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Eleições argentinas | Frente de Esquerda: o significado dos resultados da FIT-U diante de um país em crise

A derrota nacional do Governo - apesar da paridade na província -, a profundidade da crise e o triunfo de uma direita que tem suas próprias disputas internas, confirmam que vamos a uma segunda metade do mandato do presidente Alberto Fernandez atravessada por uma instabilidade permanente. A Frente de Esquerda e o significado de ser uma terceira força nacional e conquistar novas bancadas: o desafio de se preparar para o que se avizinha em um horizonte obscurecido pelo FMI.

Fernando ScolnikBuenos Aires | @FernandoScolnik

segunda-feira 15 de novembro | Edição do dia

Ao final desta eleição, e com o escrutínio provisório quase concluído em todo o país, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade (FIT-U), cuja principal organização é o PTS, partido irmão do MRT, consolidou um grande resultado. Com quase 1,3 milhão de votos em todo o país, conquistou quatro cadeiras nacionais, dois legisladores pela Cidade de Buenos Aires, dois deputados da Terceira Seção Eleitoral da província de Buenos Aires e vários vereadores deste mesmo distrito, o mais importante do país. Em relação às PASO, houve um crescimento de mais de 20% dos votos.

Ao mesmo tempo, a FIT-U dá um salto importante no contexto de uma grande crise, consolidando-se como a terceira força nacional (embora distante das maiores coligações) e confirmando o seu lugar como uma das forças políticas relevantes da realidade nacional.

Olhando para frente, é uma conquista para a luta por outra saída diante de uma crise que só se tornará mais aguda no próximo período. Ao mesmo tempo, apresenta-nos um importante desafio de multiplicar as forças militantes e preparar-nos para os grandes acontecimentos da luta de classes, onde serão resolvidos os próximos estágios da crise.

Nicolás del Caño e Myriam Bregman (PTS), no centro político do país, chegarão
mais uma vez ao Congresso Nacional. Em ambos os distritos, a FIT-U fez sua melhor campanha. Na província de Buenos Aires, com quase 600.000 votos (6,82%), entraram o próprio Del Caño e Romina del Plá (PO), além de dois deputados provinciais (Guillermo Kane - PO - e Graciela Calderón- IS) e vários vereadores em diferentes municípios dos subúrbios (La Matanza, Merlo, Moreno, José C. Paz, e se batalha por uma em Florencio Varela, Morón e outras localidades), mostrando o avanço da esquerda nos setores populares mais profundos da província.

Na Cidade, pela primeira vez em 20 anos a esquerda chega ao Congresso Nacional do distrito, liderada por Myriam Bregman (PTS), que obteve 7,76% (mais de 141 mil votos) e Gabriel Solano que também ingressou como legislador (PO) e Alejandrina Barry (PTS). Por sua vez, Luis Zamora da Autodeterminação e Liberdade obteve 3,07%, somando a esquerda como um todo quase 11% dos votos na capital do país.

Junto com esses grandes resultados, Jujuy deu um solavanco histórico: Alejandro Vilca, dirigente do PTS e catador de lixo, consolidou uma eleição monumental e chegará ao Congresso Nacional após ter obtido 25% dos votos (pouco mais de 100.000 votos). Uma voz da classe operária socialista com descendência indígena Kolla ocupará uma bancada operária, desafiando o regime de direita de Gerardo Morales e seguindo a tradição de lutadores operários e deputados do PTS e da FIT-U como Raúl Godoy, Andrés Blanco e Claudio Dellecarbonara.

De cara com 2022, por sua vez, a FIT-U também seguirá tendo representação parlamentar em Neuquén com dois deputados provinciais e dois vereadores, em Córdoba com dois legisladores e um vereador, e em Jujuy com três vereadores que haviam sido obtidos nas eleições provinciais adiantadas deste ano.

Uma batalha na qual o mais importante ainda está por vir

A importância do resultado da esquerda, das ideias pelas quais lutamos na campanha eleitoral e a militância de milhares de pessoas em todo o país, devem ser entendidas como uma tarefa preparatória para o que está por vir, em um contexto determinado.

A convocação de um acordo nacional com a oposição de direita para um compromisso econômico plurianual, ratificada pelo presidente Alberto Fernández na noite de domingo, é um termômetro e uma expressão dos tempos que estão por vir.

Nos próximos anos, o futuro será marcado por uma crise monumental e impagável dívida com o FMI, credores privados e outros organismos como o Clube de Paris. Desde o início, é preciso lembrar que a Frente de Todos partia do princípio de que iria tentar administrar a herança macrista, em vez de rejeitá-la.

Essa política, realizada em nome da “correlação de forças”, já implicava, antes do
surgimento da pandemia, uma trajetória de reajuste nas pensões e salários, e mesmo após o primeiro ano do coronavírus, sobre o IFE ou mesmo do orçamento da saúde, enquanto o capital financeiro, os proprietários de terras e outros grandes empresários continuaram a ganhar milhões. O resultado é que a pobreza é atualmente de 40%.

