levando adiante uma série de ofensivas e ataques militares aéreos no Oriente Médio como parte da política exterior de um governo que bombardeou mais países que Bush.

Hoje, os democratas fazem um chamado a “construir melhor novamente” os Estados Unidos pré Trump (com a falsa retórica do slogan “Build Back Better”), mas não prometem nada além de medidas neoliberais como solução para o desemprego, a pobreza e a pandemia, quando foi justamente a crise neoliberal a criar tamanhas contradições que possibilitaram o surgimento do trumpismo e o fortalecimento da extrema direita em todo o mundo. Nem Harris nem nenhuma figura progressista do Partido Democrata, parte intrínseca do imperialismo bipartidário dos EUA, pode oferecer uma solução às milhões de mulheres, negras, latinas, jovens, trabalhadoras e imigrantes que são arrasadas pelo desemprego, pela miséria e pandemia, que são arrancadas de suas famílias em centros de detenção, e que perdem, mundo afora, as suas vidas ou a de seus familiares e entes queridos pela violência policial ou em guerras imperialistas.

É um erro, como insiste parte da esquerda brasileira, como o MES-PSOL, acreditar que esta “nova” roupagem progressista possa significar um fim ao obscurantismo reacionário ou fazer algo além de reformar um modelo econômico e político falido, que necessita da polícia para proteger os lucros dos grandes milionários em meio à crise, de ofensivas golpistas, militares e sucessivos bombardeios aos povos do mundo para defender os interesses imperialistas que dirigem o capitalismo mundial, que se sustenta sobre o racismo, o machismo e a exploração para que sejam sobretudo as mulheres negras e trabalhadoras a pagarem, com suas vidas, pelos efeitos de uma crise que não criaram.

O recente bombardeio na Síria nos relembra que o gênero nos une a tantas Kamalas, Damares e falsas representantes das mulheres trabalhadoras pelo mundo, mas delas somos separadas por um abismo de classe. Neste 8 de março que se aproxima, é urgente resgatar a força do movimento de mulheres, que mais uma vez desponta na linha de frente de vários processos de luta pelo mundo, e armá-lo de uma estratégia de classe, combativa e socialista, que desmascare a demagogia do feminismo liberal e ameace as bases desse sistema de miséria e opressão. É esse o convite que fazem as mulheres do Pão e Rosas para a plenária aberta do próximo 6 de março.




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