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I shall not be moved: uma canção que atravessou séculos e continentes

Thiago Flamé

Joan Baez em funeral de um trabalhador agricola iemenita, durante a greve dos trabalhadores de vinícolas em 1973, em que dois grevistas foram assassinados nos piquetes

I shall not be moved: uma canção que atravessou séculos e continentes

Thiago Flamé

IMAGEM: Joan Baez em funeral de um trabalhador agricola iemenita, durante a greve dos trabalhadores de vinícolas em 1973, em que dois grevistas foram assassinados nos piquetes.

sube a nascer conmigo hermano
dame la mano desde la profunda zona de tu dolor disseminado
no volverás del fondo de las rocas
no volverás del tiempo subterráneo
no volverá tu voz endurecida
no volverán tus ojos taladrados
yo vengo a hablar por vuestra boca muerta
atraves de la tierra junta a todos los silenciosos labios derramados
y desde el fondo habladme toda esta larga noche
como si yo estuviera com vosotros anclado
contadme todo, cadena a cadena, eslabón a eslabón, y paso a paso
afila los cuchilos que guardaste
ponedlos em mi pecho y em mi mano
como un río de rayos amarillos
como un río de tigres enterrados
y dejadme llhorar, horas, días, años, edades ciegas, siglos estelares
dadme el silencio, el agua, la esperanza
dadme la lucha, el hierro, los volcanes
apegadme a los cuerpos como imanes
acudid a mis venas y a mi boca
hablad por mis palabras y mi sangre

A música, cantada pela primeira vez no início do século XIX pelos escravos no sul dos EUA atravessou décadas, acompanhou os combatentes na guerra civil e se tornou um canto comum nas igrejas negras do Sul dos EUA depois da abolição. Foi adotada pelo movimento operário, ganhou uma versão em castelhano, atravessou o continente para combater Franco no Estado Espanhol, até ser adotada no Chile pelo movimento operário e popular, e se tornar uma das músicas emblemáticas da luta contra a direita golpista.

Apesar de que Joan Baez, a "rainha" do folk norte americano, quem popularizou a versão mais conhecida da música em espanhol, misturada com a melodia de No Pasarán, esteve no Brasil durante a ditadura e sendo inclusive impedida de tocar na PUC/SP, a música e a artista são pouco conhecidas atualmente no Brasil. E foi por acaso, em meio a outras buscas, que tropecei com essa música.

Junto com a ascensão dos senhores do gado e da soja, o sertanejo e suas variações se transformaram, junto com o funk, nos ritmos mais populares no Brasil de Bolsonaro. A burguesia brasileira não produziu nunca nada de progressista para a cultura e como em todo o resto, os grandes estilos musicais difundidos pela sua indústria também tem suas raízes nas expressões culturais e de luta e organização das massas populares. É bem conhecida a origem do funk nas favelas cariocas, o caldeirão de influências diversas da música negra que lhe deu origem até ser incorporado pela indústria cultural na escala em que é hoje. Mas quais seriam as raízes populares profundas da música sertaneja?

Vagando por esse tema, que poderia ser objeto de uma série de artigos como esse, e indo cada vez mais ao passado, vemos a influência dos instrumentos musicais que vieram da península Ibérica, em especial o violão, ou a guitarra, espanhola e portuguesa. Sua fusão com as formas de música originarias e seus instrumentos de sopro. As marcas da cultura muçulmana rastreáveis desde as influências na cultura ibérica, até as ondas de escravidão de africanos muçulmanos como os Malês e de migrações localizadas desde os primeiros tempos da colonização das Américas. Todas essas correntes culturais, que em geral estão na base de toda a música brasileira, também estão da origem da chamada música sertaneja raiz, que se cruza particularmente com estilos musicais paraguaios e de outros países da América do Sul, tendo troncos em comum com a música folclórica latino-americana que depois foi reelaborada pelas gerações da década de 60 e 70, mais ou menos como a bossa nova e a tropicália fizeram com o samba, o maracatu e outros ritmos brasileiros. As formas de sertanejo mais disseminadas hoje em dia, muitas vezes criadas nos laboratórios da indústria cultural por uma elite formada nas melhores universidades de música, misturadas a influências da música country do EUA e da música pop em geral, também carregam ainda algo aquela origem.

