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CORONAVÍRUS | Índia: Outro desastre capitalista impulsionado pelos reacionários na pandemia

Em 28 de janeiro, Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, declarou vitória contra a Covid-19 em seu discurso em Davos. Com a hipocrisia reacionária dos tipos de Trump e Bolsonaro, a irracionalidade capitalista conseguiu arrastar a fábrica de vacinas do mundo ao colapso sanitário. Algumas chaves para entender a situação.

quarta-feira 5 de maio | Edição do dia

Foto: AP Photo/Altaf Qadri

Em 28 de janeiro, Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, declarou vitória contra a Covid-19 em seu discurso em Davos. Modi, orgulhoso, declarou que salvou a “humanidade de um maior desastre, contendo o coronavírus efetivamente”. Alguns meses depois, o que se confirma é a hipocrisia e o descaso dos governos reacionários, como foi com Bolsonaro e o Brasil.

Sob o comando do nacionalista hindu, a índia nos últimos meses nos superou em taxa de contaminações e de mortes, mesmo sendo o principal produtor mundial de vacinas. O país de 1,3 bilhão de pessoas colapsa diante da pandemia, como nenhum outro até agora. São mais de 20 milhões de casos e 222 mil mortes, com suspeitas de que a subnotificação possa atingir 10x esses números.

Após o discurso no Fórum Econômico Mundial, o governo Modi disseminou a crença de que o pior da pandemia havia passado, e seu partido - o supremacista hindu Bharatiya Janata - inclusive aprovou uma resolução comemorando sua “liderança em introduzir a Índia ao mundo como uma nação orgulhosa e vitoriosa na luta contra a Covid-19”. De lá pra cá, grandes passeatas políticas, comícios eleitorais e rituais religiosos concentraram enormes contingentes sob a direção da direita reacionária e negacionista. Apenas no dia 12 de abril, mais de 3 milhões de peregrinos se banharam nas águas do Ganges na cidade sagrada de Haridwar.

Saiba mais: Índia: A virada Fascistizante na Maior Democracia Burguesa do Mundo

Como pode o maior produtor mundial de vacinas ser devastado pelo vírus?

A índia produz 20% dos medicamentos genéricos e 62% das vacinas a nível mundial. Ano passado, acompanhamos com raiva Bolsonaro e seu então pateta de plantão, Pazuello, em uma empreitada de mentiras negacionistas e medidas desesperadas pelas vacinas indianas de última hora. Que uma economia tão forte na farmácia e biotecnologia seja tão brutalmente atingida pelo coronavírus não se explica só pela incompetência do nacionalismo reacionário, e sim do capitalismo de conjunto.

As patentes das vacinas contra o vírus são, na Índia, mas também no mundo inteiro, o grande entrave para sair da pandemia. O país, que saltou no ramo com a possibilidade de produzir genéricos sem respeitar as patentes de origem, teve essa lei alterada em 2005 por pressão da OMC e das grandes farmacêuticas. Ainda assim tem capacidade para produzir todas as vacinas que precisa, com duas gigantes instaladas em seu território: O Serum Institute, da AstraZeneca-Oxford, e o Bharat Biotech, da Covaxin.

Desenvolvida pelo investimento de capitais que buscavam aproveitar o negócio da produção de medicamentos baratos para a Europa, Estados Unidos e outros países, essa enorme capacidade produtiva hoje está limitada por uma dúzia de farmacêuticas que impedem que o país fabrique em massa as vacinas e disponha delas

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E a produção não é o único problema: Na Índia, só trabalhadoras e trabalhadores da saúde estão recebendo as vacinas gratuitamente. Diferente do nosso Brasil do SUS, tão atacado por sinal, o contingente bilionário de trabalhadores indianos se veem obrigados a pagar o equivalente a até R$50,00 por dose, quando há disponibilidade.

A crise de saúde na Índia e a geopolítica de Biden

No último mês, a nova mutação dupla do vírus e o rápido avanço da onda no país levaram Modi a pedir ajuda humanitária. O governo dos Estados Unidos, pressionado pelo impacto da onda devastadora na índia e dando uma resposta diplomática a um aliado estratégico, levantou parcialmente a proibição de exportação de matérias primas para as vacinas imposta nos EUA, e também prometeu equipamentos médicos e EPIs.

Chama a atenção que o acordo não inclui compartilhar as vacinas dos enormes estoques acumulados. Os EUA estocaram dezenas de milhões de doses da vacina AstraZeneca, que ainda não foi aprovada pela FDA. Ainda assim, após quatro anos da parceria reacionária de Trump-Modi, o imperialismo estadunidense dá um novo passo para consolidar essa aliança estratégica para seus planos na Ásia diante da China.

O pacote é insuficiente e Modi requisitou apoio não só dos norte-americanos, mas também de outras potências aliadas. O Reino Unido está enviando 600 itens de material médico, mas alega que não pode enviar nenhuma dose de vacina porque não tem estoque (apesar de já ter vacinado mais de 50% da população).

Porém, o imperialismo poderia ajudar a Índia e todos os outros países (como o Brasil), com muito mais facilidade, simplesmente emitindo uma ordem executiva para liberar as patentes e “propriedades intelectuais” das vacinas e medicamentos usados no tratamento da Covid-19, ou seja: saindo das nossas costas. Permitir com que todos os países pudessem produzir versões genéricas das vacinas e aplicá-las rapidamente na população, porém, abalaria diretamente os lucros bilionários dos monopólios farmacêuticos das potências imperialistas e seus acionistas.

