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Eleições Chile | Ir ao centro para ganhar de Kast? A estratégia de Boric no Chile e o debate na esquerda

Após as eleições de domingo, Gabriel Boric, candidato da "Apruebo Dignidad" (coalizão composta pela Frente Ampla e o Partido Comunista), fez acenos discursivos ao centro, para tentar "seduzir" parte do eleitorado e angariar votos para o segundo turno eleitoral, onde disputará com a extrema direita de Kast. Esta posição já abriu discussões entre as fileiras do Apruebo Dignidad e dentro da esquerda chilena.

terça-feira 23 de novembro | Edição do dia

Não haviam se passado nem 24 horas desde que os resultados das eleições presidenciais vieram a público no Chile quando houve a primeira discussão pública dentro de "Apruebo Dignidad", coalizão entre o Partido Comunista e seus parceiros da Frente Ampla, que tinha como candidato Gabriel Boric, da centro-esquerda.
O fato de Boric ter ido ao segundo turno com uma ligeira desvantagem em relação ao candidato da extrema direita, José Antonio Kast, gerou um intenso debate sobre como orientar a campanha eleitoral para a votação de dezembro.

Este debate foi pela primeira vez levado à imprensa. Na segunda-feira, Gabriel Boric assegurou, como parte de uma primeira tentativa de diálogo com o centro e o sentimento "anticomunista", que Daniel Jadue (um candidato do Partido Comunista que havia perdido nas prévias do Dignidad contra Boric) não teria lugar em seu governo e que eram necessárias “personalidades transversais”. A partir de suas contas no Twitter, tanto o Partido Comunista quanto o próprio Jadue responderam rapidamente, ambos apontando que esta “transversalidade” deveria incluir o Partido Comunista e suas personalidades, em resposta às declarações de Boric.

“Acreditamos que quem quer que tenha sido nosso candidato pode colaborar desde a Recoleta; em qualquer lugar e com transversalidade. A alusão a uma suposta “não transversalidade” deve uma explicação ao nosso partido.
- Partido Comunista do Chile (@PCdeChile) 22 de novembro de 2021”

Essa conversa que veio a público através da mídia e das redes sociais é uma expressão da discussão “interna” que vem ocorrendo dentro do Apruebo Dignidad. Este debate estratégico sobre como enfrentar o segundo turno mantém tensa a aliança entre o Partido Comunista e a Frente Ampla.

Embora nas contas oficiais o debate aconteça de forma mais silenciosa, entre os militantes dos dois partidos a discussão se expressa de forma mais aberta.

Resultados para 21 de novembro

Na noite de domingo, foi definida a composição do novo Congresso Nacional que tomará posse em 11 de março, juntamente com o mandato do novo presidente, que será definido em 19 de dezembro.

A eleição parlamentar foi importante para o Apruebo Dignidad, pois as forças políticas da coalizão mostraram o peso que teriam no ciclo político atual. Assim que saíram os resultados, a aliança entre a FA e o PC não ficou muito contente, dado o avanço da direita no parlamento. Esta nova correlação de forças traria novidades ao teatro político.

O Dignidad passou de 26 cadeiras na Câmara dos Deputados para 37. O PC cresceu de 9 para 12 deputados e tirou a Revolução Democrática (RD, partido que faz parte da Frente Ampla e tem como principal figura Giorgio Jackson) da posição de maior partido do bloco. O RD, partido mais moderado da Frente Ampla, diminui assim a sua representação, saindo das 10 cadeiras que tinha em 2017 para 8. O resto dos partidos da “ala esquerda” da Frente Ampla, como o Convergência Social, partido de Boric, será o partido com mais deputados da FA, passando de 3 para 9 deputados e Comuns passará de 2 para 6.

O RD ficou bastante abalado. Ao sabor amargo do domingo foi somado o fato de que o partido sofreu uma dura derrota quando o deputado Miguel Crispi (que perdeu a reeleição no 12º distrito) e Sebastian Depolo, que obteve um mau desempenho na eleição ao senado, ficaram de fora das câmaras. Giorgio Jackson também não teve um bom resultado, já que no 10º distrito, onde atualmente ocupa o cargo de deputado, não conseguiu eleger o seu candidato, que ficou de fora do Congresso.

