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Fora ianque! | Henry Kissinger na UnB: 40 anos de um motim anti-imperialista

Na época as universidades brasileiras ainda viviam sob censura acadêmica e vigilância por parte da ditadura militar. O ex-secretário de estado dos EUA Henry Kissinger chegou na UnB para ministrar uma palestra e acabou expulso por uma fenomenal ação do movimento estudantil. O fato completa 40 anos em novembro de 2021.

sexta-feira 19 de novembro | Edição do dia

J.Cardoso/CPDocJB: Imagem extraída do portal: http://memorialdademocracia.com.br/

Henry kissinger detido
pelo movimento estudantil
com vaias, ovos, protesto
no coração do Brasil
Saiu em camburão
Foi um ato varonil
O protesto repercutiu,
deu no jornal nacional
Televisões estrangeiras,
manchete em telejornal
Os ovos da desobediência na capital federal.
(Transcrição de um cordel declamado pelo poeta Gustavo Dourado)

Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília, 18 de novembro de 1981. O reitor/coronel Azevedo convocou uma palestra ministrada por um dos homens mais poderosos e torpes do cenário geopolítico mundial nas décadas anteriores. Trata-se do ex-Secretário de Estado e conselheiro de segurança dos Estados Unidos Henry Kissinger (curiosamente ainda vivo aos 98 anos). Ele foi mentor de todos os presidentes americanos no período de Eisenhower a Gerald Ford e articulou a crise política internacional durante a segunda metade da guerra do Vietnã (1955-1975).

Em 1981, o calendário marcava o primeiro ano de uma nova década, mas sem perspectiva de futuro no Brasil. Ainda éramos regidos por um golpe político típico do capitalismo periférico e suas “repúblicas de bananas”, que, quando diante da luta de classes e exigências populares, sempre recorrem aos milicos para salvar o sistema. Em 1964, um conluio da elite empresarial com respaldo da imprensa e patrocínio dos EUA deu passagem à corja militar para o poder executivo. Na América Latina, quase todos os países sofreram intervenções parecidas, até mais de uma vez.

Henry Kissinger, em seu tempo, articulou parte desses ataques contra a AL (incluindo Brasil, Chile, Argentina, Uruguai) por meio do Plano Condor, reforçou o avanço do genocídio de Israel contra a palestina e, segundo o jornalista Christopher Hitchens no livro O Julgamento de Kissinger, é diretamente responsável por operações militares com massacres e assassinatos políticos na Indochina, Bangladesh, Chipre e Timor-Leste[1]. Quando a guerra do Vietnã se revelou um fracasso do imperialismo estadunidense, ele planejou as negociações de rendição, o que lhe rendeu um infame prêmio Nobel da Paz[2].


Imagens extraídas do documentário Kiss Kiss Kissinger (1981/2007), dirigido por Jimi Figueiredo

Sua missão no Brasil em 1981 era de reforçar a zona de influência e mercado cativo estadunidense. O evento estava marcado no auditório Dois Candangos, próximo à atual Faculdade de Educação. O conteúdo era de interesse exclusivo do aparelho de estado; fechado para estudantes, pesquisadores e professores comuns. Estavam presentes apenas a alta classe diplomática e burocrática com seus veículos de mídia, e todos previamente protegidos por um batalhão de polícia do exército. Maria do Rosário Caetano[3], estudante do curso de letras em 1981, afirmou que “nós não éramos convidados, os estudantes não foram convidados. Aquela palestra era para embaixadores políticos e autoridades ligadas ao governo militar”.

Além do discurso imperialista, o evento era montado por custos exorbitantes, com suspeita de superfaturamento. Circulou nos corredores do ICC a informação de que uma alta quantia de dinheiro público foi pago para trazer o filhote de Tio Sam para a universidade. Segundo Verônica Carriço[3], estudante de Comunicação na época, “uma coisa que pesou não foi só o fato de o Kissinger ser quem ele é. O problema também foi que se gastou uma grana preta, acho que um milhão e 700 mil, para trazer o Kissinger à UnB enquanto lá estava faltando recursos e equipamentos, faltava professor… a desculpa era sempre que não tinha dinheiro pra fazer as coisas. Então os estudantes ficaram muito putos nessa história e com razão”.


