Educação

PEC DO FIM DA USP

Gilga, trabalhador da USP, denuncia reitoria e repressão com a PM no Conselho Universitário

Reproduzimos vídeo e transcrição da fala de Bruno Gilga, representante dos trabalhadores no Conselho Universitário da USP, denunciando a reitoria, o uso da polícia contra estudantes e trabalhadores, e a conivência do próprio conselho com as medidas da reitoria. A votação realizada ontem prevê o fechamento de 5 mil postos de trabalho na universidade.

quarta-feira 8 de março de 2017| Edição do dia

"Em primeiro lugar, antes de falar da pauta que está em votação, eu queria dizer que é absolutamente revoltante que o Reitor - que como de costume está se levantando e fugindo de escutar uma fala discordando da sua posição - [Reitor fala: "posso atender às minhas necessidades fisiológicas?" e se retira] É revoltante que o Reitor venha aqui à reunião falando sobre democracia na universidade e dizendo que na universidade é intolerável a violência.

Foi você - que não hoje, por um acaso, uma coincidência, mas toda vez que a gente vem falar sai da sala - Foi você que chamou a Polícia Militar. Pra falar o que aconteceu do meu lado: do meu lado foi detida uma companheira trabalhadora, que imobilizada pela polícia teve o rosto chutado por um policial; do meu lado, uma companheira com - se tanto - 1,60 de altura, levou um golpe de cassetete na cabeça que abriu a cabeça, e saiu carregada correndo para o hospital coberta de sangue; do meu lado a mesma coisa aconteceu com um estudante. Pra falar do que aconteceu do meu lado.

E ainda que tenha sido a Polícia Militar que tenha feito isso dentro da universidade, é na mão do Reitor que está o sangue que está derramado aí fora, dentro da Universidade de São Paulo. Na mão do Reitor, que tomou a decisão de chamar a polícia, e na mão de cada um e cada uma, de cada membro do Conselho Universitário, daqueles que entraram aqui dentro dessa sala escoltados pela polícia; daqueles que entraram, escoltados pela polícia embaixo de uma chuva de bomba, pisando em cima dessas poças de sangue de trabalhadores e estudantes da universidade; na mão de vocês está o sangue de quem se feriu aí fora, dentro da universidade pública, pelas mãos da Polícia Militar, nunca é demais dizer.

Então não venham dizer que os que estão contra essa medida [o pacote do Reitor] querem o totalitarismo, querem uma sociedade onde "eu dito e os outros obedecem". Nós já vivemos em uma sociedade onde o Reitor dita. E o fato de que ele compartilha, com mais meia dúzia, de dezenas, com inclusive interesses materiais do que está sendo votado aqui - porque inclusive dirigem as fundações e são donos das empresas que vão substituir a força de trabalho que está sendo mandada embora - o fato de que não seja um, e sim cem burocratas, de acordo com seus interesses pessoais, aí sim defendendo os seus privilégios, que mande e queira que os outros obedeçam, não faz disso uma democracia. Esse conselho aqui, portanto, não tem absolutamente nada de democrático; e, portanto, não adianta reivindicar a democracia em seu nome e contra os que se manifestaram contra o autoritarismo dele, que está agindo contra o interesse da esmagadora maioria da universidade.

Entrando no ponto de pauta, não venham dizer [conselheiro interrompe: "me dá um aparte", Bruno responde: "Não, não te dou um aparte não". Conselheiro: "É democrático... (inteligível) Bruno: "Eu não pedi aparte no tempo de fala de ninguém, eu tenho direito a uma fala que já já vai ser interrompida, inclusive porque, diferente de vocês, eu não posso falar mais um minuto e meio ou dois minutos aqui, então eu vou fazer a minha fala"] E entrando no conteúdo da discussão, não venham aqui dizer que não estão votando de acordo com seus interesses, mas de acordo com os interesses da universidade.

O Reitor soltou um documento no qual ELE afirma que a creche está sendo fechada - ELE dá, de motivo para o fechamento da creche - a falta de funcionários; que houve uma redução de quadros e não tem funcionário suficiente para fazer a creche funcionar. Segundo ele, não sou eu que estou falando, mas ele diz isso. Se fechou o Pronto Socorro do hospital, se fechou 40% dos leitos de UTI, dizendo que o motivo é falta de funcionário. É o mesmo motivo para estar terceirizando o bandejão, para não ter aula de disciplina obrigatória na Escola de Aplicação, metade dessa universidade já está sendo fechada, e VOCÊS estão reconhecendo que é por falta de funcionário. E saíram até agora 2.600; e semana que vem saem mais mil, e vocês estão votando uma medida em que está escrito que tem que cortar, que tem que ter pelo menos 40% de professores [no quadro total de funcionários]. É só fazer a conta. Depois desses 3.600 que já foram mandados embora, isso significa mandar embora no mínimo mais cinco mil trabalhadores. É só ver o que está acontecendo com a creche, com o hospital, com as unidades de ensino pra saber: o que vocês estão votando não tem nada a ver com "defesa da universidade", ao contrário, é aprofundar o processo que está em curso de destruição da universidade, de fechamento de cada um desses serviços; em primeiro lugar dos poucos serviços que são prestados ao povo, à população que sustenta a universidade, como é o HU, como são as creches; aos poucos estudantes pobres que entram aqui dentro. Esses são os que já estão sendo fechados, e o que vocês vão votar aqui para cortar mais cinco mil postos de trabalho é para aprofundar isso de acordo com os seus próprios interesses.

E aí o resto da discussão, nem tenho tempo mas também não preciso gastar porque já disse tantas vezes aqui: não, nós não estamos propondo que retire verba da saúde, nem dos companheiros servidores públicos. Se for pra entrar na discussão, nós estamos propondo que retire verba da metade do orçamento público que vai pra banqueiro com juros de dívida, é isso que nós estamos propondo. Agora, sem precisar chegar até aí: vocês NUNCA, NUNCA, nenhum de vocês, falou nada sobre o fato de que o governador sistematicamente há quase dez anos descumpre a lei e não repassa os 9,57% do ICMS, e que só a diferença desse desfalque nos últimos dois anos foi mais de meio bilhão de reais. E nem o Reitor, nem ninguém nesse conselho falou absolutamente nada sobre isso.

Por último, para encerrar, queria dizer o seguinte: se vocês estão escandalizados com o que aconteceu hoje - não com a violência que a reitoria promoveu e com a qual a maior parte de vocês foi conivente, mas sim com a resistência - saibam: isso é só o começo. Isso foi em função da falta de tempo, do atropelamento e a falta de democracia do modo como foi feita essa votação, que não passou por Congregação, não permitiu discussão em lugar nenhum. E se vocês aprovarem isso, saibam: isso foi só o começo e a resistência vai ser muito, muito maior.




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