Política

RELATO DE AGRESSÃO

"Fui agredida em plena sessão, aos olhos da Guarda e dos vereadores"

"Levei tapas na cara e empurrões de um sujeito que empunhava uma bandeira com o símbolo do Integralismo. É sintomático que isto tenha acontecido quando da votação da emenda à Lei Orgânica do Município, de autoria do vereador Campos Filho (DEM), que proíbe o debate de gênero e de orientação sexual nas escolas de Campinas – a famigerada emenda da opressão. As sessões anteriores já haviam sido marcadas por essa polêmica e pelos discursos de ódio, intolerância, machistas, homofóbicos e transfóbicos propagados pelos vereadores defensores da emenda."

terça-feira 7 de julho de 2015| Edição do dia

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"É sintomático também que Campos Filho, Jorge Schneider, Cid Ferreira, Gilberto Vermelho e seus parceiros se aliem ainda aos Integralistas - movimento influenciado pelo Facismo no Brasil.

Naquele dia, eu estava lá na Câmara, em vigília desde às 13h (a sessão se iniciava às 18h), junto a centenas de ativistas, movimentos, coletivos, entidades, estudantes, professoras e professores justamente para dizer que a proibição do debate de gênero nas escolas legitima e estimula que os casos de discriminação, intolerância e violência contra as mulheres e contra LGBTs continuem ocorrendo, se aprofundem, sejam naturalizados.

Chegamos cedo para garantir que conseguiríamos participar da sessão e exercer esse direito democrático, já que outras vezes os vereadores deram um golpe e levaram ônibus com pessoas principalmente ligadas à Igreja para que estas lotassem o plenário e impedissem a nossa entrada. Eu estava lá, perplexa e inconformada, para manifestar minha indignação (que não é só minha, mas de milhões) diante do retrocesso que essa emenda significa para os direitos humanos, para a democracia, para a educação, para o combate a toda forma de violência e opressão... e fui violentada! Passei a fazer parte das estatísticas e dos argumentos que repeti tantas vezes durante esta mesma sessão, por exemplo, que o nosso país tem índices epidêmicos de violência contra a mulher, que vivemos uma cultura machista, patriarcal, extremamente violenta, que nossas instituições políticas estão permeadas por estes valores, que esta é a real “ideologia de gênero” dominante que deve ser combatida, que subjulga a mulher e a coloca numa posição de subalternidade e vulnerabilidade.

Fui agredida por um homem em plena sessão, aos olhos da Guarda e dos vereadores. Esse ato lamentável, grotesco, absurdo e covarde partiu daqueles que se dizem “defensores da família” e “do lado de Deus”. Cabe lembrar que a grande maioria dos casos de violência contra a mulher é doméstica, acontece exatamente dentro de casa, por parte de algum familiar. A família, hoje em dia, infelizmente, tem sido promotora sistemática de violência. Meu agressor, que teve cobertura vergonhosa da Guarda Municipal para sair impune pelos fundos da Câmara, pode ser filho, irmão, tio, pai, marido. A minha luta e a luta contra esse emenda é pelo fim da violência nas famílias, inclusive, e para que mulheres como a mãe dele, a filha dele, a irmã dele, a sobrinha dele, a esposa dele e tantas outras, como eu e elas, não sofram mais violência, sejam respeitadas, possam viver em paz, com autonomia e dignidade. Na família que a gente quer, homem não bate em mulher! A maior parte dos vereadores resolveu por seguir a sessão como se um crime não tivesse acontecido lá dentro e acabaram por aprovar a emenda da opressão em primeiro turno.

O descaso da Guarda Municipal foi ainda mais longe: depois da sessão, me acompanharam até a Delegacia para o registro do Boletim de Ocorrência, mas levaram um outro homem, alegando que era este o autor da agressão e dizendo que o BO deveria ser feito contra o sujeito ali presente. Ao descobrir que o verdadeiro agressor é membro da Polícia Federal, entendi porque tamanha movimentação da Guarda para acobertá-lo de qualquer forma. Como se não bastasse toda a violência que sofri lá dentro, dois dias após o ocorrido, o agressor me procurou no facebook e mandou mensagem de intimidação e ameaça. Registrei novo Boletim de Ocorrência.

A emenda da opressão mostrou a que veio: foi votada, não por acaso, se valendo da violência contra a mulher. Os vereadores e seus defensores agressores não nos calarão! Machistas, não passarão! Pelo fim da violência contra as mulheres! Abaixo a emenda da opressão!"

Uma enorme campanha em solidariedade à Carolina Filho está circulando nas redes sociais, através de moções, charges, vídeos etc. O Esquerda Diário repudia a violência cometida contra Carolina na câmara dos vereadores de Campinas, bem como a aprovação da emenda da opressão, que significa uma tentativa de amordaçar os professores que ousam combater a ideologia de preconceito e violência contra mulheres e LGBTs.




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