Sociedade

ENTREVISTA PANTANAL

Gilson Dantas: "A devastação do Pantanal pelo capitalismo pode ser irreparável"

O Esquerda Diário entrevistou Gilson Dantas, militante do MRT, doutor em sociologia e médico (UnB) sobre os processos de queimadas na região do Pantanal, suas causas e consequências, assim como a saída frente a esse problema que vem tendo bastante repercussão.

segunda-feira 21 de setembro| Edição do dia

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Esquerda Diário: Como você enxerga a atual situação, frente a essa escalada de registros de incêndios em diversas partes do país, sobretudo no Pantanal, e seus diferentes impactos?

Gilson Dantas: Em primeiro lugar, essa devastação do Pantanal escalou para um patamar qualitativamente superior. É importante entender isso, porque já se estabeleceu um estado de calamidade pública, ambiental e social sem precedentes nesses últimos meses e nesse ano que corre. Vinha escalando, só que agora é outro nível. É importante entender o contexto. Os três biomas, o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia são entrelaçados e a crescente devastação da Amazônia que está se aproximando de um ponto de não retorno, igualmente a devastação do Cerrado, elas impactam o terceiro bioma que é o Pantanal. Esse bioma devastado, por sua vez impacta outros setores do país, outras áreas da nossa geografia, além da vida social e de ser também um problema grave de saúde pública e de comprometimento da agricultura dentro um geração ou antes disso. Quando a Amazônia é destruída, o grau de evaporação de água junto com a evaporação oceânica que constrói “rios voadores” (massas de nuvens carregadas de água) que se deslocam pros Andes e depois em direção ao Pantanal, ao Centro-oeste, Sul, Sudeste, e também para outros países vizinhos. Esses rios voadores vêm sendo comprometidos pela devastação da Amazônia, já isso por si só impacta dentre outras regiões, o Pantanal. O clima do Pantanal se torna mais seco na carência daquele volume desses rios voadores que usualmente chegam na região.

Outra questão é que também a crescente devastação do Cerrado, promovida pelo agronegócio, especialmente da soja, mas não somente, vai secar e impactar os rios que confluem para o Pantanal. O Pantanal não tem rios próprios, são rios que chegam do bioma do Cerrado e mais acima também. A profundidade desses rios vai diminuindo, então se o Rio Paraguai, que é o principal do Pantanal, tinha de três a quatro metros de profundidade, agora ele tem um metro e pouco, o que é uma expressão desse fenômeno de devastação ambiental mais acima e mais ao lado.
Isso muda profundamente o clima do Pantanal. Metade da chuva do Pantanal vem da Amazônia, daqueles rios voadores mencionados. Então se metade da chuva vem da Amazônia, a devastação lá de cima já explica a profundidade da seca no Pantanal, então nem sua seca é mais natural. É certo que o Pantanal é uma área alagada, provavelmente a maior bacia alagada e de maior biodiversidade do mundo, que alterna entre períodos de chuvas e seca. Essa alternância fertiliza o solo, cria um bioma particular que era o mais preservado do país. É um bioma que tem 15% de seu status original devastado, em comparação com a mata atlântica que alcançou 95% de destruição. Ele conseguiu se manter enquanto uma espécie de santuário vegetal e de fauna também. Esse santuário significa um biodiversidade singular e uma alternância de chuva e seca, também particular que é o cria a imensa fertilidade do Pantanal.

Esquerda Diário: Há diversas versões que explicam esse processo de queimadas e de alterações do clima do Pantanal, como você vê isso?