Bem, mas como I shalt not be moved e Joan Baez se ligam a isso? Será que o country e o folk estadunidenses só se cruzam com o sertanejo brasileiro e o folclore latino-americano na criação de produtos culturais por parte da indústria? Seria um absurdo tal ideia. Aí que aparece Joan Baez, intitulada na época como a rainha do folk, que já era uma estrela quando iniciou seu relacionamento com Bob Dylan e ajudou a promover a carreira do jovem promissor. No seu álbum de 1964, estão duas composições brasileiras. Uma versão das Bachianas de Villa Lobos, e uma versão da música O´Cangaceiro (Mulher Rendeira), cuja autoria é apontada por pesquisadores como sendo do próprio Lampião, mas registrada pelo compositor paraibano Zé do Norte. Compositor que é o autor, entre outras, da música Sodade, Meu Bem, Sodade, que se tornou conhecida internacionalmente na interpretação de Vanja Orico, no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, em que canta também uma versão de Mulher Rendeira. Por aí já vemos que os sertões das Américas se ligam, não só pela dominação comum pelos senhores do norte, mas também através dos seus povos, da sua história de luta e resistência e através também da sua cultura.

A origem do folk e do country é bem parecida com a origem da música sertaneja brasileira, talvez retirando o elemento cultural dos povos originários do sul e acrescentando os componentes culturais da imigração irlandesa e escocesa, ausente por aqui e uma marca da música mariachi mexicana. Uma das primeiras gravações da música que afinal queremos contar a história, I shall not be moved, foi feita por Charley Patton, um dos primeiros a gravar blues no Mississippi, em 1929.

Mais de cem anos antes de ter sua primeira gravação, I shall not be moved era uma canção inspirada da bíblia entoada pelos escravos africanos no sul dos EUA, em grandes missas coletivas onde os escravos participavam. O chamado "call and response" (Run Mourner, Run, um exemplo de call and response) utilizado nos cantos de escravos, uma tradição trazida da África, onde o orador puxa a canção e é repetido por um coro, influência que deixou sua marca em diverso estilos musicais nos EUA. Como todas as canções da época, passou pelo caldeirão da guerra civil, que colocou em contato direto populações até então bastante segmentadas. Os ritmos norte americanos são em grande medida tributários dessas fusões e misturas que ocorreram nos acampamentos entre uma batalha e outra da guerra civil, e que acabavam atravessando os dois lados das trincheiras. Os escravos que fugiam em massa para as fileiras da União levavam consigo suas canções e seus ritmos cultivados em décadas de resistência e ali entraram em contato com todas as matizes culturais diversas da imigração europeia ao norte e ao sul dos EUA. Os artistas que se consagraram na década de 20 e 30, como os "pais" do blues, do folk, do country, em grande medida viajaram por diferentes motivos de uma região a outra dos EUA, recolhendo a reelaborando as canções e melodias que foram passando de geração em geração após a abolição e o fim da guerra civil.

I shall not be moved permaneceu por décadas sendo cantada nas igrejas evangélicas do sul dos EUA, um importante espaço de resistência e aglutinação do povo negro que continuou sofrendo uma opressão racista profunda e sendo vítimas das leis de segregação. No início do século XX e especialmente a partir da década de 30, a música se tornou um hino do movimento operário, sendo inclusive ensinada e cantada nas escolas mantidas pelas organizações operárias da época. Ganhou um novo título e nova letra nesse processo. De I shall not be moved – não me moverão, passou a ser cantada nas assembleias, manifestações e piquetes como We shall not be moved – não nos moverão, para ressaltar o caráter coletivo da luta, perdendo talvez de vista que esse "eu" cantado pelos escravos no sul dos EUA é muito mais um sujeito coletivo do que individual, representando a força e a esperança de cada um e de todos.