Imagens extraídas do documentário Kiss Kiss Kissinger (1981/2007), dirigido por Jimi Figueiredo

Esses gatilhos foram suficientes para que o DCE (já nomeado de Honestino Guimarães em memória do líder estudantil torturado e assassinado pela ditadura em 1973) convocasse uma assembleia de urgência para se posicionar diante dos fatos. Em seguida marcharam para o auditório onde Kissinger se pronunciava, ergueram faixas e cartazes com protestos escritos em inglês e português, gritaram palavras de ordem anti-imperialista e, por meio de ação direta, começaram a fazer pressão pela saída do diplomata. O relatório da Comissão Nacional da Verdade na UnB[4] assim descreveu o ocorrido:

“Ali, os estudantes depararam-se com muitos profissionais da imprensa nacional e internacional, além de 4 ou 5 caminhões do Exército e numerosos agentes da Polícia Federal, tendo chegado, logo depois, reforços da Polícia Militar (Patrulha Tático-Móvel/PATAMO e Polícia de Choque). A grande discussão entre os estudantes era se invadiriam ou não o auditório, e realizaram 4 ou 5 votações para conter os ânimos exaltados (entre os manifestantes, contavam-se vários jovens de militância recente e outros tantos “antigos”, remanescentes das jornadas de 68 e 77). A maioria dos presentes mostrava-se inclinada a invadir — o que desencadearia uma repressão extremamente violenta. Por estreita margem de votos, ainda de acordo com o mencionado depoimento à CATMV[5], prevaleceu a posição contrária à invasão, defendida surpreendentemente pelo militante “Dentinho”, da tendência tida como das mais radicais, Libelu (Liberdade e Luta)[6].”

“Na mercearia próxima ao prédio do SPP, bem como num dos mercados da Sociedade de Abastecimento de Brasília (SAB) nas redondezas do campus, estudantes haviam comprado muitos ovos e tomates. Do lado de fora do auditório, gritos em coro, vaias e uma ensurdecedora batucada tumultuaram o evento, constrangendo os presentes, entre os quais muitas autoridades governamentais e embaixadores de várias nações, que começaram a deixar o local. Logo, os manifestantes passaram a gastar sua munição de protesto e uma chuva de ovos e tomates atingiu, entre outros, o Ministro-Chefe da Casa Civil, Leitão de Abreu”.


Imagens extraídas do documentário Kiss Kiss Kissinger (1981/2007), dirigido por Jimi Figueiredo

Os manifestantes também atearam fogo a uma bandeira dos Estado Unidos e apresentaram cartazes de repúdio à guerra do Vietnã. Henry Kissinger estava acompanhado da aristocracia que incluía os beletristas e sacerdotes do conservadorismo brasileiro José Guilherme Merquior e Roberto Campos (avô de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central no governo Bolsonaro). Em seu livro de memórias A Lanterna na Popa, Campos descreve o lado de dentro do auditório, e chega a níveis patéticos sobre o que faz o capacho brasileiro como bobo da corte diante de um chefão estadunidense:

“A conferência iniciou-se sob grande tensão. Kissinger iniciou a palestra com um toque de humor “Estou — disse ele — acostumado a manifestações de estudantes de Harvard, mas parece que os estudantes brasileiros têm mais ritmo. […] Permaneci com Kissinger em uma sala contígua ao auditório em companhia com José Guilherme Merquior e alguns outros funcionários. Enquanto Merquior procurava entabular uma discussão histórico-filosófica, me preocupei em distrair Kissinger, relatando-lhe minha perícia em coisas da espécie [...] Para aliviar o ambiente, desfiei a Kissinger minha nutrida coleção de anedotas e limericks londrinos.”