A recente luta de classes na Índia contra os ataques de Modi

Mais perigoso que o vírus ou a perda de algum prestígio internacional, há um enorme tigre assalariado e popular que já demonstrou sua força para avançar sobre Modi.

A Índia acaba de passar por meses de enorme convulsão social. Em novembro (2020), vimos a maior greve geral do mundo (250 milhões de trabalhadores), chamada por 10 centrais sindicais contra o pacote de reformas de Modi. Esse pacote ia de novas leis trabalhistas e “flexibilização” das normas sanitárias e de segurança do trabalho urbano e rural , além de diversas privatizações. O processo pode ter durado um dia, devido ao abandono por parte das direções, mas foi a faísca para as enormes manifestações camponesas que tomaram o país em seguida.

A reforma agrícola de Modi atingiria 600 milhões de pessoas, sacrificando os pequenos e médios agricultores para abrir o mercado agrícola indiano para as multinacionais - e garantir seu espaço de competitividade com a China. Contra esse ataque, trabalhadores rurais com seus 250.000 tratores tomaram os arredores da capital e se enfrentaram por semanas contra a polícia e suas barricadas. Essa mobilização teve entre seus pontos altos o protagonismo das mulheres, que continuam com força na linha de frente dos protestos, e também o enfrentamento contra os ataques vindos dos grupos supremacistas hindus ligados à Modi.

E o que há por vir?

Com um colapso nacional que possivelmente irá agudizar as crises e tensões sociais do último período, bem como com os resultados eleitorais que se desenrolam agora em maio, Modi, seu fundamentalismo hindu e os capitalistas que os apoiam terão sérios desafios à frente, e o recrudescimento do autoritarismo e da violência estatal pode aparecer como uma solução de força.

Modi ainda conserva um prestígio político hindu como não se via há muitas décadas, e criou um movimento ideológico nacionalista e fundamentalista próprio, chamado de “Nova Índia”. O próprio Narendra surgiu no cenário político liderando os massacres de 2002 contra muçulmanos em Gujarat. Seu governo até agora foi marcado por um salto nos crimes de ódio, pela culpabilização racista de outras religiões e etnias pelos estragos da pandemia e pelo fortalecimento do militarismo, escancarado na ocupação militar da Caxemira, no apoio aos militares de Mianmar e nas fronteiras com Paquistão e China.

E como vimos em praticamente todos os países que utilizam de medidas autoritárias contra a população na pandemia ou onde o movimento de massas irrompeu no meio desta, estados de emergência como vive hoje a índia são pratos cheios para que os capitalistas e seus representantes avancem com suas reformas e ataques antidemocráticos contra os trabalhadores e a população pobre.

Embora os protestos que impressionaram o mundo sejam organizados por sindicatos de camponeses, cujos dirigentes participam nas mesas de negociação, o mesmo acontece com o “Partido do Congresso”, principal oposição e ex-governo do país, ligado à burguesia nacional e que conta com o apoio do Partido Comunista da Índia (Estalinista). Essas lideranças estão usando o maior protesto antigovernamental da história da Índia para mudar sua própria relação de forças com Modi, isolando a luta do conjunto da classe trabalhadora. A explosão e a solidez dos agricultores, por outro lado, vieram obrigando suas direções a cumprirem suas demandas, um indicativo de que essa nova camada de trabalhadores pode vir a fazer experiências mais profundas com essas direções conciliadoras, principalmente diante de futuras traições.

A situação na índia é um grande exemplo do fracasso do capitalismo em resolver essa crise. O único caminho efetivo para derrotar o vírus é redirecionar as forças produtivas com esse objetivo. Contra esse sistema que coloca o lucro acima da vida, precisamos que a classe trabalhadora e as massas empobrecidas assumam o controle de seus próprios locais de trabalho e moradia.

Enquanto Modi continua, muito parecido com o que fizeram Trump e Bolsonaro, disseminando mentiras negacionistas em eventos de enorme concentração, as trabalhadoras da saúde e o conjunto da classe operária enfrentam a onda de contaminações dia a dia, e são os únicos salvando vidas. Acabar com as patentes, colocar o sistema e a infraestrutura médica e farmacêutica sob controle operário, aumentar os salários e contratar mais trabalhadoras da saúde, bem como taxar as grandes fortunas são medidas críticas e necessárias para enfrentar a crise, ao invés de simplesmente aguardar que o vírus creme milhões enquanto os capitalistas fazem demagogia filantrópica.

O sudeste asiático já mostra seu peso na luta de classes do século XXI. O nível de fortalecimento nacionalista e repressivo na região apresenta desafios que, se superados através da organização e da luta, podem ser bases para grandes lições estratégicas e futuras organizações revolucionárias dos trabalhadores, das mulheres, da juventude e dos oprimidos na ásia.

Como escreveu Salvador Soler, “por enquanto, a fraqueza desses "movimentos de desobediência civil" é que eles ainda respondem às lideranças burguesas frequentemente ligadas aos Estados Unidos, à União Europeia, à ONU ou a ONGs, como Mianmar e Tailândia. Embora várias lutas operárias tenham ocorrido apesar das direções sindicais e políticas, ainda não foram expressas tendências de independência de classe que pudessem impor seu próprio programa e agenda política. Mas os combates atuais mostram que uma tendência da luta de classes se aprofunda em toda a região, e que caso se flexibilizem as restrições da pandemia, provavelmente terão mais força. Cada passo em que a classe trabalhadora participa de aliança com os diferentes movimentos sociais são saltos nessa perspectiva”.




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