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Greve de trabalhadores do campo obriga Congresso peruano a abolir lei agrária

Depois de cinco dias de greve com bloqueio de rodovias, os trabalhadores do campo peruano tiveram a conquista de que o Parlamento termine votando a favor da revogação da nefasta lei de promoção agrária, que permitia a exploração dos trabalhadores e uma série de privilégios para os agroexportadores

sábado 5 de dezembro de 2020| Edição do dia

Com 114 votos à favor, 2 votos contrários e 7 abstenções, o plenário do parlamento peruano terminou por aprovar a revogação da denominada lei de promoção agrária, também conhecida como “lei de escravização trabalhista”, por conta dos enormes abusos que promove contra as e os trabalhadores, os quais contrastam com os enormes privilégios tributários e de acesso a terras e recursos naturais que o Estado concede aos empresários da agroindústria de exportação, os quais nos últimos anos acumularam lucros enormes em detrimento de seus trabalhadores.

Como se sabe, essa lei foi promulgada pelo governo de Alberto Fujimori, e no ano passado, o governo de Martín Vizcarra em aliança com o congresso de maioria fujimorista, ampliou sua vigência até o ano de 2031. Isso, junto ao aprofundamento da crise econômica que hoje vive o Perú, levaram a que milhares de trabalhadoras e trabalhadores agrários se levantarem primeiramente em Ica e logo depois no norte peruano, convocando a greve geral e o bloqueio das rodovias, exigindo a imediata revogação dessa regra.

A se iniciou com os trabalhadores agrários de Ica na segunda feira, 30 de Novembro, e na quinta feira (3), se uniram a eles os trabalhadores da região norte (região de La Libertad). Essa sexta feira, dia 4, os trabalhadores mineiros de Oroya também iniciaram uma paralisação exigindo que o complexo metalúrgico de Oroya passe a estar sob controle de seus trabalhadores, para isso bloquearam a circulação da rodovia central. Dessa forma Lima se encontrava ilhada.

A dinâmica das lutas operárias levaria então a que o questionado Parlamento, que já vinha de prolongar a discussão sobre a revogação da norma que favorece aos agroexportadores, fosse obrigado a votar majoritariamente pela sua revogação essa sexta feira, 4 de dezembro, depois que, na noite do dia anterior, as comissões de Economia e Agricultura do Congresso aprovaram também tal proposta.

Essa primeira vitória dos trabalhadores deixou um morto, o operário Jorge Yemer Muños de 20 anos de idade, que faleceu na província de Viru, em La Libertad, como consequência da brutal repressão da polícia nacional, que atuaram sob as ordens do recém empossado ministro do interior Cluber Aliaga Lodtmann (suplente de Rubén vargas), que por sua vez, se encontrava sob a linha de comando do presidente Francisco Sagasti.

A força da greve dos trabalhadores do campo também se deve ao fato de que, entre outras coisas, esse movimento não esteve arregimentado pelas burocracias sindicais que geralmente controlam os sindicatos operários, isso permitiu aos trabalhadores do campo avançar até onde avançaram sem serem cooptados ou derrotados pelos patrões e o Estado. Essa greve operária desatou a ira da burguesia agrária, que acionando os meios de comunicação e personagens midiáticos, como Rosa María Palacios, buscaram desqualificá-la, mas sem sucesso de sua parte, a solidariedade dos jovens e outros setores se fez presente através de uma importante mobilização na sexta feira na cidade de Lima.

Essa medida de luta dos trabalhadores agrários, marca uma característica importante do novo período político e social que se vive hoje no país, o qual faz parte do novo cenário internacional condicionado por um retorno da luta de classes e o aprofundamento da crise dos regimes políticos. Por isso, no decorrer dessa semana, a luta dos trabalhadores agrários, se foi a mais contundente, não foi a única que se viveu no Peru, tivemos outras lutas, como a que vêm levando à frente os trabalhadores da saúde, que é a luta dos trabalhadores demitidos da empresa AJE que ao final foram readmitidos, os trabalhadores mineiros de Oroya e de outros centros mineiros entre outras.

Tudo isso nos faz prever que a crise desatada como resultado da ascensão de Manuel Merino e sua posterior derrubada por causa das grandes mobilizações da juventude, não se fecha, senão agora passa a se expressar desde outra perspectiva e com um novo ator: a classe operária.




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