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GREVE GERAL NA FRANÇA

Greve na França: “trégua de Natal” ou continuidade da luta

O governo de Macron e seu primeiro-ministro Edouard Philippe pediram aos sindicatos uma "trégua de Natal". Em uma reunião com dirigentes sindicais, um setor já concordou em fazer uma "pausa". Como continuar a luta contra a reforma da aposentadoria?

domingo 22 de dezembro de 2019| Edição do dia

Tradução de artigo originalmente publicado em www.revolutionpermanente.fr.

As primeiras tentativas de trair o movimento contra a reforma da aposentadoria de Macron impõem a necessidade de fortalecer a auto-organização desde a base, para que os trabalhadores continuem sendo os únicos com o direito de decidir se continuarão ou não a greve.

Depois de uma reunião multilateral com o primeiro-ministro Edouard Philippe, Laurent Lescure, secretário-geral da UNSA (um dos sindicatos franceses), anunciou que no setor ferroviário (UNSA SNCF) convocava uma "pausa" no movimento de greve contra a reforma da aposentadoria. Assim, esse sindicato e seu secretário-geral se tornam os primeiros a concretizar abertamente o passo da traição ao movimento.

Por várias semanas, as direções sindicais visitaram os corredores de Matignon (sede do primeiro-ministro), alguns para obter migalhas, outros para "negociar" ... a reforma previdenciária. Por enquanto, os resultados concretos dessas "negociações" têm sido a favor do governo, como visto na traição aberta da UNSA em troca de uma "cláusula do avô" (que no setor ferroviário a reforma entra em vigor apenas para novos funcionários, mas não para aqueles que já estão ativos).

No entanto, tanto nos piquetes quanto nas manifestações, as consignas são: "Não há nada a negociar! Lutaremos até a retirada da lei! Nenhuma negociação, retirada agora! Nenhuma trégua! Nem cláusula de avô nem cláusula da vovó!"

De fato, esses dirigentes sindicais não têm nada a fazer em salões e escritórios do governo. Nenhum grevista quer uma negociação sobre a reforma, mas sim sua retirada. E isso foi visto desde o anúncio da "pausa" pela UNSA SNCF.

Vários sindicatos, incluindo especialmente o UNSA RATP (transporte da região metropolitana de Paris), se afastaram dessa decisão e até denunciaram como muito distante a data de 9 de janeiro para fazer a próxima grande manifestação nacional, que foi acordada com as cúpulas da alguns sindicatos que compõem a Intersindical.

9 de janeiro é tarde demais!

Por sua parte, Philippe Martinez, secretário-geral da CGT, anunciou que sua organização, assim como a organização intersindical, continuava a se opor à reforma da aposentadoria e, ao mesmo tempo, disse estar se opondo a uma "trégua de Natal", que pedia um novo dia de Mobilização nacional para 9 de janeiro. Em outras palavras, uma imposição de uma trégua de fato, pelo menos em termos de "grandes dias de greve interprofissional nacional (intersetorial)" que marcam o movimento desde 5 de dezembro.

Observe que o secretário geral da CGT não disse nada sobre os grevistas da RATP (metrô, ônibus, bonde) e da SNCF (ferrovia) que estão em greve contínua há 15 dias. Grevistas que realizam uma luta exemplar, que se mobilizam maciçamente, que fazem piquetes apesar do frio e da chuva e que muitos deles enfrentam repressão policial.

Para impor nosso calendário, construamos o movimento a partir da base

A única maneira de garantir que o destino da greve permaneça verdadeiramente nas mãos dos trabalhadores, sindicalizados ou não, é fortalecer a auto-organização a partir da base. Em outras palavras, as assembleias de grevistas devem ser generalizadas em todos os locais de trabalho, devem ser uma área real de discussão e tomada de decisão, no nível local e para todo o movimento. Para isso, a auto-organização local não é suficiente. É nesse sentido que é necessário que os grevistas coordenem, avancem ou reforcem as áreas de coordenação das assembleias populares, como foi o caso da coordenação interprofissional da região de Paris. Iniciativas desse tipo começam a ser organizadas principalmente em Ile de France (região de Paris e toda a periferia).

Esse tipo de coordenação poderia não apenas organizar ações comuns dos diferentes setores, mas também tornar-se um órgão de gestão de greves, que impõe suas próprias decisões e seu próprio calendário às direções sindicais. Esta última deveria se submeter às decisões dessas instâncias decisórias dos grevistas da base. Por exemplo, eles devem facilitar locais de encontro para todos os grevistas, organizar fundos de greve e, acima de tudo, estender a greve a outros setores e aumentar a auto-organização. Dessa maneira, as organizações sindicais poderiam dar uma contribuição decisiva para a greve.

Infelizmente, o que vimos nesta quinta-feira à tarde é exatamente o oposto. Não apenas por parte dessas lideranças sindicais, como a UNSA, que traiu abertamente o movimento ou o CFDT (centro sindical conciliatório que era a favor da reforma previdenciária até que eles anunciassem o aumento da idade aos 64 anos), que mal colocaram de pé no movimento e estão tentando descobrir como sair dele o mais rápido possível, mas mesmo da CGT, FO e da intersindical que, sem apelar para voltar ao trabalho, colocam a data de mobilização para 9 de janeiro, isso é, dentro de vinte dias.

A luta deve continuar. Mais do que nunca, os grevistas da SNCF e da RATP devem estar cercados de solidariedade, começando pela participação em suas ações, tentando incentivar outros setores a participar do protesto, mas também para aumentar os fundos da greve. Nesse sentido, as direções sindicais que não oferecem perspectiva aos grevistas antes de 9 de janeiro e devem contribuir decisivamente para o apoio financeiro aos grevistas. Os trabalhadores em greve estão determinados a derrotar esse governo e sua reforma nefasta. E para isso, a organização a partir da base e a solidariedade será fundamental.




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