Internacional

1º DE MAIO INTERNACIONALISTA DA FRAÇÃO TROTSKISTA

França: "Os últimos acontecimentos mostraram que a classe trabalhadora nunca foi tão importante e tão grande"

Confira a intervenção de Anasse Kazib no Ato Internacionalista de 1º de Maio da Fração Trotskista - Quarta Internacional (FT-QI). Anasse é trabalhador ferroviário francês e militante da Corrente Comunista Revolucionária (CCR) no NPA e pré-candidato presidencial.

sábado 1º de maio| Edição do dia

Anasse Kazib tem origem imigrante, e hoje atua na Corrente Comunista Revolucionária (CCR), organização parte da Fração Trotskista - Quarta Internacional (FT-QI). Sua atuação vem no sentido de fortalecer a classe trabalhadora francesa, que tem sido um grande exemplo internacional na luta de classes, como vimos com os exemplos dos coletes amarelos, e mais recentemente com a greve na refinaria Total de Grandpuits.

Confira a fala dele no Ato Internacionalista no 1º de Maio:

“Olá a todos, meu nome é Anasse Kazib, sou trabalhador ferroviário, militante do NPA-Revolução Permanente. É uma grande honra e um grande orgulho para mim encerrar esse vídeo internacionalista, depois das intervenções de tantos camaradas valiosos.

Nesse primeiro de maio, queria começar enviando minhas saudações fraternais, revolucionárias e internacionalistas ao conjunto da classe trabalhadora de todo o mundo. Durante muito tempo quiseram fazer a gente acreditar que a classe trabalhadora estava em forte declínio. Mas os últimos acontecimentos mostraram o contrário, que a classe trabalhadora, a de todos os que não tem alternativa a não ser vender sua força de trabalho para viver, nunca foi tão importante e tão grande.

Não sou eu quem diz isso, é a Organização Internacional do Trabalho que mostrou em um estudo que nos últimos 20 anos, a classe trabalhadora cresceu mais de 25%.

Apesar da inteligência artificial e da automação que levaram a uma redução dos efetivos em um bom número de setores, isso é mais do que compensado pelos patrões e os capitalistas em outros setores, porque a patronal e o capitalismo sempre tem a necessidade de explorar nossa força de trabalho para extrair sua mais-valia.

Durante a pandemia nós vimos a que ponto a classe trabalhadora é essencial. Somos nós, a educação pública, a saúde, os transportes, o agro-alimentar, os logísticos, nós que mantemos a humanidade operando. Enquanto os patrões, os capitalistas, eles estavam escondidos em suas casas de férias, fomos nós que estivemos na primeira linha frente ao Covid-19.

Mas além da nossa força durante a crise sanitária, nós mostramos, através da luta de classes, a força dos trabalhadores. Porém, aqui na França, após vários anos de derrotas, as estratégias das direções sindicais começaram a minar a própria ideia de que a greve fosse um método eficaz.

No entanto, os trabalhadores dos transportes demonstraram em 5 de dezembro de 2019, através de uma greve massiva e ilimitada, que a força dos trabalhadores é de fato a greve. Durante 2 meses nós lutamos de maneira aguerrida contra o governo Macron e sua reforma da previdência. Apesar dos pedidos das direções sindicais por uma trégua durante os feriados de Natal, nós grevistas da base mantivemos a greve, graças à Coordenação RATP-SNCF [de ferroviários e transportes urbanos]. Os meios de comunicação falaram naquele momento de um “ressurgimento da base” e de um possível uma possível superação da direção sindical pela base.

O problema é que a classe trabalhadora se encontra dividida e pouco consciente da sua força. Aqui na França, nos últimos anos, vimos todos os setores da nossa classe se levantarem um a um, mas de forma dispersa e separada. Em 2016 contra a Lei El Khomri, que foi a reforma trabalhista, nós tínhamos a juventude e os segmentos importantes do setor privado. Em 2018, uma batalha importante contra a reforma ferroviária com essa categoria, e se seguiu a luta dos trabalhadores dos trabalhadores dos subúrbios franceses, encarnada pelos Coletes Amarelos. Em 2019 uma batalha central contra a reforma das aposentadorias do governo Macron, com uma expressão importante, a dos transportes públicos com a RATP e a SNCF, sem esquecer o conjunto das mobilizações feministas, antirracistas e pelo clima.

E para além até mesmo dos nossos diferentes setores, nossa classe está dividida entre efetivos e precários, entre as matrizes e as subcontratadas, entre sindicalizados e não sindicalizados, homens e mulheres, e igualmente entre trabalhadores franceses e imigrantes… Tudo isso a burguesia e a extrema direita de Marine Le Pen utilizam para poder nos colocar uns contra os outros.

É por isso que nós devemos fazer exatamente o contrário, temos que construir pontes entre nossas lutas e nossas demandas, mas também a classe trabalhadora tem que se colocar no centro dos problemas da sociedade: o racismo, a opressão das mulheres e das pessoas LGBT, bem como do conjunto das questões ligadas ao ambiente.

