Internacional

CRISE NA GRÉCIA

Grécia e a Eurozona atingem acordo, Syriza aceita a chantagem

Os esforços do Syriza em usar o imenso rechaço da população aos ajustes para negociar uma austeridade moderada com a Troika fizeram com que a Alemanha impusesse um acordo com a sua cara, exigindo mais privatizações e uma dura reforma trabalhista. Tsipras ameaça expulsar os deputados que se abstiveram na votação do ajuste.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 13 de julho de 2015| Edição do dia

O acordo para o desembolso do chamado "terceiro resgate" foi alcançado, depois da mais longa reunião do Eurogrupo. Em troca de 53 bilhões de euros nos próximos três anos, o Syriza aceitou a chantagem da Troika eliminando qualquer sombra do já limitado programa eleitoral com que fora eleito, com a Alemanha conseguindo uma capitulação completa como vingança depois do imenso Não recebido no referendo.

Alguns analistas chegam a dizer que o acordo de humilhação da Grécia é pior que o Tratado de Versalhes de 1919, logo depois da Primeira Guerra Mundial, com que as potências vencedoras, Inglaterra e França, institucionalizaram o saque da Alemanha e a agravaram com dívidas de guerra que afundaram a economia nacional.

Após duas semanas de feriado bancário e um controle de capitais imposto pelo governo, a Alemanha utilizou a precariedade da situação econômica grega para impor uma genuína humilhação ao povo grego, que impressionou inclusive a imprensa alemã. O periódico Der Spiegel intitula seu artigo “Um catálogo de crueldades à Grécia”.

Entre os pontos de maior destaque estão o aumento do imposto sobre o valor agregado (IVA) para os restaurantes, de 13% para 23%, o aumento das contribuições à Previdência Social, a eliminação progressiva dos subsídios às pensões mais baixas e o aumento na alíquota do imposto de renda, de 11% para 13% no tipo mínimo, e de 33% para 35% no máximo, além de aumento progressivo até 2022 da idade mínima para ter direito ao benefício integral (até 67 anos) ou o mínimo de 62 com 40 anos de carteira assinada.

A Alemanha exigiu uma profunda reforma trabalhista, que significa a eliminação de entraves para as empresas realizarem demissões coletivas. Quanto às privatizações, exige que Atenas privatize toda a rede de distribuição elétrica estatal, ADMIE.

Para coroar a humilhação, a mais nova proposta alemã é que a Grécia transfira a propriedade estatal no valor de 50 bilhões de euros a um fundo de privatização, supervisionado pela Troika, para que sirva de “garantia” ao reembolso do novo empréstimo.

Essa grotesca exigência de entrega nacional foi aceita por Tsipras, com a "condição" de que seja gerenciado em Atenas.

Dezenas de milhares de internautas – apoiados por eminentes figuras econômicas, como Paul Krugman – iniciaram uma campanha #ThisIsACoup (“Isto é um golpe”) sobre a chantagem alemã.

Com o fundo de 50 bilhões, a Grécia pagará suas dívidas para permitir um novo ciclo de endividamento, num círculo vicioso que não tem fim. Sob o governo dos conservadores e dos socialdemocratas, o plano de privatizações não arrecadou mais que 4 bilhões de euros, o que só mostra a magnitude da derrota de Tsipras nas negociações que tanto acalentava.

Com as privatizações, a Alemanha trata de impor um tratado de colonização da Grécia: a Deutsche Telekom, que havia ficado em 2008 com 20% da companhia telefônica estatal grega, ficou com mais de 40% das ações em 2013. A Fraport AG Frankfurt Airport, companhia de aviação alemã, conseguiu em 2014 a concessão de 14 aeroportos regionais na Grécia, por 40 anos. A alemã Siemens detém praticamente a posse de todos os trens gregos, e batalha por controlar a eletricidade, com a exigência de privatização da estatal ADMIE.

A capitulação do Syriza

Na coletiva de imprensa Tsipras disse que estava seguro que o povo grego "apoiará o acordo", sem sequer mencionar o referendo de 5 de julho, em que houve um massivo rechaço ao plano da Troika (menos duro que o atual).

O contundente Não no referendo parece que ocorreu há um ano, e não há uma semana. Porque o governo chamou o referendo para fortalecer "sua posição nas negociações", desertou de suas posições e aceitou um programa de ajustes pior que o que foi rechaçado por 62% da população.

Esta aceitação de 100% dos ajustes impostos pela Troika é um verdadeiro “Não” de Tsipras ao próprio programa eleitoral com que foi votado. A capitulação de Tsipras e do Syriza foi completa. Nem os setores mais críticos poderiam ter imaginado que o Syriza abandonaria tão rapidamente suas "linhas vermelhas" em troca de um acordo que faz inveja ao do Shylock shakespeariano.

A impotência estratégica da política reformista e de conciliação de Tsipras, de manter-se no euro a qualquer custo, terminou assinando embaixo de uma gigantesca humilhação, ajudando a recompor a chanceler alemã depois do golpe sofrido no referendo, e dando sinais a toda a Europa de que qualquer desafio as ajustes será derrotado pelo imperialismo alemão.

As concessões de Tsipras não tiveram limites. Depois de obrigar a renúncia de Yanis Varoufakis, ex-Ministro da Economia do Syriza, a pedido da Troika para facilitar as negociações (colocando em seu lugar Euclides Tsakalotos, negociador escolhido pelo Eurogrupo), Tsipras agora ameaça expulsar os deputados do Syriza que se abstiveram na votação para aprovar o acordo de austeridade no parlamento.

17 deputados do Syriza, incluindo dois ministros, decidiram se abster na votação que permitiria Tsipras negociar o ajuste com o Eurogrupo. Com isso, Tsipras perdeu o poder de maioria que tinha no parlamento, e dependeu da oposição de direita para aprovar a permissão, saindo muito debilitado para aplicar as medidas.

Fala-se de uma mudança de gabinete e a renúncia voluntária ou forçada daqueles que não apoiem as medidas. O partido liberal To Potami revelou que apoiará as medidas do governo numa política de "unidade nacional".

A expulsão de setores da ala esquerda do Syriza significaria um claro giro à direita sinalizado por Tsipras, a fim de convencer os credores de que o eventual acordo com o Eurogrupo será levado adiante, em aliança com a oposição de direita.

Ainda assim, a Plataforma de Esquerda se nega a postular uma política claramente independente do governo de conciliação de classes do Syriza, reservando-se o papel de “opositora fiel” de Tsipras.

O Syriza dirige um Estado capitalista que agravará sua população com a fome e o desemprego. Não à toa, os últimos dias foram de intensas manifestações críticas ao governo da imensa maioria dos jovens e trabalhadores que compuseram a imensa base social do Não no referendo.

A polarização social surgida e alimentada pelo referendo reativou um espírito de mobilização que esteve dormente no último período, e que deve aproveitado para por em movimento as únicas forças sociais capazes de derrotar a Troika e combater a enrega do país, justamente o que Syriza (e sua ala esquerda organizada na Plataforma de Esquerda) se esforçou por passivizar nestes seis meses, deixando a luta de classes, como os antigos diziam, para as "calendas gregas".




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