VERDADEIRA HISTÓRIA

Inconfidência: a farsa, a tragédia e a luta negra e operária em Minas Gerais

Tragédia: há 232 anos da Inconfidência Mineira, vemos em Zema, Bolsonaro e outros parasitas os herdeiros dos primeiros escravistas, espremidos entre o imperialismo e a forte classe trabalhadora brasileira. Farsa, nunca houve valentia revolucionária da covarde burguesia brasileira, mas sim das massas negras escravizadas.

Maria Eliza

Estudante de Biologia da UFMG

quarta-feira 21 de abril| Edição do dia

N’O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx nos diz que a história se apresenta como tragédia e farsa, nessa ordem especificamente. Olhando para a Inconfidência Mineira, que a historiografia oficial insiste em comemorar em 21 de abril, seria a farsa a própria tragédia, que se estende até os dias de hoje?

Naquele tempo, uma elite colonial esmagada pela ingerência da Coroa Portuguesa, por um lado, e a força da luta negra, por outro. Hoje, um governador patrão fazendo malabarismos entre a dívida de MG com a União, as promessas de privatizações e ainda mais ataques ao funcionalismo público; e o risco de se enfrentar com a força da classe trabalhadora, herdeira dos bravos escravos insurretos mineiros.

A tragédia...

A tragédia hoje no estado de Minas Gerais é marcada por um estarrecedor número de mais de 30 mil mortes e 1 milhão de infectados por covid-19, um atraso colossal em vacinação para os trabalhadores combinado a uma “segunda onda” de fila VIP, aberturas de atividades não essenciais sem (igualmente a quando foram fechadas) garantia de testagem massiva, ampliação de leitos, mais contratações... até a ter corte de salário de trabalhadoras da saúde, que não contaram com máscaras e licenças remuneradas para o grupo risco, se chegou a situação.

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Esse caos conta com gotas de adrenalina, de um governador que, não contente em ser talvez o mais bolsonarista dentre os chefes de executivos estaduais – ou justamente por isso – aprofunda seu isolamento na Assembleia Legislativa, ameaçando os seus próprios planos de cumprir todo o prometido ao seu amo Jair Bolsonaro. Amanhã voltam a acontecer reuniões de comissões na ALEMG para dar andamento a projetos, dentre os quais estão o acordo com a Vale pelos crimes humanitários e ambientais cometidos a proposta da entrada do estado no Regime de Recuperação Fiscal, editado ontem pelo presidente da república.

No fim das contas, Zema precisa pagar a Bolsonaro - que, por sua vez, precisa pagar a dívida pública ilegal, ilegítima e fraudulenta - assim como a elite colonial precisava pagar a Coroa Portuguesa. Para isso, tal qual legisla a recém-aprovada chantagem da PEC Emergencial, o estado com a maior crise fiscal do país deveria ser o primeiro a congelar os salários do funcionalismo público. No entanto, o governo Zema, já “mais pra lá do que pra cá” de seu mandato, sequer avançou em tantas promessas neoliberais que fez, como avançar nas privatizações da Cemig e da Copasa. Sabe que tem que se enfrentar com uma classe trabalhadora que, apesar de controlada por fortes burocracias sindicais, é vanguarda do enfrentamento aos ataques no país.

Acontece que tanto a história dos trabalhadores como na história dos patrões no Brasil e, particularmente em Minas Gerais, se cruzam pela escravidão. Isso significa que, como disse Letícia Parks no curso Mulheres Negras e o Marxismo “os músculos da nossa classe começam nesse exercício da luta pela liberdade e se encontram em momentos chaves na nossa história, em lutas que congregam escravizados e livres, e hoje ganham o contorno da luta proletária contra a escravidão moderna do trabalho livre”.

...e a farsa

Em 1789, enquanto na França acontecia a revolução francesa, ou seja, a tomada do poder político pela burguesia, que acabava com o feudalismo, toda a nobreza medieval se preocupava não só com esse movimento, mas com as revoltas de negras e negros escravizados nas suas colônias. Portugal impunha taxas maiores para a elite colonial no Brasil, que fez um “movimento separatista”, pela “independência” de MG com relação à metrópole portuguesa, a saber: a Inconfidência Mineira. Enquanto isso, os negros em faziam seus quilombos e forjavam laços com as populações locais, com uma “economia clandestina” para se manterem sem laços com os senhores de escravos.

Essa elite, porém, não conseguia ter uma saída revolucionária das mãos da espoliação imperialista e se livrar desse julgo, porque sempre tiveram que abrir mão da sua própria autonomia econômica para se apoiar no dinheiro e nas armas do imperialismo, e assim reprimir as incendiárias massas negras. Para se desenvolver enquanto uma burguesia mais forte como a dos EUA, a elite colonial brasileira teria que fazer como sua classe fez naquele país: armar as massas populares e trazer essas massas como aliados da luta pela independência nacional.

Para sermos justos: os antepassados de burgueses como Romeu Zema tiveram a coragem de se atreverem a isso, no entanto, esqueceram de calcular que, em muito maior quantidade do que nos EUA, aqui as massas populares eram repletas de escravos insurretos, embebidos em ódio dos seus senhores. Armaram os escravos para se libertar da metrópole, perderam o controle e, covardemente, se voltaram violentamente contra a própria base social que eles mobilizaram.

Entre ser eternamente subordinados aos mandos e desmandas da sua própria classe e arriscar perder as cabeças nas mãos dos negros e negras revoltos, conspiracionistas, e estrategistas, os inconfidentes escolheram ser eternamente lambe-botas. Bolsonaro lambeu as de Trump e Zema as de Bolsonaro. Tragédia ou farsa?

Luta negra e operária

A bandeira de MG, que diz “liberdade ainda que tardia” é uma farsa, pois não houve liberdade. O fim da escravidão, que tardou mais cem anos para acontecer, não foi nenhum presente da burguesia mais covarde da América Latina, e que ainda hoje se mostra absolutamente subordinada ao imperialismo.

O fim da escravidão não significou o fim do racismo. Do contrário, o complexificou para cumprir o papel de justificar uma maior exploração dos trabalhadores negros, o rebaixamento dos salários dos trabalhadores brancos, a divisão política e ideológica da classe dos explorados, etc. Mas, ao mesmo tempo, significou a promoção das massas negras ao posto de primeira linha da classe revolucionária da nossa época. O fim da escravidão incrementou à classe trabalhadora a tradição da luta heroica por liberdade que se expressou na Inconfidência Mineira - por parte única e exclusivamente dos setores explorados e oprimidos.

O dia da Inconfidência não pode servir aos trabalhadores e oprimidos mineiros senão para contar a verdadeira história, que é a daqueles que não deram à elite o gosto do controle. Em tempos de pandemia e governo Bolsonaro, lembremos: não nos aliamos a um algoz para combater o outro: combatemos aos governadores, ao Congresso, ao STF, à polícia e a todos os golpistas como parte da luta contra Bolsonaro e por justiça por todos os mortos da covid, do racismo e da superexploração.

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