Na década de trinta os EUA passou por um poderoso ascenso de greves e We Shall not be moved virou pela primeira vez No nos moveran, na greve dos operários agrícolas das nozes, no Texas, que eram mexicanos. Emma Tenayuca, ativista e líder sindical do movimento de trabalhadores agrícolas cantou a música durante sua prisão e uma das lideres do United Farm Workers, Dolores Huerta, lembra ter cantado essa música todos os dias ao longo de cinco anos de luta. We shall not be moved seguiu seu caminho sendo retomada várias vezes por artistas do blues e do folk, como Peter Seeger, Mavis Staples e outros. No nos moveran foi retomada na década de 60, no contexto da luta pelos direitos civis e da retomada da mobilização dos trabalhadores agrícolas mexicanos no sul dos EUA. Foi o grupo Teatro Campesino que ajudou a popularizar uma versão de No nos moveran como um dos hinos do movimento pelos direitos civis mexicanos. Joan Baez, que gravou uma das versões mais conhecidas da música, a qual acrescentou na introdução um poema de Pablo Neruda, era também aliada do STW e do movimento dos trabalhadores agrícolas e também cantou essa música inúmeras vezes em reuniões ao lado dos trabalhadores do STW.

No livro em que nos baseamos (La épica historia de "No nos moverán": de canto de esclavos al primer no al golpe de 1973, por Emilio Contreras), o autor não encontrou nenhuma evidência para confirmar a versão de que No nos moveran teria atravessado o Atlântico junto com a brigada Abraham Lincoln e se integrado às brigadas internacionais na Revolução Espanhola. Se não comprovada, é ao menos plausível a ideia de que algum integrante das brigadas pudesse ter entoado a versão em castelhano da tradicional We shall not be moved para confraternizar com os camaradas no front e que No nos moveran tenha se integrado ao amplo repertório de canções revolucionarias da Espanha operária e camponesa. O que se sabe ao certo é que I shall not be moved foi gravada pela primeira vez na Europa por Lonnie Donegan em 1956, mesmo ano em que ela foi gravada nos EUA pelo Million Dollar Quartet, de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Johnny Cash. E mais tarde We shall not be moved se associou ao movimento de resistência a Franco no Estado Espanhol, na tradução ao catalão, No serem moguts, feita por Xesco Boix.

No Chile a canção foi introduzida pelo conjunto Tiempo Nuevo, gravada em 1970, e também gravada pelo conjunto Quilapayún, se tornando uma música emblemática do enfrentamento a direita golpista e a Pinochet. Segundo relato do antigo diretor da Oficina de Informaciones y Radiodifusión de la Presidencia de la República e e fundador de La Peña e do programa de radio Chile Ríe y Canta, René Largo Farías:

"Já haviam sido bombardeadas as plantas transmissoras das rádios do governo e silenciadas suas vozes em uma operação criminosa sem precedentes na história do continente americano. Somente se mantém no ar a Radio Magalhães. Escuto Guillermo Ravest, diretor da emissora, chamando o povo a se defender. Se escuta a canção “No nos moverán”, que se interrompe bruscamente. Os Hawker Hunters (aviões de bombardeio britânicos) começãm a assobiar sobre o céu de Santiago."

Esse chamado de última hora feito emotivamente pela emissora de rádio não seria suficiente depois do governo Allende boicotar de todas as formas os esforços dos cordões industriais e do movimento popular de se armar e se dotar de meios efetivos de resistência. A letra da canção que havia se constituída em mote, que dizia que não vão nos mover nem com um golpe de estado, não pode ser cumprida.

Nas suas lutas e nas suas manifestações culturais, que andam juntas, a classe trabalhadora não tem fronteiras e a arte é uma poderosa ferramenta para forjar solidariedade entre os povos das Américas que faz tremer o imperialismo e todos os exploradores.

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