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França: um jovem trabalhador de origem imigrante nas eleições presidenciais?

Revolution Permanente

Imagem: Anasse em uma reunião do "Pôle Saint-LAzare" com Assa Traoré, em 6 de dezembro de 2018.
Tradução: Lina Hamdan

França: um jovem trabalhador de origem imigrante nas eleições presidenciais?

Revolution Permanente

No domingo, 4 de abril, Anasse Kazib, militante da Corrente Comunista Revolucionária, organização irmã do MRT na França, anunciou publicamente sua pré-candidatura, submetida ao debate interno do NPA, para a eleição presidencial francesa de 2022. Nesse artigo, fazemos uma breve retrospectiva do significado e do potencial dessa iniciativa.

Artigo publicado originalmente em Révolution Permanente.

Nos últimos anos, a França vem atravessando importantes processos de luta de classes. Neste marco, a Corrente Comunista Revolucionária (CCR) do NPA (Novo Partido Anticapitalista) que impulsiona o jornal Révolution Permanente (parte da Rede Internacional La Izquierda Diario) vem lutando pela perspectiva de pôr de pé um partido revolucionário de trabalhadores no país. Parte dessa batalha se expressa hoje na apresentação da pré-candidatura para as eleições presidenciais de 2022 de Anasse Kazib, membro da CCR, trabalhador ferroviário e uma das principais referências da vanguarda que vem protagonizando estes recentes processos de luta. Nesse artigo, apresentamos brevemente o significado e o potencial dessa iniciativa.

Veja também: A nova geração operária na França e a necessidade de um Partido Revolucionário dos Trabalhadores

As presidenciais de 2022 e a falta de expressão política da principal oposição a Macron

A campanha presidencial de 2022, iniciada extra-oficialmente em 11 de fevereiro com o debate entre Darmanin (Ministro do Interior do governo Macron) e Le Pen (líder do partido de extrema-direita Rassemblement National), contrasta fortemente com um mandato de cinco anos marcado por protestos populares muito fortes, com contestações pela esquerda, em oposição à política do governo Macron.

Desde a grande greve contra a reforma privatista da empresa pública de transporte ferroviário francesa (SNCF), em 2018, até o movimento histórico contra a reforma da previdência (2019/20), passando pela erupção espontânea dos Coletes Amarelos (2018/19) e o envolvimento de uma camada da juventude nas mobilizações anti-racistas e em defesa do meio-ambiente, a principal oposição que Macron encontrou foi as lutas dirigidas pela classe trabalhadora e a juventude.

No entanto, da maneira como o quadro das presidenciais está emergindo hoje, esta poderosa oposição corre o risco de ser o grande ausente da eleição, dando espaço a um possível duelo Macron x Le Pen, completamente distante das aspirações da grande maioria dos trabalhadores e das classes populares.

De fato, nenhuma das correntes políticas que se afirmam de esquerda encarna esta radicalidade expressa nas ruas, nos trevos rodoviários (pontos de mobilização dos Coletes Amarelos) e nos piquetes. Por um lado, estão aqueles que defendem o enésimo retorno da "unidade da esquerda", no caso entre o Partido Socialista que, em alternância com a direita, conduziu por 40 anos as políticas neoliberais na França, e o EELV (os Verdes), perfeitamente integrado ao sistema e defensor do “capitalismo verde". No outro lado do campo da esquerda, há a candidatura de Mélenchon, que oscila entre a defesa das instituições da República e um discurso soberanista de esquerda, que busca disputar a hegemonia pela esquerda para canalizar a raiva "para as urnas". Uma lógica institucional que, tendo como pano de fundo o discurso populista que visa diluir o movimento operário como setor social fundamental em uma massa cidadã, pena para conseguir entusiasmar os atores e apoiadores das últimas mobilizações.

Portanto, não é por acaso que, apesar da intensidade da luta de classes dos últimos anos, a muito boa votação obtida por La France Insoumise (LFI), o partido de Mélenchon, em 2017 não se refletiu nas últimas eleições intermediárias de 2020 e, por enquanto, nem nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2022.

Uma pré candidatura para amplificar a voz e a radicalidade de nossas lutas

A pré-candidatura de Anasse Kazib vem justamente para tentar preencher esse vazio. Filho de um trabalhador ferroviário imigrante e neto de um fuzileiro marroquino, é um dos rostos de uma nova geração de trabalhadores que emergiu desde 2016, no seio da luta de classes.