Esse curso, que agora será aprofundado com o acordo com o FMI, foi defendido por referentes como Leandro Santoro e enunciado em nome do "realismo". Contém uma filosofia de resignação conservadora, incapaz de pensar em outro horizonte, a não ser culpar Macri pelo tosco presente. Nesse contexto, hoje buscam apoio de setores da direita peronista como Manzur, a CGT "reunificada" ou um acordo com a oposição de direita, pensando em ter "governabilidade" para sustentar um plano de ajuste que só fará aumentar o descontentamento popular.

Esse futuro é atormentado por incógnitas, por diversos fatores: a própria fraqueza do governo após sua derrota (apesar de ter reduzido a diferença na província de Buenos Aires) e a perda da maioria no Senado; as disputas dentro do governo que vieram à tona depois do PASO e são uma questão para o futuro; assim como os as disputas na direita, que são divididos em sua competição por quem está mais bem posicionado para as eleições presidenciais de 2023.

Contra essas políticas, a campanha da Frente de Esquerda, que teve como dois de seus principais eixos a rejeição do reajuste e submissão ao FMI, bem como a luta pelas seis horas de trabalho, cinco dias por semana, com salário igual à cesta básica familiar, entre outros eixos como as lutas de gênero e pelo meio ambiente, conquistou expressiva simpatia popular em um contexto na qual a realidade de milhões se choca de frente com as expectativas de um governo que havia chegado ao poder com a promessa de “encher a geladeira ”. E fez o contrário, enquanto escândalos como a vacinação VIP ou o aniversário na Quinta de Olivos aumentavam o descontentamento.

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Muito antes das urnas, ou dos resultados, o bom resultado da esquerda já havia sido antecipado pelo termômetro das ruas. O La Izquierda Diario vinha refletindo isso em centenas de depoimentos: “Em 2019 votei no Alberto, mas devemos dar uma chance à esquerda que não está à venda”, disse-nos um trabalhador de uma fábrica suburbana. “É bom que tragam as propostas, porque a cada dia vamos ter uma crise maior e eles querem que nós trabalhadores paguemos, como sempre" acrescentou o colega.

Ou em San Justo, onde um bancário perguntou-nos, muito interessado, como se podem concretizar as seis horas de trabalho, “porque os empresários não vão querer”. Enquanto em Morón, um assistente escolar duvidou do partido no poder e nos disse que "até que meu bolso não sinta que os supostos preços estão sendo cuidados, não acredito em nada".

Também por parte daqueles que lutavam pelo salário, contra a precariedade do trabalho ou pelo seu emprego, essa aproximação com a esquerda se fez sentir: “Hoje eles têm o nosso apoio como nós tivemos o de vocês”, disseram-nos numa fábrica em La Matanza. São a expressão das centenas de conflitos operários e populares que se desenvolveram e que encontraram apoio da esquerda.

Em Jujuy, saiu das entranhas dos trabalhadores uma mensagem profunda: “Podemos desafiar os poderosos” foi o que alguns sentiram com o surgimento de Alejandro Vilca e da Frente de Esquerda na província.

Estes são apenas alguns exemplos dos milhares que vieram de todo o país. Com uma campanha levada a cabo aos pulmões e desde baixo durante meses por trabalhadores, mulheres e jovens de todo o país, contra os aparatos dos poderosos, a FIT-U não só conquistou novas cadeiras que serão novos pontos de apoio às lutas, mas também semeou algumas ideias fundamentais como as mencionadas acima.

A partir do PTS consideramos esses resultados, e tendo instalado palavras de ordem como a necessidade de romper com o FMI com base no desconhecimento soberano da dívida, ou a nossa proposta de distribuição da jornada de trabalho contra os planos de reforma trabalhista das classes dominantes, não como objetivos em si mesmas, mas como pontos de apoio para avançar na conquista de um referencial político maior que será decisivo para os próximos episódios convulsivos que surgirão na crise.

Esse caminho não exclui, mas na verdade faz com que seja necessário debater as diferenças dentro dos partidos da FIT-U, como as relativas à organização dos trabalhadores empregados e desempregados, sua relação com o Estado ou a coordenação democrática das lutas.

Os três deputados nacionais que o PTS obteve, dos quatro que ganhou a FIT-U, assim como os nossos legisladores provinciais e municipais, estarão ao serviço da luta para promover a organização dos sectores mais avançados na luta de classes para enfrentar a crise (apoiando cada luta e denunciando e exigindo que a burocracia sindical saia de sua passividade cúmplice) e a multiplicação cada vez mais necessária de nossas forças militantes, a caminho da construção de um partido que lute por uma alternativa socialista e operária e esteja à altura da luta por outra saída da crise.

Os desafios mais importantes são os que estão por vir.




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