Gilson Dantas: Então, em primeiro lugar, a alteração do clima do Pantanal é produzida pela destruição ambiental em marcha dos sucessivos governos que precedem Bolsonaro, só que numa escala qualitativamente superior com a chegada desse novo regime golpista ao governo. Isso é o primeiro ponto, o outro é que quando se discute por que a queimada acontece, em geral, existe uma tendência do regime a naturalizar esse processo e afirmar que o Pantanal sempre queima. Isso é um blefe e que recentemente, vimos o Mourão, que é uma peça chave desse regime, declarando isso nessa semana. Acontece que o Pantanal tem um período entre o fim novembro a março que é um período sem seca, apenas com chuvas. Quando ocorre algum incêndio provocado por raios nessa área, ele se auto-apaga por conta das chuvas, ou seja, a própria natureza condiciona limitantes para que não haja esse tipo de propagação. Não se trata de uma condição natural essa crescente propagação de incêndios, pois desde janeiro o Pantanal vem queimando, então não há nada de natural desse processo. E nesta queimada crescente que escalou em agosto e setembro em níveis jamais vistos, a devastação é altíssima.

Já se foi mais de 12% do Pantanal com as queimadas e as mesmas atingiram níveis em torno de 500% a mais do que nos últimos anos. É uma calamidade pública e não tem absolutamente nada de natural. De acordo com todos os gráficos do INPE e todos os órgãos que eventualmente acompanham os habitantes de lá, isso não tem precedente. Aqui, precisamos identificar o seguinte, é uma queimada produzida pelo agronegócio para criar o terreno para o gado. Isso já foi estudado, 98% das queimadas no período da seca no Pantanal é fruto da ação humana, que é um termo vago para encobrir o agronegócio e as denúncias são de que eles queimam para expandir a área para pecuária. É uma queimada intencional e de classe. Não pode ser atribuída por nenhuma outra causa e que termina levando de roldão, não só a vida natural, como os povos originários. Uma reserva inteira já foi consumida. E o efeito também sobre a saúde pública é brutal porque Cuiabá e várias outras cidades da região estão com hospitais cheios de crianças e idosos, que são os setores mais frágeis, com doenças respiratórias e a gente já sabe que a fuligem produzida pela queima do Pantanal alcança as vias respiratórias e produz irritação dos sintomas respiratórios e inflamação local. Essa inflamação se estende pelo corpo humano e provoca uma “tempestade inflamatória” que impacta outros aparelhos como coração, rim, provocando até infartos ou derrames pelo desenvolvimento desse processo inflamatório, produto da seca do Pantanal. Logo, é um problema de saúde pública. Também compromete a agricultura dos anos vindouros porque são mudanças do sistema hídrico e pluvial que impactam a futura produtividade agrícola, então, na verdade esse regime está destruindo o futuro da agricultura e também dos povos originários e da população local. Além de ser uma política intencional para destruir o patrimônio público e natural do Brasil, transformar em dólares e engordar e fazer crescer o agronegócio.

Esquerda Diário: Por que é intencional?

Gilson Dantas: Porque essa é a política econômica do governo, produzir lucros para agronegócio, para a grande banca e pagar a dívida pública que não existe, que não tem razão nenhuma de ser paga e que leva metade do nosso orçamento. O PT é parte disso, isso é inegável, seja pelos sucessivos governos que escalaram nessa direção, seja porque neste exato momento, o PT não tem nada a oferecer, a CUT que é o PT e a UNE que é dirigida pelo PT e PCdoB poderiam estar mobilizando estudantes da região, por exemplo, formando comitês em defesa do Pantanal e fazendo chamados programáticos e debates programáticos para conscientizar a vanguarda de toda essa região da queima e do país inteiro que o nível de calamidade corresponde a um debate de alto nível, estendido pela nação.

Esquerda Diário: Pensando em todas essas consequências, como avançamos na superação desse problema?

