Opinião

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Hegemonia em disputa: a classe trabalhadora precisa entrar no jogo!

Luiz Pustiglione

Doutorando em educação pela UFSC e professor da Rede estadual de SC

segunda-feira 20 de abril| Edição do dia

A disputa pela hegemonia na sociedade é permanente, não há tempos específicos para fazê-la acontecer, ainda que momentos como o atual possam agudizar determinadas situações e relações de força.

Mas, por que começar um texto com uma conclusão tão óbvia? Vejamos alguns cenários possíveis, segundo algumas das análises que podemos verificar em textos, redes sociais, lives etc.

Cenário do “autogolpe”: há uma caracterização acerca do governo e, principalmente, do presidente eleito, de que o principal projeto político em vistas seria um golpe que não substituiria o governo, mas fecharia ou limitaria sobremaneira as instituições que são pilares do atual regime democrático burguês, como STF e todo poder judiciário, Congresso nacional, os poderes estaduais etc. Seria, na prática, o cancelamento definitivo do pacto estabelecido pela burguesia em 1988 quando da promulgação da Constituição Federal.

Dadas todas as declarações e o comportamento de determinados setores do governo, incluído o próprio presidente, esse não seria um cenário surpreendente. Como vamos ver mais adiante esse cenário ficou extremamente mais complicado depois das posturas negacionistas sobre o novo coronavírus e que poderão, no futuro – que pode não ser tão distante assim -, cobrar um preço político caro no caso de os números de mortos e infectados da pandemia dispararem. Outro elemento central aqui seria executar tais manobras antes do pico de mortes no país.

Cenário da deposição do governo: É sabido e ponto pacífico entre aqueles que se firmam nos argumentos e elementos científicos que em algum momento o caos vai se instalar em hospitais e, principalmente, necrotérios e cemitérios país afora por conta da nova doença e da incapacidade do Estado em lidar com os números quando viram realidade. Diante de uma situação como essa uma revolta contra o atual governo, em especial considerado o negacionismo, já citado, poderia movimentar a caserna no sentido de uma deposição para nada mudar.

Em outras palavras, as forças armadas assumiriam o governo sob o argumento da incapacidade de Bolsonaro lidar com a realidade e com Mourão à frente, podendo implicar ou não em maior fechamento do regime por conta da situação sanitária que estaria instalada.

Cenário que já pode ser o atual ou estar em processamento: Dado o comportamento irresponsável por parte da presidência da república e sem apoio popular para qualquer um dos cenários descritos acima, em meio a um caos provocado pelo vírus, as forças armadas manteriam o presidente na cadeira para evitar um trauma de maiores proporções, mas efetivamente assumiriam o comando do país, mantendo as instituições “funcionando” sob sua total tutela e ordens, que podem tanto ser obedecidas mais consensualmente ou mais coercitivamente, a depender do desenrolar da situação. Chegaram a circular em sites ligados aos militares que o General Braga Neto já seria o “presidente operacional” do Brasil e, mais recentemente, a Deputada Fernanda Melchiona (PSOL-RS) publicou um vídeo no qual o vice-presidente ao ser questionado sob a situação respondeu: “tudo sob controle, só não se sabe de quem...”

Como que pairando “acima” destes cenários apontados e utilizando-se de uma retórica de unidade nacional, está a política da direita tradicional levada à cabo pelos governadores e setores do parlamento, em especial pelo DEM de Rodrigo Maia e do mais recente presidenciável desse setor, o ex-ministro Mandetta. Clama-se à responsabilidade e pactuação com setores que estão convocando e realizando atos pelo fechamento do congresso, do STF e exigindo intervenção militar. Chega-se ao cúmulo de várias notas oficiais afirmarem que as “instituições estão funcionando”, coisa que não é verdade nem mesmo para continuarem servindo de salvaguarda da democracia burguesa a contento, como pode-se ver desde que Bolsonaro declarou voto pelo impeachment homenageando um torturador e pôde não só seguir sua vida política livremente como chegar ao posto mais alto da república.