Imagens extraídas do documentário Kiss Kiss Kissinger (1981/2007), dirigido por Jimi Figueiredo

No fim das contas, Kissinger foi escoltado pelos militares até a uma viatura, já que os carros oficiais tiveram os pneus furados por manifestantes, e transportado dali imediatamente. Ainda segundo a Comissão da Verdade na UnB, “O próprio homenageado, Kissinger, conseguiu sair sem ser alvejado graças ao camburão da PM que entrou de ré até a porta do auditório para resgatá-lo, o que deu margem ao coro de ‘Kissinger é ladrão, vai sair de camburão!’. Com essa saída, e tendo a imprensa internacional deixado o local, a repressão policial ficou à vontade para fazer o que era treinada para fazer”.

Vietnã: Um milhão de mortos vítimas do imperialismo norte americano. Repudiamos a vinda de um dos assassinos responsáveis por este ato. FORA HENRY KISSINGER!!! Imagens extraídas do endereço: https://atom.unb.br/index.php/visita-de-henry-kissinger-unb

Os motivos que detonaram a revolta estudantil naquele dia estavam acumulados com o nível de perseguição do estado militar contra os estudantes civis. Dois aspectos foram marcantes nesse período: “O primeiro deles refere-se à discussão sobre o Jubilamento como mecanismo de perseguição e controle sobre o movimento estudantil. O segundo versa sobre o sério incômodo manifestado pelos agentes de segurança do regime quando eles próprios passaram a ser objeto de vigilância e identificação pelos estudantes" (idem).

O resultado do caso Kissinger, segundo apuração do jornal Metrópoles:
Entre os envolvidos, estavam o então presidente do DCE, Zeke Beze Junior, e o vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Themis de Oliveira. Os dois assumiram à polícia que realizaram uma assembleia no dia do incidente. Entretanto, assim como os outros 24 citados, negaram ter jogado ovos ou tomate durante a manifestação. Mesmo assim, o delegado à frente do caso, Francisco Feitosa Dias, concluiu o inquérito sugerindo que os investigados fossem processados pelo crime de “exercer violência, por motivo de facciosismo ou inconformismo politico-social contra estrangeiro que se encontre no Brasil, a serviço de seu país, em missão de estudo ou a convite do governo brasileiro”. O relatório da Secretaria de Segurança, produzido em abril de 1982, termina com o pedido de habeas corpus para os estudantes, impetrado pela advogada Herilda Baduino de Sousa. Segunda ela, não haveria motivo para a prisão dos indiciados, uma vez que os estudantes haviam informado dados como endereço e identidade, além de comprovarem matrícula na universidade.


Cartazes de protesto sobre o chão ("Fora mercenário do imperialismo!"; "Que país é este?"; "Fora Kissinger!"), Imagens extraídas do endereço: https://atom.unb.br/index.php/visita-de-henry-kissinger-unb

O ambiente universitário era inflamável para se construir um polos de segundo poder contra as autoridades vigentes, como relata o cordelista Gustavo Dourado:

Marx era obrigatório:
Dialética, leninismo…
Começo da Ecologia:
Livros sobre trotskismo…
Movimento Estudantil:
Comuna e Anarquismo.

Esses versos podem parecer fantasiosos, mas no começo da década de 80 o país estava cada vez mais tomado pelas greves do ABC (1978 - 1980) em São Paulo e o movimento estudantil nas universidades se contagiavam com isso. O projeto econômico dos militares se revelou um fracasso com consequente endividamento do estado com o capital estrangeiro. Enquanto o regime se desgastava, surgiam rumores de início da abertura política que deveria ser processada de forma “lenta, gradual e segura”, o que se confirmaria com a transição pactuada em que os militares se preservaram por meio da anistia e exerceram sua tutela no processo.

