Funai prepara nomeação de missionário evangélico para chefia de coordenação

Em sua dissertação Ricardo Lopes Dias diz quais são os objetivos de sua organização, que, segundo ele, está em mais de 47 etnias no Brasil e 5 na África. “O foco é a implantação de uma igreja nativa Autóctone em cada etnia e para isso dispõe de treinamento bíblico, linguístico e transcultural próprio, além de uma consultoria técnica para assessoria estratégica e de acompanhamento espiritual por meio de visitas regulares da liderança aos missionários no campo.”

sexta-feira 31 de janeiro| Edição do dia

O presidente da Funai, Marcelo Xavier da Silva, delegado da Polícia Federal indicado ao cargo pela bancada ruralista do Congresso, planeja nomear um missionário evangélico para a chefia da coordenação de índios isolados e de recente contato.

Esta aliança entre latifundiários e Igrejas Evangélicas é um exemplo da política do governo Bolsonaro em avançar na destruição da cultura de povos indígenas e enfraquecer sua resistência, em nome do avanço do agronegócio na região Norte do país.

De acordo com fontes consultadas pela Folha de São Paulo, o nome proposto para o cargo é o de Ricardo Lopes Dias, teólogo formado por instituição financiada por Igrejas no Paraná. O evangelizador tem um extenso currículo de sua “experiência missionária na MNTB” (Missão Novas Tribos do Brasil), organização evangélica que na década de 90 foi expulsa pela Funai de regiões habitadas pela etnia zoés.

Para esconder sua missão de dominar e desestruturar grupos indígenas através da evangelização, graduou-se em Antropologia, misturando os aprendizados das técnicas antropológicas de colonização européia, que levaram ao genocídio e extermínio de povos inteiros, com os interesses das Igrejas Evangélicas. Ano passado, orientou um trabalho de pós-graduação nomeado: “Antropologia em missões: considerações sobre as apropriações da antropologia pelos missionários evangélicos contemporâneos”.

Em sua dissertação Ricardo Lopes Dias diz quais são os objetivos de sua organização, que, segundo ele, está em mais de 47 etnias no Brasil e 5 na África.

“O foco é a implantação de uma igreja nativa Autóctone em cada etnia e para isso dispõe de treinamento bíblico, linguístico e transcultural próprio, além de uma consultoria técnica para assessoria estratégica e de acompanhamento espiritual por meio de visitas regulares da liderança aos missionários no campo.”

Marcelo Xavier, para diminuir o peso do chamados “indigenistas” na Funai em defesa dos interesses dos ruralistas, alterou o regimento interno, transformando o cargo no qual pretende nomear o teólogo missionário de servidor público concursado para comissão. A coordenação de índios isolados é responsável por mais de 11 Frentes de Proteção Etnoambiental em sete estados da Amazônia e o acompanhamento da saúde e segurança de povos isolados ou de baixo contato. Justamente, umas das últimas fronteiras do agronegócio e dos mineradores no Brasil.

Defesa do agronegócio e mineradoras, assim como os ataques contra os povos indígenas e MST, são agenda constante de Bolsonaro

A destruição da Funai, com a crescente penetração de ruralistas e evangélicos em suas estruturas, já vêm tendo como consequência o crescente conflito entre povos indígenas e latifundiários, fato que sempre aconteceu no país mesmo nos governos anteriores. O assassinato de lideranças de povos indígenas bateu recorde nos últimos 11 anos, como aconteceu com Paulo Paulino, líder da etnia Guajajara.

Bolsonaro recentemente fez uma escandalosa declaração na qual disse que “cada vez mais índio é um ser humano igual a nós”. Em sua campanha defendeu nenhum centímetro de terra para os povos indígenas, colocando sob risco a política de demarcações e durante 2019 tomou medidas como a legalização da posse de armas nas áreas rurais, com o intuito de permitir que os jagunços dos latifundiários ameaçassem os povos indígenas e organizações pela terra como o MST.

Em dezembro de 2019, durante o aumento do preço das carnes, aproveitou para atacar os povos indígenas. "Temos de criar mais boi aqui para diminuir o preço da carne. Eles podem criar boi". Também aproveitou para defender o avanço do agronegócio nas regiões habitadas por povos indígenas. "Quero dar independência para eles. Se eles querem pegar a terra, arrendar para alguém plantar soja, milho, faça isso. Respeitando a legislação".

Não é só o governo. Em agosto, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou parecer pela admissibilidade de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê atividades agropecuárias e florestais em terras indígenas.

A presença de um teólogo missionário na chefia da coordenação de índios isolados, nada mais visa do que o enfraquecimento das estruturas sociais e culturais destes povos, minando sua resistência contra a invasão de seu território por madeireiros, mineradores, latifundiários.

A conversão religiosa por “missões” é uma forma eficaz - e isso tanto o pretendente ao cargo como o presidente da Funai sabem muito bem - de oprimir e exterminar povos, como bem prova a história da América Latina e as dezenas de milhões de mortos pela colonização européia ao redor do mundo.

Pretendem avançar na agenda contemporânea de colonização das fronteiras geográficas da economia predatória do capitalismo, no caso as reservas ambientais e territórios indígenas ao norte do País. A aliança entre latifundiários e Igrejas Evangélicas expressas na preparação da nomeação de um missionário para cargo chave da Funai são exemplo dessa “missão” do governo em sua defesa de latifundiários e os gigantes do agronegócio e da mineração.




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