Diante desses cenários postos, há alguns elementos que nos chamam mais a atenção, mas dois deles são centrais para nossas ações e reflexões. O principal deles é a total ausência da classe trabalhadora organizada como protagonista de qualquer das situações postas no cenários acima e o peso efetivo que o exército passou ou voltou a ter na política nacional “tradicional”.

Centralmente, o que interessa à classe trabalhadora, é ter uma alternativa que não seja apenas a de optar por um ou outro projeto hegemônico da burguesia representados nas duas principais posições sobre a atual pandemia. De um lado estão presentes as frações da classe dominante que defendem uma reabertura econômica quase total e um verdadeiro darwinismo social, enquanto de outro está o setor que, supostamente, segue as determinações da OMS e orientações científicas, mas que na prática também não está tão resistente a expor os trabalhadores ao risco de contaminação sempre que for necessário, afinal, aprovou um auxílio de míseros seiscentos reais enquanto envia bilhões para os banqueiros. Nossa classe precisa então construir um programa que dê saídas efetivamente globais à crise sanitária e à crise econômica e pretendemos, mais adiante, apontar algumas possibilidade que vão nesse sentido.

Voltando, então, à primeira reflexão desse texto, vivemos um momento no qual as relações de força e a situação política estão se movimentando em velocidade e intensidade acima da média. Processos que poderiam demorar meses ou anos, portanto, podem acabar acontecendo em poucos dias e a dificuldade em apresentar um projeto de outra hegemonia e construí-la a partir das organizações da classe trabalhadora em tempos de normalidade vai cobrar seu preço agora.

Nesse momento, no qual todas as pessoas procuram respostas para problemas da humanidade e estão relativa e parcialmente menos ligadas aos pequenos problemas da vida individual e cotidiana, o quanto não seria positivo que já conhecessem as nossas ideias sobre controle operário da produção, sobre a organização por local de trabalho e moradia para dar conta de tarefas postas pela realidade e construir alternativas coletivas?

A traição das direções reformistas e majoritárias na classe trabalhadora no passado nos trouxeram a uma quase incapacidade de dar as respostas à altura dos problemas que estão colocados. Quando olham pro PT, pra CUT, ou mesmo pros parlamentares do PSOL – guardadas todas as proporções históricas e presentes de cada uma dessas organizações -, a massa enxerga uma alternativa para uma outra hegemonia, uma outra sociedade? Ou enxerga uma administração “diferente” da mesma hegemonia burguesa vigente?

Apesar desses equívocos e traições do passado, a situação atual é de tal gravidade que podemos afirmar que há sim espaço para fazermos propaganda das nossas ideias e propostas para a sociedade. Afirmar as nossas posições sobre a necessidade de que os trabalhadores assumam a produção das fábricas nesse momento para que seja produzido somente o extremamente necessário para o combate à pandemia e para a vida. Sobre a necessidade dos trabalhadores controlarem o transporte público para organizarem racionalmente linhas e horários que possam dar conta dessa produção necessária e do transporte dos trabalhadores da saúde. Denunciar e mostrar número sobre o Estado máximo para a burguesia que recebe rios de dinheiro enquanto a nossa classe paira sob desconfiança de fraudes com o CPF para receber míseros R$600,00. Exigir que as universidades e outros polos de pesquisa e produção na área da saúde produzam testagem para toda a população e colocá-la sob controle dos trabalhadores da saúde, bem como estatizar todas as vagas hospitalares desse país sob controle do SUS e as fábricas que não possibilitarem a transformação de sua produção ou insistirem em colocar trabalhadores sob risco para trabalhar em nome do lucro. Devemos, portanto, ainda que sob controle do pessimismo da razão, fazer nossa parte em conversar com as pessoas nesse momento sobre o que realmente devemos conversar: a necessidade imperiosa de construir outra sociedade, uma sociedade sem classes.