Imagem: Coluna da Coordenação RATP-SNCF 16 de janeiro de 2020 em manifestação contra a reforma da previdência.

Figura emblemática da greve dos ferroviários de 2018 e da greve contra a reforma da previdência, esteve à frente de uma luta acirrada contra as estratégias derrotistas das direções sindicais e para que fossem os trabalhadores organizados pela base que decidissem cada passo do movimento, seja por meio de reuniões inter-estações em 2018 ou da Coordenação RATP-SNCF em 2019-2020.

Quando estourou a revolta dos Coletes Amarelos, ele foi um dos primeiros a se solidarizar com este movimento, ao encabeçar uma marcha de trabalhadores ferroviários na Champs-Elysées em 24 de novembro de 2018, ao organizar o "Pôle Saint-Lazare" junto ao Comitê Adama Traore ou denunciando abertamente a traição das direções sindicais em relação a este movimento.


Imagem: Anasse em uma assembleia

Participante por quase dois anos do "Grandes Gueules" (famoso programa de debate ao vivo sobre atualidades, transmitido diariamente na França), ele se fez conhecido como uma voz revolucionária e internacionalista intransigente, defendendo sistematicamente os trabalhadores, os jovens, os ativistas de bairros operários e os Coletes Amarelos, enfrentando a retórica reacionária que abunda neste programa. Seja no "Grandes Gueules" ou em outros programas, em várias ocasiões suas intervenções colocaram em apuros políticos profissionais de diferentes lados, como no debate com o Ministro dos Transportes, Jean-Baptiste Djebarri, que Anasse deixou humilhado, dando força ao conjunto dos grevistas do setor em luta contra a reforma da previdência.

A candidatura deste trabalhador ferroviário de 34 anos permitiria encarnar em 2022 uma orientação revolucionária e de luta de classes, independente da esquerda governamental e institucional, incluindo as suas variantes supostamente mais "radicais", e assim expressar nas eleições as conquistas da luta de classes dos últimos anos, em toda a sua riqueza e variedade. Também permitiria promover em larga escala a ideia de que os trabalhadores devem tomar seus assuntos em suas próprias mãos se não querem pagar a conta da crise e que, diante do bloco burguês no poder, é urgente construir uma aliança operária e popular dos trabalhadores e explorados para derrotar Macron, Le Pen e os grandes capitalistas que os apoiam.

Voto útil?

Perante o perigo de um segundo turno dominado pela direita e pela extrema direita, é compreensível que se levantem vozes pela unidade da esquerda como um “mal menor”. As experiências do passado mais ou menos recente mostram, no entanto, que esta nunca foi uma resposta eficaz contra as políticas capitalistas ou mesmo contra a extrema direita. Desde Mitterrand (1981-1995) à Hollande (2012-2017), os distintos governos de "esquerda" terminaram sempre aplicando o programa da direita, inclusive o da extrema direita (como a perda de nacionalidade para aqueles que cometerem crimes graves, em 2016), e é por causa das desilusões com a esquerda que o partido de extrema-direita, Rassemblement National, ampliou o seu eleitorado.

E mesmo quando se trata de governos da chamada "esquerda radical’’ europeia, mas que atuaram principalmente no campo institucional, os balanços a serem feitos estão longe de ser positivos. Levado ao poder por uma grande onda de lutas em 2015 na Grécia, o partido Syriza traiu, sob pressão da "Troika europeia", todas as aspirações populares, empurrando reformas neoliberais e privatizando além das expectativas até mesmo da própria classe dominante. Celebrado pelo Financial Times, Alexis Tsipras desacreditou, assim, o conjunto da esquerda anticapitalista e abriu caminho para o retorno da direita ao poder. Pensar que a França poderia ter uma saída distinta dessa, caso Mélenchon ganhasse as eleições, apenas por ser uma potência mais importante do que a Grécia na Europa é uma ilusão, ainda mais sendo a LFI uma força política que não se apoia na força organizada dos trabalhadores.

Vídeo Youtube: Olivier Besancenot, Anasse Kazib, Eric Drouet em debate no programa QG

Da mesma forma, na Espanha, o Podemos continuou a multiplicar suas traições à medida em que se integrava ao regime. Depois de ter atacado o grande movimento democrático na Catalunha em 2018 (em defesa da autodeterminação dos catalães), encobrindo a repressão do regime espanhol com uma retórica conciliatória, sua entrada no governo de coalizão com o PSOE tornou-o cúmplice das piores políticas: plano de ajudas massivas à patronal, aumento no preço de eletricidade em meio a uma onda de frio, oposição à liberação de patentes na OMC, manutenção de leis repressivas como a lei da mordaça, tratamento desumano de migrantes nas Canárias, etc.

