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COVID E CAPITALISMO

H&M, Zara e Primark: trabalhadoras protestam contra demissões anti-síndicais na Índia e Mianmar

Com a desculpa da COVID, centenas de trabalhadoras foram demitidas de duas fábricas que produzem para Zara e Primark em Mianmar, pouco depois de terem formado um sindicato. Em Bengalore, uma fábrica que produz para a H&M fechou e deixou as trabalhadoras sem salário.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

segunda-feira 29 de junho| Edição do dia

Rui Ning é uma grande fábrica têxtil em Mianmar, Birmânia, que produz para marcas como Inditex (Zara), Mango, Bestseller (Only), TallyWeijl e Balala. No começo de maio, a empresa demitiu 324 trabalhadores, dos quais, 298 eram filiados ao sindicato, incluindo seu presidente, KyawThuZaw.

“Vejo as demissões como um claro ataque ao sindicato, com o pretexto da pandemia. A fábrica demitiu a maioria dos membros do sindicato, inclusive eu”, disse KyawThuZaw em vídeo. “Deram a desculpa da dificuldade de transportar produtos para a Europa, mas na realidade não há nenhuma dificuldade já que a fábrica transportou um grande volume de produtos destinado a estes países para o dia 12 de maio”. O protesto das trabalhadoras viralizou esses dias nas redes sociais. O organizador sindical Andrew Tillet-Saks, escreveu no Twitter uma exigência direta a Amancio Ortega, dono do grupo Inditex (Zara): “Abusador, não campeão da crise”.

Uma situação semelhante se vive nas fábricas de Huabo Times e MyanMode, que produzem para Zara, Primark e Mango. Na primeira, a direção demitiu mais de 100 trabalhadores, três dias depois de informarem a filiação sindical. Entre os demitidos haviam 26 filiados, incluindo 4 dirigentes sindicais.

Em MyanMode, segundo informa a campanha “roupa limpa”: “em 28 de março, a fábrica demitiu 571 pessoas de um total de 1.270 trabalhadores, justificando os cortes em razão do corona vírus. Dessas demissões, 520 eram filiadas ao sindicato.

O sindicato MyanMode, é um dos mais fortes na indústria de confecção do país, com um histórico de greves por melhoria salarial e de condições de trabalho. Uma semana depois, outras 50 pessoas foram demitidas simplesmente por mostrar sua solidariedade aos demitidos”. O protesto organizado pelo sindicato conseguiu a reincorporação de 75 pessoas, incluindo os dirigentes sindicais, algo inédito nos últimos anos.

Os protestos das trabalhadoras têxteis nas fábricas que produzem para marcas internacionais estão se multiplicando na Índia. Com a desculpa do Covid, no começo de junho, em Bengalore, fecharam a fábrica Euro ClothingCompany–II – do grupo têxtil GokaldasExports, um dos maiores da Índia que produz para a H&M. Na fábrica trabalhavam mais de 1.300 trabalhadores, que ficaram sem salário pelo trabalho que realizaram. Desde então, durante as últimas três semanas protestaram na porta da fábrica.

“Vivemos de dinheiro emprestado”, disse uma das trabalhadoras, chamada Lakshmamma, em um dos vídeos que viralizou. “Não estamos conseguindo outro trabalho devido a pandemia do corona vírus. Temos que pedir dinheiro emprestado para pagar o aluguel e alimentar os nossos filhos”, acrescentou.

Desde que o governo da Índia impôs o confinamento massivo, desde 24 de março, milhões de trabalhadores permanecem sem emprego, muitos tiveram fazer a viagem a pé de volta para suas aldeias para morar com suas famílias. Quando começou a reabertura das fábricas, algumas empresas não garantiram transporte para os trabalhadores, os obrigando a caminhar longas distancias para chegar ao trabalho.

Amancio Ortega, dono do grupo Inditex, tem uma fortuna pessoal de 62 milhões de euros, está ente os 10 homens mais ricos do mundo. No Estado Espanhol, nestes meses de COVID, sua empresa Inditex decidiu não levar seus trabalhadores a um ERTE (pagamento pelo Estado) e manteve o pagamento dos salários durante todo o período de fechamento das lojas, por este motivo a impressa espanhola o encheu de elogios (até a ministra do trabalho Yolanda Díaz da Esquerda Unida o colocou como um grande “exemplo” de empresário). No entanto, nesta historia de “grande benfeitor” ocultaram os métodos de perseguição anti-sindical, demissões massivas e exploração – que beira a semiescravidão – com quem produz a maior parte de seus produtos. Do mesmo modo, marcas como H&M, Mango e Primark, que estão fazendo campanhas pelo “meio ambiente” e “gay friendly”quando chega o dia do orgulho gay, mas baseiam seus lucros na exploração descarada de milhares de trabalhadores na Índia e no sudeste asiático.

Nas redes sociais, alguns “trolls” da direita se animam em “defender” as marcas europeias, dizendo que a culpa é das oficinas intermediarias que trabalham nesses países, mas que as grandes marcas não tem nada a ver. Tem que ser muito cínico para querer ocultar o que é um modelo de deslocalização e super exploração generalizado, que tem permitido a estas empresas gerarem gigantescas fortunas nas últimas décadas.

Essa denúncia se arrasta por muitos anos. O novo é que os trabalhadores começaram a se rebelar contra esta situação, agravada pela nova crise mundial do COVID. Que viralizem os vídeos de seus protestos e assembleias, que podem começar a criar as bases para uma nova solidariedade de classe internacional.




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