Isso não significaria, necessariamente, que depois de amanhã estaríamos novamente aptos, enquanto classe trabalhadora organizada, a ser protagonista de uma mudança qualitativa de tal magnitude no país e no mundo, mas que estamos dispostos a assumir novamente uma disputa que é permanente e que mudou de patamar. É necessário encerrarmos determinadas relações e formas de fazer a disputa somente por uma hegemonia na classe e sermos mais ousados na disputa pela hegemonia da classe. É, portanto, hora de não só fazer discursos mais radicais, mas de assumir posturas na realidade que possam nos encaminhar de fato para aquilo que estamos apresentando como “programa” às pessoas que estão refletindo sobre os grandes problemas da humanidade. Nesse momento de pandemia e quarentena (que sabemos ser seletiva) isso deve partir exatamente de quem está na linha de frente, logo, dos trabalhadores da saúde, do transporte e da produção de itens essenciais como alimentos e remédios.

Outro debate relevante que se dá quando se discute a questão da hegemonia e das alternativas de poder é sobre a assembleia nacional constituinte. Nesse momento, no qual, como já dito antes, muita gente se envolve em debates de fundo sobre questões basilares da vida em sociedade, essa nos parece ser uma saída interessante para esse processo de construção de uma outra hegemonia dirigida pela classe trabalhadora, ainda que possa se dar sob marcos da democracia burguesa.

Portanto, colocar Bolsonaro, Mourão e todos os militares para fora do governo e enfrentar uma pandemia de proporções ainda desconhecida e já historicamente impactante demanda uma resposta à altura dos fatos e que favoreça uma maior expansão das ideias e programa que defendemos, o que não ocorrerá por uma simples troca de governo, ainda que sob uma nova eleição antecipada, por exemplo.

Apesar de ter esticado um dos elementos centrais depreendidos dos cenários postos que tem a ver com a nossa classe e as elaborações necessárias, o outro elemento também cumpre papel determinante até mesmo para que consigamos dar conta efetivamente de tudo isso: a onipresença das forças armadas na política nacional atual.

Por razões óbvias não temos como ter acesso a um nível de informações que nos levem a enxergar se há divisões e como estariam divididas as forças armadas (e cada uma das armas) sobre a atual situação política e sanitária, mas podemos extrair alguns indícios e já partimos de algum conhecimento acumulado sobre. Há também um outro elemento importante que se desdobra necessariamente nessa análise que é o papel das PM’s.

As forças armadas, nesse momento, não parecem estar totalmente alinhadas a nenhuma posição e há uma aparente divisão entre os setores da reserva e da ativa, sendo os primeiros mais tendentes a um possível fechamento autoritário do regime, seja pelo meio que for e os segundos mais inclinados a uma saída menos traumática – que mesmo que precise ser de ordem mais coercitiva do que consensual aparente uma manutenção do atual estado de coisas. Considerando que não há na sociedade um respaldo que seja suficiente para desenrolar um golpe clássico, mantendo ou não Bolsonaro à frente da presidência e que será/foi testado nesse domingo dia 19 de abril, a saída do segundo setor parece ser a mais prudente.

Mas o elemento das PM’s ainda pode ser o diferencial nisso tudo, do ponto de vista de a disputa tomar proporções mais elevadas entre as diferentes frações da burguesia e as distintas posições nas forças armadas. O motim no Ceará, ao qual vergonhosamente setores dito revolucionários prestaram solidariedade, as afirmações e ação cotidiana da PM de SP no sentido de que não pretendem reprimir quem desobedecer as restrições impostas pelo governo do Estado e uma série de outros fenômenos em torno dessa instituição em diferentes lugares, nos faz pensar sobre quem realmente controla tais corporações e de que lado elas ficaram no caso de uma disputa aberta como essa.

As peças estão no tabuleiro e o jogo está sendo jogado. Nossa classe claramente está em enorme desvantagem diante do atual cenário e devido ao passado mais ou menos recente de traição de suas organizações, mas não podemos ser considerados fora do jogo por um simples e objetivo motivo: somos nós que produzimos alimentos, remédios, EPI’s, equipamentos médicos, somos nós que cuidamos dos doentes nos hospitais e cuidamos do transporte de gente e de tudo que foi produzido e precisa se movimentar em meio à essa desgraça sanitária. Por que não seríamos nós a decidir como fazê-lo então?! À disputa, companheiros, ela nunca foi tão premente e necessária!




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