Gilson Dantas: Então, se a gente vai discutir o que fazer, uma das primeiras questões é essa, é considerar que é uma das expressões da velha política do PT e também da impotência, quando o fenômeno vem acontecer, como é agora. É claro que a causa, não é claro, mas é preciso enfatizar que a causa é o agronegócio, é a exploração agrícola e pecuária através do grande capital rural agrário, alimentado por Lula e que alcança seu apogeu, seu auge na era do regime golpista, que é o que está acontecendo. O regime golpista é diretamente cúmplice dessa devastação e parte dela não tem retorno. Parte, por exemplo, tem uma região muito rica e um santuário de fauna que acaba de queimar, que tem uma grande concentração de mamíferos, que não tem em nenhum outro lugar do mundo, acabou de ser destruída até o final, 90 a 98%. Supondo que durante uma geração não houvesse queimada, o que é impossível de não haver dentro desse regime e desse sistema capitalista, ainda assim, não se recuperaria a região totalmente. Então eles estão destruindo e re-destruindo, construindo a devastação, sem retorno na medida que não haja uma solução que atinge em cheio a concentração de terras. É um debate que ecologicamente não é feito pelos movimentos, não é feito até o final, de que o agronegócio está no centro do palco dessa devastação. Ele como produtor da agricultura da morte ele como produtor dos incêndios para limpar terras que é o caso desse período todo que nós estamos vivendo e portanto, o agronegócio fundido ao capital financeiro internacional. É hipocrisia dos países da Europa virem dizer que não tem que queimar se eles estão aqui através do grande capital. fundido ao agronegócio, a grande banca, então é parte do mesmo balaio, não tem o que discutir. E outra coisa, outra demonstração da impotência do sistema capitalista é que o exército, uma casta de generais muito bem pagos com previdência que o povo brasileiro não tem e numa hora como essa, os trezentos mil soldados brasileiros, o mínimo que deveriam estar fazendo é atuando no Pantanal para debelar o incêndio. É o mínimo. São pagos com o dinheiro público e estão agora nos quartéis e o Bolsonaro fazendo cara de paisagem, rindo da queimada do Pantanal. Então é um processo que não tem como ser discutido fora da necessária política para varrer o regime, não é só Bolsonaro, Mourão, é todos eles. Mourão disse que o Pantanal sempre queima, esse é o candidato que se faz o impeachment do Bolsonaro, entra esse genocida e também incendiário. Disse que não tem problema nenhum para ele. Eles estão destruindo nosso clima já hoje, nessa semana no Rio Grande do Sul, uma cidade lá já choveu fuligem, o pessoal encheu a lata de água com água preta. A promessa é de que no fim de semana, as chuvas que ocorrerem em São Paulo já não serão chuvas de água transparente, já vai incluir a sujeira que vem das queimadas do Pantanal, e assim, o país tem o clima entrelaçado. Eles estão destruindo o regime pluvial brasileiro, estão destruindo os biomas até o final e esse é um dos raros biomas que ainda tinham algum grau de preservação. Se não for tratado, num nível de problema de calamidade pública, produzida pelo sistema capitalista, então nós teremos níveis de devastação sem retorno, parte deles não tem retorno e para ter o retorno do que está sendo destruído, é necessário controle dos trabalhadores sobre esse agronegócio, não pode ser, a terra deverá ser confiscada e entregue aos trabalhadores, por várias razões. Primeiro, porque são eles que produzem, aí são eles que podem mudar o modelo de produção, girar essa agricultura da morte e do veneno para dentro de uma agricultura auto-sustentável e que alimente sem envenenar e que as pessoas trabalhem com um salário digno e controlando a própria economia. Não tem saída fora disso, de forma nenhuma as tentativas dentro do regime de reformar e tudo mais, não têm impedido que eles continuem destruindo a nossa vida. Portanto, não um problema particular do bioma, mas do povo brasileiro, da classe trabalhadora porque todos estamos pagando e vamos pagar o preço da destruição do Pantanal. O governo veio com essa intenção porque ele sucateou os braços do Estado ligados ao meio ambiente, isso se escancarou em diversos exemplos, como quando Bolsonaro disse em sua campanha presidencial que veio para acabar com a multa ambiental ou quando seu ministro do meio-ambiente declarou que vão passar a boiada em meio à pandemia. Uma boiada de medidas ecocidas, e fruto desse regime que sustenta essa devastação, por isso, endosso que a luta que deve ser feita pela preservação do Pantanal e contra todos os efeitos coligados a sua devastação, é contra o regime.




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