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Trotskismo | França: Homenagem a Alain Krivine (1941-2022), um militante da revolução

Fundador da Liga Comunista Revolucionária (LCR) e do Novo Partido Anticapitalista (NPA), figura histórica do trotskismo francês, Alain Krivine lutou durante toda sua vida contra o capitalismo. Uma homenagem, originalmente publicada na seção francesa da Rede Esquerda Diário, a um militante da revolução com o qual compartilhamos combates e debates.

quarta-feira 16 de março | Edição do dia

Créditos Foto : Flora Carpentier (Révolution Permanente) - Evento do NPA Saint-Ouen durante as eleições municipais de 2014.

A notícia da morte de Alain Krivine, aos 80 anos, teve o efeito de uma grande bomba na extrema-esquerda, na França e internacionalmente. Independente dos desacordos que nós pudemos ter com ele, sua trajetória e sua fidelidade a uma luta que ele soube encarnar durante mais de seis décadas contra o sistema capitalista só podem suscitar emoção e tristeza..

Eric, Delphin, Tinville, George, Villetin, vários pseudônimos e um nome, Krivine, associados à procura obstinada e tenaz pela via de construção, na França e em escala internacional, uma saída à barbárie deste sistema. Alain Krivine e seus irmãos, Hubert, seu gêmeo, Gérard, Jean-Michel e Roland, seus irmãos mais velhos, estiveram de frente a essa barbárie desde muito cedo, durante a ocupação nazista da França. De família judia, muitos conhecidos e amigos da família foram capturados pela polícia francesa, deportados pelos nazistas e assassinados nos campos de extermínio.

Jovem estudante, Alain Krivine começa a se engajar politicamente aos treze anos, seguindo o exemplo de seus irmãos, nas organizações de juventude colaterais ao Partido Comunista Francês. Se Jean-Michel e Hubert já haviam passado para a oposição trotskista dentro do "partido", foram os horrores do colonialismo francês, o heroísmo das guerras de libertação das colônias e os erros do PC que levaram Alain a aproximar-se do que era, no início de 1962, a pequena seção francesa da Internacional "Pablista", o Partido Comunista Internacionalista [de tradição trotskista].

Como dirigente da seção do curso de Letras da Sorbonne da União dos Estudantes Comunistas Franceses (UECF), Alain está em todas as lutas, de corpo presente nas ruas, contra os grupos fascistas, e politicamente, contra os primeiros giros abertos da direção do PCF em direção à burguesia "de esquerda", explícito por exemplo no apoio do PCF à candidatura de François Mitterrand às eleições presidenciais, que havia sido Ministro da "Justiça " sob o governo de Guy Mollet e guilhotinador-chefe de militantes argelinos, tendo validado os piores abusos cometidos pelo exército e pela polícia contra a independência Argelina.

Expulso do PCF em 1966, Alain Krivine fundou com outros militantes, entre os quais Daniel Bensaïd, Janette Habel e Josette Trat, a Juventude Comunista Revolucionária (JCR), uma organização próxima, ainda que não filiada, ao que se tornou, depois de 1964, o Secretariado Unificado da Quarta Internacional. Muito em breve, as barricadas do "lindo mês de maio" se erguem, Alain Krivine é um dos líderes da ala esquerda desse movimento, que é, acima de tudo, a maior greve do movimento operário ocidental do século XX. O movimento de maio e junho de 1968 não apenas chacoalha as bases do regime gaullista, como também coincide com a abertura de um novo ciclo revolucionário de lutas internacionais.

Membro da direção da Liga Comunista, ele se candidata às eleições presidenciais de maio de 1969. É, junto com outros dirigentes, procurado e perseguido após a dissolução da Liga decretada pelo governo Pompidou, após realizarem ação contra o encontro da [organização fascista] Nova Ordem, em 21 de junho de 1973. Mas é preciso mais do que um decreto de dissolução e quatro semanas de prisão, em Santé, para minar a determinação de Krivine de continuar a luta pela revolução. Ele a perseguiu dentro da Liga Comunista Revolucionária (LCR), da qual permaneceu uma das principais figuras até sua autodissolução em 2009. Ao longo deste período, marcado pelo levante operário e popular pós-1968, pelo refluxo restauracionista encarnado, na França, pela vitória de Mitterrand em 1981 e pela austeridade em 1983 e, finalmente, pela renovação simbolizada pela grandes greves de novembro-dezembro de 1995, Krivine não deixou de militar para acabar com o sistema e pelo socialismo. A queda da URSS e a dissolução do bloco soviético depois de 1989 também não significaram o fim da luta para Krivine. E com razão. Na esteira da batalha dos bolcheviques-leninistas e dos trotskistas contra o stalinismo, há muito tempo que, para ele, o socialismo de quartel não significava aquele horizonte emancipatório que outubro de 1917 e suas promessas representavam, para milhões de homens e mulheres no século 20, mas exatamente o oposto.

Muitos debates nos opuseram em relação a Alain Krivine, notadamente, antes da criação do NPA, em relação à questão da participação do primeiro governo Lula, no Brasil, ou quanto à questão dos "partidos anticapitalistas amplos", defendidos como linha estratégica para o período pós anos 90. Apesar de nossas divergências, as e os militantes de nossa corrente sempre reconheceram nele a fidelidade à luta, a determinação em defender as suas convicções e esta abertura que lhe caracterizava, apesar das discussões muitas vezes amargas. Foi com todos os representantes eleitos das diversas plataformas NPA que os delegados do que era então a plataforma Z lhe prestaram homenagem no Congresso de 2018, meio século depois de 1968, que marcou um dos pontos altos do início de seu envolvimento militante.

Embora tenham cessado toda a militância anticapitalista e a ideia da revolução, ou nunca tenham defendido-a, alguns dizem que com sua morte "um pedaço da esquerda vai embora". Com a morte de Alain, não é "um pedaço da esquerda" que está indo. É um dos marcos da extrema-esquerda que desaparece com ele. É neste sentido que oferecemos nossas condolências militantes a todos os seus parentes, sua família, sua companheira e seus camaradas de partido e de organização internacional, e que também pretendemos continuar a luta contra este sistema e todas as opressões, injustiças e catástrofes que ele engendra. "Temos ainda mais motivos para nos revoltar hoje do que em 1968", Krivine gostava de nos lembrar em seus discursos. De agora em diante, também por sua memória, teremos ainda mais razões para lutar pela revolução.

Traduzido do original em francês por Lina Hamdan




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