Isso é o que viemos tentando fazer, nas nossas proporções, na França, e eu vou tentar lhes dar dois exemplos para explicar isso:

O primeiro exemplo é o do movimento dos Coletes Amarelos. No início, a burguesia, mas também a esquerda, falaram que se tratava de um movimento de extrema-direita. Prova disso é que as direções sindicais emitiram em 6 de dezembro um comunicado condenando o movimento dos Coletes Amarelos e principalmente a violência no Arco do Triunfo no 1º de dezembro, em vez de, ao contrário, condenar a violência policial. Diferente disso, com um coletivo de ferroviários, mas também em aliança com o Comitê Justiça e Verdade para Adama, conduzido por Assa Traoré, nós nos somamos ao movimento dos Coletes Amarelos, e chamamos o conjunto do nosso campo social a fazer o mesmo e participar dessas grandes mobilizações.

O segundo e mais recente exemplo é o da luta dos petroleiros de Grandpuits. Vimos pela primeira vez uma aliança inédita entre refinadores em greve e militantes ecológicos. Durante esse período, a Total falava que seu plano social era na verdade uma transição ecológica, só que o conjunto dos grevistas e os ativistas ambientais demonstraram que, ao contrário, se tratava de um greenwashing e que a única maneira de realmente fazer a transição ecológica é justamente através do controle operário dos meios de produção, mas também ao lado da militância ambiental. Como disse meu camarada Adrien Cornet, um dos principais organizadores dessa greve em Grandpuits, são os trabalhadores que têm o maior interesse nessa transição ecológica, porque são eles que passeiam com seus filhos nos bosques e ao longo da margem dos rios.

Mas nada disso ocorreu espontaneamente, e sim foi produto da intervenção consciente dos revolucionários. Depois dos últimos 5 anos, o conjunto dessa força social que nós pudemos conhecer, mas também dessa força popular, pode vir a se dissipar se não for cristalizada em um projeto consciente de derrubada do sistema capitalista.

Na França, as organizações que dizem ser revolucionárias, e em particular as do movimento trotskista, foram historicamente fortes, inclusive conseguindo 10% de votos nas eleições. Paradoxalmente, a extrema esquerda não conseguiu capitalizar nem intervir durante a última fase da luta de classes, onde vimos destacadamente o surgimento de uma nova geração operária e radical.

No entanto, junto com outros camaradas, sou a prova viva de que a fusão entre o marxismo revolucionário e essa nova geração operária combativa é possível. É por isso que aqui na França nós apresentamos a ideia de um Partido Revolucionário dos Trabalhadores. É uma batalha que demos ao longo de anos dentro do NPA, e hoje com esse giro à direita da direção historicamente majoritária, e do risco de implosão do NPA, nós defendemos publicamente esse projeto e nos dirigimos aos militantes da organização Lutte Ouvrière, mas também à essa nova geração operária, para oferecer perspectivas revolucionárias sobre o que está por vir.

Esse é o sentido da minha pré-candidatura às eleições presidenciais em um NPA dividido entre uma orientação revolucionária e a perspectiva de acordos eleitorais com os reformistas do La France Insoumise, como os que estamos prestes a ver no sul da França, em Occitanie ou em Nouvelle-Aquitaine. Esses acordos são uma capitulação porque preparam o terreno à futura campanha presidencial do soberanista de esquerda e ex-ministro Jean-Luc Mélenchon, e também porque esses acordos eleitorais em Occitanie e em Nouvelle-Aquitaine preparam para o segundo turno as alianças com partidos burgueses como o Partido Socialista e o Europa Ecológica - Os Verdes. É uma linha vermelha que foi cruzada por uma parte do NPA, que por falta de estar suficientemente delimitado da esquerda reformista, foi menos ainda do PS. É a mesma linha que foi cruzada em outros países por partidos amplos como o que pudemos ver no Estado Espanhol, na Itália ou ainda em Portugal.

Nesse contexto, a luta que estamos dando no NPA é uma batalha para reabilitar aqui na França um trotskismo que esteja à altura da luta de classes dos últimos anos, mas igualmente dos desafios que temos diante de nós. A luta que encabeçamos aqui na França, em um país que esteve no coração do movimento trotskista, onde foi fundada em 1938 a IV Internacional, é para nós inseparável da luta no caminho da reconstrução de uma internacional revolucionária.

Esse é o projeto que nós propomos a todos vocês, junto com os camaradas da FT com os quais publicamos um Manifesto frente ao desastre capitalista e por uma internacional da revolução socialista, um projeto de que gostaríamos de convencer milhares de trabalhadores e jovens ao redor do mundo, para que não sejamos nós a pagar pela crise e igualmente para abrir caminho a uma sociedade livre de toda forma de exploração e opressão.”

Leia aqui o Manifesto internacional O desastre capitalista e a luta por uma Internacional da Revolução Socialista




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