Juventude

Gilson Dantas no 57º CONUNE: as lições de um militante de 1968 à nova juventude revolucionária Faísca

Foi retomando a música "Caminhando" que Gilson Dantas iniciou sua roda de conversa com os jovens militantes da Juventude Faísca, em meio ao 57º Congresso de Estudantes da UNE no último sábado (13). Ele lembrou como essa música refletiu o sentimento de uma geração da qual fez parte e que, no ano de 1968, ameaçou tomar o céu por assalto. As desses que lutaram contra o capitalismo em anos de chumbo tem muito a ensinar aos jovens de hoje que querem "fazer a hora, não esperar acontecer."

segunda-feira 15 de julho| Edição do dia

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Foi retomando essa música que Gilson Dantas iniciou sua roda de conversa com os jovens militantes da Juventude Faísca, em meio ao 57º Congresso de Estudantes da UNE no último sábado (13). Gilson lembrou como essa música refletiu o sentimento de uma geração da qual fez parte e que, no ano de 1968, ameaçou tomar o céu por assalto. Ele foi um militante trotskista naquela época, e compartilhou com essa juventude que hoje se enfrenta com Bolsonaro parte da história da luta dos estudantes no Brasil. As experiências de sua geração durante a ditadura militar, as experiências do movimento estudantil nos anos de chumbo, tem muito a ensinar aos jovens de hoje que querem fazer a hora, não esperar acontecer.

A música que iniciou o debate foi lembrada no auge de seu impacto político, quando no festival internacional de música, os jurados pressionados pela repressão política viam-se forçados a eleger outra música como vencedora, mas as massas jovens presentes não aceitaram e se colocaram em protesto no momento em que se anunciou a vitória de Sabiá, também de Geraldo Vandré, mas que não era como Caminhando, como contou Gilson, cantada em cada escola, fábrica, plantação, construção e universidade do país.

Quando a vitoriosa Sabiá é anunciada, a revolta se espalha pelo Maracanazinho e, acompanhando a sede de protesto do público, Vandré começa a cantar a bela canção que ousava falar de sonhos e denunciar as botas policiais. Enquanto canta, o espírito dessa juventude se colocava sensível em cada um dos versos mais combativos, como é possível identificar no áudio do vídeo abaixo:

Dezenas de jovens de vários cantos do país estiveram presentes nessa conversa, e eram visíveis as lágrimas de emoção e orgulho da tradição de um jovem de 1968 que se conecta aos novos sopros de esperança dessa nova juventude de 2019, que encontra novamente uma história que se estreita. Frente ao governo Bolsonaro, mais do que nunca é necessário retomar essas experiências e aprender com a lições do passado. Neste sentido, a contribuição de Gilson Dantas é parte da história viva dos estudantes brasileiros.


Gilson fala para a juventude Faísca durante o 57º CONUNE

Naquela época, o internacionalismo era parte da subjetividade do movimento estudantil. O golpe militar foi financiado pelos EUA, que espoliava o país e aprofundava as condições de dependência do Brasil. Outros regimes ditatoriais do Cone Sul tiveram a mesma característica. Como resposta o movimento estudantil teve um caráter bastante internacionalista. Segundo o relato de Gilson, os estudantes queimavam bandeiras dos Estados Unidos quase uma vez por semana, em repúdio à ingerência imperialista.


Manifestante queima a bandeira dos EUA no prédio da UNE, no dia da morte do estudante Edson Luis, em 1968
Foto: Pedro de Moraes / Divulgação

Este internacionalismo também era de solidariedade de classe e repúdio à guerra do Vietnã. Lá, os EUA promoviam um verdadeiro banho de sangue e a vanguarda do movimento estudantil via isso com repúdio. Os estudantes acompanhavam de perto a resistência vietcongue, torcendo pelos exércitos locais contra os americanos.

Este é um quadro que retrata a subjetividade da juventude na época. Acompanhando um conflito do outro lado do oceano, se posicionando contra os americanos que em todo o mundo promoviam a guerra, a miséria e mais exploração. Este é também um retrato do que dizia Trotsky sobre a juventude ser como uma "caixa de ressonância" das contradições da realidade. Daí seu enorme potencial de intervir como sujeito político e ser parte de transformar a história. Este sentimento, segundo Gilson, era bastante vivo e profundo na juventude daquela época, que via em sua frente as enormes tarefas colocadas, assim como muitos jovens veêm hoje frente a todo o retrocesso que o golpismo e o governo Bolsonaro vêm impondo no país. Naquela época os estudantes questionavam não só a guerra, a economia, a exploração mas também o modo de vida que o sistema capitalista precisa impôr para alcançar estes objetivos. Os jovens questionavam isso com a gana de transformar o mundo inteiro.


o corpo de Edison Luis, que se tornou estopim de uma onda de revoltas de jovens que protestavam a morte desse menino secundarista, em 28 de março de 1968

Entretanto, esse profundo sentimento revolucionário e todo o potencial dessa juventude subversiva carecia de um importante elemento para a transformação da realidade: a estratégia. Esta é um importante lição abordada por Gilson. Sem uma estratégica que dê conta das enormes tarefas colocadas à juventude, toda a energia revolucionária dos estudantes pode ser desperdiçada. Infelizmente, este foi o destino do movimento estudantil daquela época. Este movimento, embora apaixonante, forte e cheio de sonhos, não teve como avançar em suas próprias aspirações. Era decisivo para qualquer vitória contra a burguesia que massacrava vidas por todo o mundo, promovia tortura e prisões, a aliança entratégica e imparável entre juventude e classe trabalhadora, essa classe que tudo produz, que tem o poder de parar a produção e transformar a sociedade inteira desde a raíz.

Veja mais: O movimento estudantil até 1968: um debate de estratégias para enfrentar os desafios de hoje

No horizonte da época era visível outros tipos de estratégias em movimento, como a guerrilha, que apesar da enorme radicalidade, tinha como impecilho para a vitória a confiança em setores inimigos de outras classes, como as burguesias nacionais dos países mais atrasados economicamente, que em países como o Brasil é representada pelo agronegócio historicamente escravista e conservador. O movimento estudantil do final dos anos 60 se apaixonou por essas estratégias e se afastou da perspectiva da disputa pela maioria da classe trabalhadora, acreditando que com poucos era possível mudar tudo. Estas estratégias isolavam a vanguarda e concentravam sua explosiva energia revolucionária em ações separadas das massas, tornando-as alvos fáceis da repressão e levando-as a um beco sem saída.

Esta é uma importante lição transmitida por Gilson em seu apaixonante relato. Para que triunfe toda a indignação e repúdio despertado na juventude pela barbárie capitalista cotidiana, é necessário uma estratégia revolucionária, que compreenda a centralidade de conquistar a classe trabalhadora e contagiá-la com as aspirações de transformação da realidade. É necessário um nível de organização muito profundo, que consiga articular cada ação com o objetivo da tomada do poder pelo proletariado, derrubando o poder da classe dos capitalistas. Hoje mais do que nunca é necessário retomar tais lições, buscando um caminho que consiga fundir todo o potencial revolucionária da juventude, das mulheres, do povo negro e LGBTs com a força e o peso social da classe trabalhadora.




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