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DEBATES NA ESQUERDA | Independência ou colaboração de classes? Duas políticas no trotskismo francês

A Corrente Comunista Revolucionária (CCR) e a velha maioria do Novo Partido Anticapitalista (NPA) expressam duas políticas diferentes frente à luta de classes e aos processos políticos, em particular, às próximas eleições presidenciais.

quinta-feira 3 de junho | Edição do dia

Na imagem: Anasse Kazib, mencionado como pré-candidato da esquerda trotskista na revista Marianne, e Oliver Besancenot, uma figura do NPA que participará de um ato pelas candidaturas com o La France Insoumise nas eleições regionais

A divisão que vem acontecendo no NPA da França, o partido mais importante da esquerda trotskista, onde a direção histórica está excluindo a principal tendência de oposição de esquerda do partido, a CCR, se expressa como duas políticas diferentes frente à luta de classes e aos processos políticos, em particular às próximas eleições presidenciais. Os meios de comunicação do establishment político ressaltam, é claro, este último aspecto.

A revista política semanal Marianne, muito conhecida na França, publicou em sua plataforma online, em 3 de junho, uma nota dedicada aos “pequenos candidatos”, como lá se chamam os candidatos que não têm chance de chegar à votação. Nesta nota destacam Anasse Kazib, desde o título, e comentam:

É sem dúvida o mais midiático dos pequenos candidatos declarados. Anasse Kazib é uma trabalhador ferroviário, ativista marxista e sindicalista da SUD Rail, foi uma figura do movimento de 2018 que se opôs à abertura à concorrência e ao fim do estatuto do trabalhador ferroviário. Foi durante este movimento que as redes de televisão se focaram nele e levaram-no a intervenções regulares no C8, CNews, France 5 ou LCI. Com 40.000 seguidores no Twitter, é membro do Novo Partido Anticapitalista (NPA).

Em 4 de abril de 2021, anunciou sua “pré-candidatura” às eleições presidenciais de 2022, durante um conselho político do NPA. Esta candidatura acentua um pouco mais a crise que atravessa a organização revolucionária, nascida em 2009 e dirigida por Oliver Besancenot. Este último, apoiado pela maioria dos militantes, se enfrenta com fortes tensões internas por ter sofrido uma série de fracassos eleitorais. Uma carta dirigida aos militantes do partido, publicada no site Révolution Permanente em 31 de maio, pela fração mais esquerdista do NPA, reprova os tenores do partido por terem “medo” da candidatura de Anasse Kazib: “O grupo quiçá também teme que a ideia de uma candidatura de Anasse, como figura emergente da última onda de luta de classes, encontre espaço na cabeça de alguns militantes, apesar de toda a campanha pública que estão levando à frente, em nome do NPA de conjunto, contra um companheiro trabalhador e de origem imigrante."

Anasse kazib também é conhecido pelos telespectadores por ter aparecido várias vezes no programa de Cyril Hanouna “Touché pas à mon poste!”. Lá chamou a atenção por suas brigas incisivas com representantes da extrema direita como Jean Messiha, ou por ter repreendido a jornalista Sonia Mabrouk por ter jogado o jogo da Unidade Nacional.”

Leia também: NPA na França: rumo à exclusão, sem voto nem congresso, da segunda maior tendência do partido

Como se pode ver, nem mesmo essa revista pode esconder que a candidatura de Anasse Kazib tem relevância pelo que expressa a respeito dos processos de luta da classe trabalhadora francesa dos últimos anos, além do fato de ser filho de imigrantes marroquinos, o que se choca com as brutais campanhas islamofóbicas e anti imigrantes impulsionadas pelo conjunto do regime.

Por sua vez, a direção histórica do NPA avança em sua política de acordos com o partido político de Jean-Luc Mélenchon, França Insubmissa (LFI), principal candidato da “esquerda institucional" (centro-esquerda). Já explicamos que esta política se expressa nas chapas para as eleições regionais em Nova Aquitânia e Occitanie que acontecerão nos próximos dias 20 e 27 de junho. No caso da primeira, a chapa está encabeçada por uma figura da LFI. Agora não é somente o ex-candidato presidencial de 2012 e 2017, Phillipe Poutou, que aparece de porta-voz desta chapa na região que inclui a cidade de Burdeos, onde é vereador, mas também Oliver Besancenot, ex-candidato presidencial pela LCR e que conseguiu obter 4% dos votos em 2007, logo se convertendo em uma figura central do NPA no momento da sua fundação e nos anos posteriores, até que optou por deixar de ser candidato e teve que ser substituído pelo desconhecido - até este momento - P. Poutou.

Dois dias antes da nota mencionada acima, o site SudOuest.fr (Sudoeste) anunciou a participação de Besancenot em um ato na cidade de Saintes, como orador principal junto à figura da LFI, Clémence Gutté, e outros, entre eles Poutou: “Regionais: Besancenot em Saintes para a campanha LFI-NPA

Esta informação talvez pareça “normal” para um leitor desavisado, porém é importante porque, por mais que pareça uma brincadeira, uma das tendências de oposição do NPA que vem legitimando a exclusão da CCR por parte da direção tradicional, L’Etincelle (A Centelha, ex Fração do Lutte Ouvriere), argumenta que Oliver Besancenot poderia ser um candidato “de consenso” de todas as tendências do NPA, dado que estava comprometido com a política de acordos com a LFI. A própria direção histórica do NPA (a corrente mandelista) e também a CCR, responderam que era evidente que Besancenot apoiava a política de Poutou e de toda a direção histórica do NPA. Como se fosse uma resposta à L’Etincelle, Besancenot encabeçou o ato de apoio à chapa LFI, e o próprio Poutou anunciou em sua conta no Instagram.

Como vinhamos assinalando, são claras as tendências que vêm se desenvolvendo no NPA: uma corrente que avança no caminho de alianças com a "esquerda institucional" e outra que conflui com o melhor da vanguarda operária, da juventude e dos movimentos antirracistas. A próxima Conferência eleitoral do NPA está sendo organizada cm base na exclusão da CCR e de Anasse Kazyb, e vai votar um candidato "próprio" da corrente que leva adiante os acordos regionais. Como o debate dentro do PSOL no Brasil, levar ou não uma candidatura própria não significa mais do que uma cobertura para uma política eleitoralista e de colaboração de classes, que não pode ser aplicada sem métodos burocráticos, calando a oposição de esquerda.

Mas a novidade na França é que essa oposição de esquerda conseguiu transcender os pequenos círculos militantes e conquistar as bases para uma liga revolucionária quarta-internacionalista.




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