PORTO ALEGRE

Justiça por Beto! Todos ao ato nesta segunda 23/11 em frente ao Carrefour da Bento

Muita indignação se expressou em Porto Alegre após o brutal assassinato de João Alberto no Carrefour da zona norte. É preciso fortalecer o novo ato que está sendo chamado para esta segunda 23/11 às 18h no Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, zona leste da cidade.

domingo 22 de novembro| Edição do dia

O 20 de novembro foi de luto e revolta em Porto Alegre. Amanhecemos com as chocantes imagens dos seguranças do Carrefour e de um policial à paisana assassinando Beto a sangue frio. A resposta a essa babárie foi uma grande e legítima manifestação em frente ao supermercado, protagonizada por jovens negros e negras, remetendo, inevitavelmente, às imagens da fúria negra que tem feito arder os EUA contra o racismo e a violência policial. A solidariedade com os familiares e amigos de Beto se fez sentida na presença das milhares de pessoas nos atos e nas redes que invadiram o país, solidariedade esta que nós do Esquerda Diário fortemente nos somamos. Na próxima segunda-feira (23) uma nova manifestação é convocada para as 18h no Carrefour da Bento, que segue aberto. Esse chamado aponta um caminho necessário, de seguir a mobilização, pois é com a nossa força que podemos impor justiça.

Em meio ao segundo turno das primeiras eleições do governo Bolsonaro, com uma situação, a nível nacional, muito reacionária, com os golpistas destruindo direitos e vidas dos trabalhadores e do povo, a indignação que começou a se expressar mais ativamente aponta um importante caminho. É absolutamente legítimo o sentimento de revolta que se mostrou no 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, em Porto Alegre. As imagens botaram medo e devem ter tirado do sono das elites herdeiras da escravidão e de seus políticos no país todo. Não à toa a viúva da ditadura militar e vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) se apressou em afirmar que o caso não se tratou de racismo porque "não existe racismo no Brasil". Bolsonaro chegou a se dizer "daltônico" para encobrir seu próprio racismo. Absurdos como a fala de Mourão são exaustivamente repetidos pelas elites ao longo da história, como forma de convencer a massa trabalhadora e negra de que as humilhações e a superexploração às quais estão submetidas nada tem a ver com o racismo estrutural sobre o qual se assenta o capitalismo no mundo inteiro e, particularmente, no Brasil.

A manifestação em Porto Alegre foi impressionante. João Batista Rodrigues Freitas, pai de Beto, disse que se sentiu "de alma lavada" com a repercussão.Uma profunda revolta se expressou entre os milhares que se manifestaram em frente ao Carrefour e também naqueles que acompanharam o velório de Beto, assim como em outras manifestações pelo país todo nesta sexta e neste sábado (21). Este é o caminho pelo qual é possível impor justiça e enfrentar o racismo que ceifa vidas negras todos os dias.

Nesta sexta-feira, 20 de novembro, é possível dizer que os ventos da fúria negra, que fizeram arder os EUA nos últimos meses e passaram também por outros países, derrubando estátuas e enfrentando a repressão policial, começaram a soprar em Porto Alegre. Jovens e trabalhadores enfrentavam as bombas da polícia, gritando pelo fim da chacina promovida por esta instituição, e escreviam suas denúncias e sua raiva nas paredes desta multinacional racista e exploradora. É a mesma empresa que, friamente, deixou o corpo de Moisés, trabalhador da loja em Recife, estendido no chão durante horas, em agosto deste ano, para não atrapalhar seus lucros. O Carrefour é também responsável por outras atrocidades, como demitir funcionários que exigiam receber por feriados trabalhados. Na sede do Rio de Janeiro há uma denúncia de estupro e tortura de uma mulher negra, dependente química, divulgada também na última sexta.

O bolsonarismo e a direita não escondem seu medo de que os acontecimentos na capital gaúcha indiquem o início de uma revolta negra no Brasil. Além das declarações racistas de Bolsonaro e Mourão, também o reacionário Rodrigo Constantino chegou ao cúmulo de dizer que Beto foi espancado até a morte supostamente porque era um homem grande, "um monstro". Monstruosa é tentativa de justificar, das piores maneiras possíveis, esse assassinato brutal. Historicamente as elite e seus políticos esforçam-se para tentar conter a raiva dos negros e negras, dos explorados e oprimidos deste país. A atuação da própria Brigada Militar no Carrefour nesta sexta também demonstrou isso, reprimindo covardemente a manifestação, mas não tanto quanto poderiam e gostariam. Pareciam estar defensivos, com receio de ultrapassar a correlação de forças e fazer com que a manifestação em Porto Alegre gerasse uma comoção nacional ativa. O ato poderia ter sido ainda mais expressivo, correspondendo com o rechaço de massas gerado pelo ocorrido, se os sindicatos e movimentos sociais dirigidos pelo PT e pelo PCdoB de Manuela D’Ávila tivessem colocado todo seu peso.

Embora os responsáveis por este crime estejam presos, a verdade é que mesmo esta medida elementar só será garantida no tempo mediante pressão popular. Por isso é necessário seguir e massificar o movimento que se expressou neste dia 20 em Porto Alegre. Essa é a única maneira de enfrentar o racismo estrutural que assola a vida da população negra no país todo. A classe trabalhadora da cidade precisa se somar aos atos, e tanto as e os trabalhadores negros quanto brancos também apoiar e se colocar ativamente na luta para impor justiça por Beto e contra o racismo.

