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ARTE E CULTURA

Futuro: O retrato da consciência de uma juventude

As canções do álbum da banda mineira Tarda se misturam com as nossas próprias inquietações e se confundem num canto uníssono nos arrastando para dentro desse universo intimista e melódico.

Júlia Santana

Representante Estudantil do curso de Artes Visuais na UFMG e militante da Faísca Revolucionária

sexta-feira 13 de novembro| Edição do dia

"No miolo do corpo
Essa tempestade que chamamos de progresso
Manda quem não sente
Nossas utopias deixamos pra depois
Depois que tudo acaba não é o fim
E nada vira qualquer coisa
Virado do avesso
Andando de costas"

Com esse canto, somos convidados a mergulhar no Futuro, álbum lançado nesta quarta-feira (11) pela banda mineira Tarda.

No primeiro álbum da banda, que já havia lançado 3 singles anteriores, a angústia e a expectativa de algo por vir se tornam cores que compõem o retrato da consciência de uma juventude cercada de miséria e incertezas.

Não há como ouvir Futuro sem sentir nossos devaneios refletidos nas canções. Julia Baumfeld, Paola Rodrigues, Randolpho Lamonier, Sara Não Tem Nome e Victor Galvão, integrantes da banda, nos oferecem uma experiência sensorial através da assemblagem de retalhos e recortes sonoros, que por ser tão rica resulta num som autêntico, trazendo vários nuances e imagens construídos numa temporalidade fluida que não à toa nos evoca a todo momento a cama ilhada pela água turva da arte da capa desenvolvida por Randolpho como uma imersão em nossos próprios pensamentos.

“Me calo a força
Me alio ao tempo
Quando fala a dor
Quando cala a dor”

Assim, recriamos constantemente Futuro, onde as canções e as nossas próprias inquietações se misturam e se confundem num canto uníssono nos arrastando para dentro desse universo intimista e melódico. Num cenário em que o torpor do sujeito e normalização da morte são imperativos para que o sistema continue a rodar, falar de si, das suas angústias e desejos de mudança, é se afirmar um sujeito inquieto e, portanto, agente.

“As coisas não podem pertencer a um estado constante de sobrecarga
Um copo, uma tigela, uma jarra
Não poderá nos conter
Somos água”

As músicas dialogam sobretudo com um setor da juventude que vivenciou um período de expectativa de resolução da pandemia por parte do Estado, resolução essa que nunca ocorreu. Esse mesmo setor é fruto da política individualista do fica em casa, que fez com que esses jovens se mantivessem em confinamento, enquanto a outros setores isso sequer foi oferecido como um direito. À crescente falta de perspectiva pela falta de empregos, pelo aprofundamento da precarização do trabalho, pela violência policial que afeta sobretudo a população negra, se somou o Ensino Remoto Emergencial em meio a um cenário caótico de negacionismo do governo Bolsonaro e Mourão frente a uma pandemia avassaladora que batia recordes de mortes diariamente.

Todos os sintomas de um sistema capitalista em ruínas manifesta-se diretamente numa angústia e inquietação constante na juventude, que se faz presente na sonoridade e letras construídas em Futuro. A ideia de que o quarto em meio à quarentena seria um espaço pessoal de acolhimento e proteção, alheio a todo desgoverno externo, se mostrou ilusória. A miséria de um sistema letal ultrapassa, portanto, toda barreira física e grita a necessidade da destruição das bases que sustentam esse mesmo sistema.

“While im living inside i’m alright
(Enquanto estou dentro, estou bem)
But I know this is going down when i’m out
(Mas eu sei que isso desabará quando eu estiver fora)

I am out of sight, i am starving
(Estou fora de vista, estou morrendo de fome)
I know i might taste it
(Eu sei que posso sentir o gosto)
I’m feeling the rage
(Estou sentindo a raiva)
Been dreaming away just like Martin
(Tenho sonhado igual ao Martin)
It’s fear replacement
(É a substituição do medo)
Theres no other way
(Não há outro caminho)
It could be a jump but it’s falling
(Pode ser um salto, mas está caindo)
Imma make my way through the glass
(Eu vou fazer meu caminho através do vidro)
I might break
(Eu posso quebrar)”

Futuro nos perfura e ecoa.

Ao nos procurarmos refletidos nas músicas encontramos todo o contexto em que vivemos: Nossa angústia é política e social. O cenário de caos e opressão construído por um sistema tão perfeitamente desenvolvido para nos fazer descrer em nossas próprias forças nos sufoca.

Em um momento em que respirar nunca foi tão difícil, em que assistimos atônitos George Floyd ser asfixiado até a morte por um policial, sentimos ainda mais forte o peso do respiro que abre Breath, nona música do álbum. E quando nos damos conta, também estamos respirando apreensivos.

"Take a breath
(Respire)
Today you must keep yourself alive
(Hoje você deve se manter vivo)"

Mas Tarda não canta a derrota, sequer o conformismo. Sentimos a todo momento a voz que emerge da água turva entoando um canto pela construção de algo novo. O cansaço nos acordes lentos e melancólicos, nas vozes que se arrastam e explodem por vezes, no sintetizador que se demora, não é o desejo de descansar, mas a conclusão derradeira de que basta de resignação diante da miséria do possível.

É portanto num crescente de tensionamento em Liturgia das Horas, que corremos em busca do que está por vir, alcançando Futuro, última canção do álbum homônimo, onde somos levados à praia. Ouvimos o quebrar das ondas não como alguém que chega a ver o mar, mas como alguém que sai da água depois de tanto mergulhar. Embalados pela letra e voz de Paola Rodrigues, nos afastamos da ressaca do mar, que tenta nos puxar novamente para dentro de si, e encerramos futuro num sopro de inspiração.

"Se eu for levar
Tudo comigo
Não vou chegar

Se eu carregar
Meu passado
Não vou chegar

Me apegar
Não quero mais
Me perguntar:
Há futuro?
Há futuro comigo?

Se perguntar não vou negar
Me carregar
Te carregar

Há futuro?
Há futuro comigo?”

Ouça o álbum completo: TARDA - Futuro




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