A realidade é que enquanto os grandes capitalistas franceses, os Arnault, os Bettencourt, os Bolloré, os Pinault, os Mulliez e os Drahi tiverem os meios de produção, de distribuição e de comunicação em suas mãos, não haverá salvação para os trabalhadores e as classes populares. Ainda mais quando estamos entrando em uma fase de crise capitalista que fará cair todos os custos sobre nossos ombros. Por isso, o verdadeiro voto útil nas eleições presidenciais é um voto de classe, que contribua para preparar nossas lutas e dar-nos a possibilidade de conquistar vitórias até acabar com esse sistema de miséria e exploração.

Uma pré-candidatura que materializa um projeto político de longo prazo, o de um Partido Revolucionário dos Trabalhadores

Em um contexto geral onde, paradoxalmente, a esquerda que se afirma ter uma perspectiva revolucionária nunca foi tão marginal apesar dos fenômenos de radicalização e de luta de classes, a pré-candidatura de Anasse Kazib não deixou de criar turbulência, especialmente dentro do Novo Partido Anticapitalista, do qual a CCR-Révolution Permanente é uma das correntes componentes. Atravessado por uma crise que vem de longe, este partido encontra-se de fato dividido entre diferentes projetos políticos, que não deixam de encontrar a sua expressão no debate sobre as eleições presidenciais.

Um setor, considerando que o fracasso do NPA se deve principalmente ao seu isolamento do resto da "esquerda radical’’, já está promovendo listas conjuntas com o partido La France Insoumise, de Mélenchon, em certas regiões como Nouvelle-Aquitaine. Obviamente, com essa lógica, esse setor não vê sentido em apresentar um candidato revolucionário independente, ou deseja considerar apresentá-lo apenas como moeda de troca, visando retirá-lo em favor de uma lista unitária.


Imagem: Assembleia Geral na Gare du Nord em 5 de dezembro de 2019

É esse setor, que inclui o ex-candidato à presidência Philippe Poutou, que está por trás da falaciosa declaração de que a pré-candidatura de Anasse não é legítima. Na realidade, os estatutos do NPA nada dizem sobre os métodos de nomeação dos candidatos. Neste contexto, nada impede que um membro da sua direção nacional, como Anasse, proponha a sua candidatura, seja apoiado por parte dos militantes ou mesmo que o discuta publicamente com uma parte dos atores da luta de classes nos últimos anos.

Uma luta de classes frente à qual o NPA, e sobretudo a sua direção majoritária, se isolou sistematicamente, o que dá um carácter esclerosado aos debates internos do partido e leva todos a tentarem experimentar a sua própria política. É isso também que Philippe Poutou faz através da lista On est là! na Nouvelle-Aquitaine (que não foi validada por militantes do partido ou mesmo da região), assim como companheiras como Christine Poupin, também porta-voz do partido, que se comprometeu publicamente com a construção de uma nova organização, com contornos ainda mais frouxos que os do NPA.

Diante disso, a pré-candidatura de Anasse busca afirmar a necessidade de uma candidatura revolucionária independente para as eleições presidenciais, que encarne o melhor das experiências de luta de classes dos últimos anos, mas também fazer do NPA a alavanca para a construção de uma organização revolucionária à altura dessas experiências e das batalhas que temos pela frente. Encarna assim, para além da figura de Anasse, a nova geração de trabalhadores e de jovens que lutam contra o capitalismo, que os revolucionários deveriam procurar organizar politicamente, indo além das fronteiras e dos limites da extrema esquerda atual.

É por isso que tal candidatura pode constituir um teste e um ponto de partida para a construção de um Partido Revolucionário de Trabalhadores, capaz de atrair centenas, senão milhares, de trabalhadores e jovens que se politizaram e se radicalizaram nos últimos anos para tentar estar à altura dos desafios do período vindouro. Um período de profunda crise do capitalismo e inevitáveis ​​explosões sociais, para as quais será decisiva a construção de uma ferramenta revolucionária que seja independente de todas as variantes da esquerda institucional e que não seja marginal.


Grevistas de Infrapôle, Grandpuits et Sanofi, 4 de fevereiro de 2021.

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