É preciso exigir dos sindicatos, como CPERS, Simpa, Sindisaúde e outros, que se somem ao apoio e à construção da manifestação marcada para esta segunda às 18h, em frente ao Carrefour da Bento Gonçalves. Além disso, as organizações de esquerda precisam colocar todas as suas forças nisso. A histórica eleição de negros e negras na Câmara de Vereadores este ano é expressão da potencialidade de massas da luta antirracista em Porto Alegre. A bancada negra eleita e particularmente a companheira Karen Santos (Alicerce/PSOL) e Matheus Gomes (Resistência/PSOL) que já estão demonstrando seu apoio e sua solidariedade à família de Beto e compondo as manifestações, podem convocar todas as milhares de pessoas que os elegeram, com o alcance que tiveram suas campanhas, para fortalecer esta mobilização. As torcidas organizadas, que estiveram nas ruas exigindo justiça na sexta e também no sábado, além de terem tomado à frente no enfrentamento ao bolsonarismo nas ruas durante este ano, podem se somar a este ato, junto com o movimento negro e os movimentos sociais, para massificar esta luta.

A campanha eleitoral do segundo turno não pode ser um entrave. Não é por dentro das instituições deste regime político autoritário e golpista que os profundos problemas vividos pelas massas negras e trabalhadoras serão resolvidos. É preciso enfrentar o racismo estrutural que retira e explora as vidas negras em Porto Alegre e no Brasil desenvolvendo a revolta que se expressou nesta sexta-feira. Fazer justiça por Beto não se trata apenas de garantir que sejam punidos e condenados o policial e o segurança do supermercado. A sede de lucro do Carrefour também é responsável pelo ocorrido. O supermercado é parte de uma gigante rede multinacional que, no Brasil, é dirigida por uma mulher negra. Como afirmou Letícia Parks "Curioso, não mudou que o chão mais uma vez está sujo de sangue negro. Precisamos lutar pelo fim da divisão entre topo e chão." Por isso os próprios trabalhadores do Carrefour e de todos os supermercados precisam também se somar. E os trabalhadores do Carrefour não podem ser penalizados por nada. Enquanto o supermercado estiver fechado, todos os trabalhadores devem continuar recebendo igual, sem nenhum direito a menos.

Mesmo com a prisão dos responsáveis diretos por essa barbárie, a opressão e exploração às quais negras e negros são submetidos todos os dias seguirão. Também os lucros exorbitantes do Carrefour, que somente no segundo semestre deste ano foram de R$ 757 milhões, seguirão intactos e inclusive com suas ações aumentando após este assassinato cruel.

Fazer justiça por Beto, e também por Ágatha, Miguel, Guilherme, Mestre Moa, Marielle Franco e todas as negras e negros cujas vidas foram ceifadas por este sistema de miséria e opressão passa pela organização do povo negro, em aliança com a classe trabalhadora e também com as mulheres, indígenas, LGBTs e todos os setores oprimidos, para se erguer contra o racismo e contra a exploração capitalista. No Brasil isso signfica enfrentar Bolsonaro, Mourão e todo o regime político golpista, que vêm retirando direitos da classe trabalhadora e jogando a crise capitalista nas costas do povo pobre e explorado, que é uma maioria de negros e negras.

Nós do Esquerda Diário, do Quilombo Vermelho e do MRT colocamos todas as nossas forças a serviço dessa perspectiva e chamamos quem esteve nas ruas nesta sexta a se somar nestas batalhas. O Carrefour e os capitalistas têm as mãos sujas de sangue negro, assim como também Bolsonaro, Mourão e todos os atores políticos deste regime golpista. Por isso colocamos a necessidade de fundir a luta antirracista com a luta do conjunto da classe trabalhadora, para derrubar este governo racista e reacionário, e enfrentar também todo o regime político, erguendo uma forte mobilização nacional que imponha pela luta uma nova constituinte livre e soberana.

O reacionário Eduardo Bolsonaro chegou ao absurdo de dizer que, com a barbárie promovida no Carrefour em Porto Alegre nesta quinta, as organizações de esquerda "Conseguiram seu George Floyd para, sob pretexto de combater o racismo, de maneira organizada destruir tudo até talvez conseguirem nova constituinte". Não é à toa ele expressa seu medo de que a revolta que se mostrou diante deste assassinato desencadeie um movimento bem mais amplo, que possa impor uma nova constituinte. Com um processo assim podemos derrubar Bolsonaro, Mourão e seu governo de extrema direita e também enfrentar o judiciário racista, que mantém 41,5% da população carcerária presa sem julgamento, maioria negros. Ao mesmo tempo, as necessidades da classe trabalhadora, do povo negro e de todos os oprimidos só podem ser plenamente realizadas em um governo de trabalhadores, que rompa com o capitalismo e abra espaço para acabar com todo o racismo que é estruturante desse sistema miserável. Para isso é necessário batalhar desde já por uma alternativa política independente, para superar pela esquerda a experiência da classe trabalhadora brasileira com o PT e desenvolver até o final a revolta que começa a se expressar e que, no mundo todo, faz tremer os capitalistas.




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