A UnB entrava nesse contexto também com reivindicações e greves. Infelizmente, a repressão militar e as limitações de reconstruir o DCE impediram um programa coordenado de autonomia operária de independência de classe, que envolvesse os interessados dos três setores (alunos, professores e funcionários) para articular objetivos em comum da classe trabalhadora[7] com elementos de transição socialista e derrubada imediata da cúpula militar.

Mesmo assim, o motim acionado contra Henry Kissinger serviu para moralizar a atividade dos estudantes organizados. O reforço que esse caso legou para o movimento foi confirmado no relatório da comissão da verdade:

“A manifestação contra Kissinger, da forma como ocorreu, pareceu ter estimulado o movimento estudantil a preservar um mínimo de unidade interna face às disputas políticas entre as tendências e, superando momentos de desmobilização, retomar a prática das grandes manifestações. Os anos seguintes, de 1982 a 1985, confirmaram, no geral, essa impressão, assistindo a movimentos de massa no campus e fora dele, até a derrocada final da ditadura e, no cenário doméstico, a saída do reitor Azevedo e a adoção da eleição direta para reitor.”

Maria do Rosário Caetano[3] também concorda que a iniciativa teve resultado: “os estudantes não eram bobos. Eles sabiam que havendo aqui homem com prestígio internacional do Kissinger, aquilo daria na mídia nacional. E deu… a mídia comentou e saiu nas grandes revistas. Os estudantes conseguiram dar ressonância, a UnB teve um papel importantíssimo na redemocratização do país, mesmo tendo sido a universidade que, talvez, mais sofreu com o governo militar já que estava no quintal Palácio do Planalto e Palácio da Alvorada. Então isso tudo, tem gente que julga como baderneiros. Baderneiros, não! Eram jovens sonhadores que queriam lutar contra a ditadura que já durava 20 anos”.

Nas palavras de Rênio Quintas[3], estudante de música em 1981, “foi uma coisa maravilhosa, um momento glorioso. Eu me senti na queda da bastilha... [risos] Um representante do imperialismo ianque sendo resgatado por um comando tático brasileiro para sobreviver ao ataque do glorioso movimento estudantil da UnB [risos]”.

1 -Lista de crimes citados no livro O Julgamento de Kissinger escritor Christopher Hitchens:
– Genocídio deliberado de civis na Indochina;
– Conluio deliberado no genocídio e em posteriores assassinatos em Bangladesh;
– Suborno e planejamento de assassinato de um oficial graduado numa nação democrática (o Chile) com a qual os Estados Unidos não estavam em guerra;
– Envolvimento pessoal para assassinar o chefe de Estado numa nação democrática – Chipre;
– Promoção e facilitação de genocídio no Timor Leste;
– envolvimento pessoal em um plano para seqüestrar e assassinar um jornalista residente em Washington.

2- A falta de escrúpulos dele para garantir a supremacia geopolítica dos EUA também o colocou como ícone da cultura pop, serviu de inspiração ao filme Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, dirigido por Stanley Kubrick em 1964) e teve participação em Os Simpsons

3 - Transcrição de depoimento dado para o documentário Kiss Kiss Kissinger (1981/2007), dirigido por Jimi Figueiredo.

4 - Para ler o relatório completo acesse:
https://www.comissaoverdade.unb.br/images/docs/Relatorio_Comissao_da_Verdade.pdf

5 - Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da Universidade de Brasília (CATMV-UnB)

6 - Para saber mais sobre a antiga organização trotskista LibeLu, seguem os artigos:
Libelu, a juventude trotskista contra a ditadura e as lições para o Brasil de Bolsonaro
http://www.esquerdadiario.com.br/Libelu-a-juventude-trotskista-contra-a-ditadura-e-as-licoes-para-o-Brasil-de-Bolsonaro

Libelu, uma história que vale a pena ser conhecida

7 - Recomendação de leitura sobre o tema
http://www.esquerdadiario.com.br/Uma-juventude-subversiva-e-uma-juventude-trotskista




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