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"Jurei, jurei, vou juntar a minha nação": Chico Science & Nação Zumbi e a denúncia da fome

Renato Shakur

"Jurei, jurei, vou juntar a minha nação": Chico Science & Nação Zumbi e a denúncia da fome

Renato Shakur

Os anos 1990 foram atravessados por uma política neoliberal ofensiva fruto da restauração capitalista. Na prática, a América Latina de conjunto sofreu o impacto de políticas de austeridade e privatizações. No Brasil, o avanço neoliberal esbarrou com a fortíssima greve dos petroleiros em 1995, ainda que as direções sindicais tenham colocado um limite para que essa greve se generalizasse e tomasse outras categorias. Mesmo assim, esse período foi marcado pelo agravamento de problemas sociais como a fome, a desigualdade, o desemprego e a violência policial.

A vanguarda artística e cultural não deixou de denunciar esse processo. A banda O Rappa denunciou o cotidiano de violência, o racismo e a degeneração da polícia militar do Rio de Janeiro: “Era só mais uma dura, resquício de ditadura, de quem se sente autoridade nesse tribunal de rua”, para citar apenas uma de suas músicas. 509E, Racionais, RZO, Pavilhão 9, seguidos de Planet Hemp e MV Bill, cada um à sua maneira tentavam denunciar os efeitos na sociedade desse avanço neoliberal na vida da população trabalhadora e pobre.

Em Recife, surgiu a banda Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ) da junção da banda de rock Loustal e o bloco afro Lamento Negro da comunidade Chão de Estrelas. Inspirados pela cena musical internacional desde Public Enemy, Zulu Nation, Dr. Dree, Jimmy Hendrix o trance e por aí vai, influenciados por ritmos regionais como o coco, maracatu, samba, a ciranda, a banda CSNZ deu à cena musical nacional, junto a outros grupos musicais, o manguebeat. O desenvolvimento da cena manguebeat tem uma história riquíssima que valeria um texto a parte e por isso não vou desenvolvê-la aqui. Mas o que gostaria de marcar é uma outra influência bastante marcante nas letras de Chico Science.

Josué de Castro e a obra Homens e Caranguejos foram peça fundamental para o desenvolvimento da crítica dos problemas sociais vividos em Recife nos anos 1990. Esse romance narra a trajetória de vida de João Paulo, sua família, amigos e o mangue. Na verdade, é uma história que denuncia a fome e a miséria vividas nos mocambos de Aldeia Teimosa no bairro de Afogados. Josué narra o drama da fome, suas angústias, tristezas mostrando que ela não é obra de um discurso sobre determinada região ou uma mera invenção. Ela é sentida, experimentada enquanto um problema social e viva. Nesse sentido, o mangue e o caranguejo são fundamentais para que aquela população não morra de fome, ou melhor, são em síntese a subsistência e a vida da população trabalhadora nos manguezais. Nas palavras de Josué, essa população:

“vive de pegar caranguejo, chupar-lhes as patas, comer e lamber seu casco até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo dos seus filhos”. [1]

Daí deriva sem sombra de dúvida a metáfora fisiológica entre a cidade, a sociedade e os caranguejos tão bem sintetizada no Release Caranguejos com Cérebro escrito por Fred Zero 4, também conhecido como 1º Manifesto Manguebeat, nas expressões manguegirl e mangueboy. A crítica de Josué indicava também um caminho para denunciar a miséria de uma população relegada à pesca e venda de caranguejo. A isto Chico Science esteve bastante atento.

Se ouvirmos a música “Cidadão do Mundo” podemos notar essa inspiração e o mesmo tipo de denúncia. A letra narra um homem que foi matar a sede num canavial. Quando estava ali parado saciando com um pouco de água, foi surpreendido por um capitão do mato, em defesa da propriedade de seu patrão, tentou acertá-lo com uma foice, mas ele correu a tempo antes de ser morto. Enfurecido por não poder nem mesmo matar sua sede com água, ele jurou esse capitão do mato de morte. E chamou sua turma para vingar o acontecido. Dona Ginga, rainha africana sequestrada como escrava junto com seus súditos para o Brasil, Exú Veludo (carinhosamente chamado “veludinho”), Zumbi dos Palmares e mestre Salustiano fundador do Maracatu Piaba de Ouro - uma tradição cultural que remonta a senzalas dos engenhos e a resistência indígena.

“A estrovenga girou/ Passou perto do meu pescoço/ Corcorviei, corcoviei/ Não sou nenhum besta seu moço/ A coisa parecia fria/ Antes da luta começar/ Na roda estrovenga surgia/ Girando veloz pelo ar/ Eu pulei, eu pulei/ E corri no coice macio/ Só queria matar a fome/ No canavial na beira do rio [...] Jurei, jurei/ vou pegar aquele capitão/ vou juntar a minha nação/ na terra do maracatu/ Dona Ginga, Zumbi, Veludinho/ E segura o baque do Mestre Salu/ Eu vi, eu vi/ a minha boneca vodu/ subir e descer no espaço/ na hora da coroação/ me desculpe senhor, me desculpe/ mas essa aqui é a minha Nação/ Daruê Malungo, Nação Zumbi/ é o zum zum da capital/ só tem caranguejo esperto/ saindo desse manguezal” [2]

A música segue evocando Josué de Castro e em seguida narra mais uma cena dos problemas sociais frutos da desigualdade social. Mas o que chama a atenção é que o título da música. "O cidadão do mundo", foi um título recebido por Josué de Castro pelas Nações Unidas por suas ações no combate à fome. Não é de se estranhar que Chico Science nessa música faça referência ao título recebido por ele no intuito de mostrar que há como em Recife em pleno avanço neoliberal, outras formas de se combater a fome. Está ligado à cultura negra e à luta de classes. Não foi à toa que a única resposta encontrada frente ao ataque do capitão do mato, foi juntar nada mais, nada menos que grande símbolos da resistência à escravidão, como Zumbi dos Palmares e referências importantes da cultura negra e tradicional pernambucana.

A banda CSNZ denunciou de maneira viva os problemas enfrentados pelos trabalhadores, a população pobre dos manguezais e a juventude nos anos 1990. Suas letras são fontes de inspiração, sobretudo, num momento onde 7,7 milhões de pessoas se encontram em situação de fome no Nordeste, 60% da população brasileira tem insegurança alimentar, onde há fila do osso e uma alta de desemprego. Assim como apontou CSNZ, frente a barbárie que o sistema capitalista impõe a nós, no qual nem ao menos podemos saciar nossa sede, a solução só pode vir de nós mesmos, e 20 anos após Chico Science ter escrito junto a outros integrantes da banda essa letra, seguimos na luta contra a barbárie capitalista que segue aprofundando a desigualdade social, sobretudo daquelas população como Aldeia Teimosa e tantas favelas, palafitas e periferias nos dias de hoje.

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FOOTNOTES

[1Josué de Castro. Homens e Caranguejos, 1967. p.8

[2Cidadão do Mundo, Chico Science & Nação Zumbi. Afrociberdelia, 1996.
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