Em outras palavras, um primeiro elemento a considerar é que um dos grupos-chave na fundação da Frente Ampla, o RD, perdeu notável influência no Congresso. Esse grupo, no entanto, tem um peso importante junto a Gabriel Boric, dados os laços de afinidade que os ligam ao candidato à presidência do Apruebo Dignidad, e o grupo que ficou mais forte dentro do RD é o mais moderado.

Essa correlação de forças entre setores mais moderados e mais de esquerda é a base da disputa que existe na coalizão. Apesar de o setor mais à esquerda ter saído numericamente fortalecido, o fato de os partidos de direita terem vencido parcialmente as eleições parlamentares dá aos setores moderados da FA, entrincheirados no comando de Boric, base para manobras de chantagem com um giro ao centro.

A orientação programática da campanha

A correlação de forças, dizem os moderados, é desfavorável, por isso devemos esquecer que o governo de Boric consiga mudar alguma coisa. A esquerda reformista, acostumada a fazer análises simplistas, igualando o ânimo da população aos resultados eleitorais (as eleições são apenas uma medida, entre tantas outras, das forças sociais em conflito), tende a acreditar que como Kast obteve uma ligeira vantagem e a direita controla os quóruns de ambas as casas do congresso, então o povo girou à direita e quer “ordem”.

Mesmo que os votos de Kast somados aos de Sichel, candidato de Piñera que ficou em quarto lugar, não tenham ultrapassado a quantidade de votantes da direita das últimas eleições, a leitura dos setores moderados é que se deve pegar o programa da extrema-direita e levá-lo à frente “em chave progressista”. É claro que isso é mais confortável do que imaginar como se construir nos setores populares onde Boric obteve bons votos mas a abstenção ainda é alta, ou no eleitor crítico que confiou na demagogia populista de Parisi, que tinha um discurso anti-elite muito mais forte do que o de Boric .

O “malmenorismo” e o "pânico fascista" pressionam para que o setor de esquerda não se pronuncie sobre a orientação programática geral da campanha e aceite Boric pelo bem maior que é vencer Kast. Segurança e ordem no lugar de direitos sociais. Boric busca uma imagem mais "presidencial" tentando seguir o discurso de Kast “sob ótica progressista”.

Entretanto, a tentativa do setor moderado de fazer o maior número possível de concessões inevitavelmente os leva a questionar o papel que o Partido Comunista desempenhará em um eventual governo de Boric, algo que é recebido com alarme no principal parceiro de Apruebo Dignidad. Não poucas pessoas brincam que o atual candidato teria o mesmo nome que Gabriel González Videla, o histórico presidente radical que ganhou nos anos 40 com o apoio dos comunistas e depois os expulsou do governo decretando a maldita lei que proibia o PC.

Um resultado (ainda) em aberto

A fragmentação do Congresso significa que o próximo presidente terá que formar uma coalizão parlamentar para se manter no poder. O paradoxo é que em um regime hiperpresidencialista, o presidente depende do parlamento para obter apoio. Uma vez que nenhuma força conquistou uma maioria, ele precisa formar uma nova coalizão. Isto mantém uma tendência dentro do regime que já havia sido expressa desde a rebelião com o enfraquecimento da figura presidencial causado pela atual crise política.

Kast parece estar mais perto de alcançar este objetivo. A direita está a apenas alguns votos de uma maioria na Câmara dos Deputados e no Senado conseguiu um empate. Não faltarão democratas-cristãos dispostos a proporcionar governabilidade, assim como fizeram durante o governo de Piñera, votando até mesmo em suas leis mais aberrantes.

No entanto, esta situação de estar fechada neste labirinto institucional é de responsabilidade exclusiva da Frente Ampla que, com sua aposta em reconciliar-se com as instituições existentes, acabou apostando em uma convenção ligada a um parlamento conservador, recusando-se, no auge da rebelião, a deixar cair o regime e substituí-lo por uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana.

Um projeto de esquerda que busca neste momento basear sua hegemonia no parlamento conservador está condenado a repetir a história da transição, transformando a eventual vitória de Boric em um breve parêntese. A política de ultradireita de Kast seria freada este ano apenas para acabar abrindo a porta para ele depois de quatro anos. A única hegemonia que pode ser construída para garantir a mudança é mobilizar amplamente os setores populares com um programa que responda às necessidades reais levantadas pela rebelião, para que uma derrota de Kast sirva de impulso para se mobilizar novamente contra o legado da ditadura.




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