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Lula no Nordeste | Filho de Garibaldi e defensor do Voto Impresso é cotado por Lula para ser vice de Fátima Bezerra no RN

Em viagem ao Nordeste, Lula dava conferências aos movimentos sociais e parlamentares do PT e seus aliados regionais, como também procurou alianças do Centrão e até mesmo do bolsonarismo. Conheça um pouco da história da Oligarquia política dos Alves no Rio Grande do Norte, que em uma relação de idas e vindas mantém uma história de anos de colaboração com o PT e a manutenção da ordem burguesa.

Ítalo DiasSociólogo

quarta-feira 1º de setembro | Edição do dia

Durante a viagem, Lula ganhou apoio do PSB de Paulo Câmara, que reprimiu uma manifestação pelo Fora Bolsonaro em Recife, cegando dois manifestantes, e de Flávio Dino, que quer apoiar o seu vice do PSDB ao governo do Maranhão em 2022.

Fazendo jus que não negaria diálogo com nenhum partido, propôs acordo com o Republicanos de Flávio Bolsonaro, o PP de Arthur Lira e Ciro Nogueira, ministro de Bolsonaro, o PSD de Fábio Faria. Até mesmo o Pastor Sargento Isidório, do Avante, Policial Militar e pastor defensor da cura gay, ganhou uma foto entregando uma bíblia para o petista. A base de Bolsonaro no Centrão foi o alvo de Lula, que tenta neutralizar suas pontes no Nordeste, retomando laços com velhacos oligarcas e coronéis da região, tal como Garibaldi Alves e sua família, que aceitam aliar-se com quem melhor atenda aos seus interesses econômicos e políticos, alheios aos da classe trabalhadora e do povo pobre.

E pra isso, busca disputar também o MDB, que nacionalmente anuncia a busca de um candidato de “terceira via”, recuperando velhos aliados no Nordeste. Eunício de Oliveira no Ceará, Raul Henry em Pernambuco e o velho José Sarney são nomes do MDB com os quais Lula sentou pra conversar. Dentre essas acordos com o MDB, Lula encontrou maior eco nos seus na família Alves maior eco. Esse é o tipo de gente que Lula quer não só ganhar a eleição, mas voltar a governar, perdoando o seu apoio ao golpe institucional e cada reforma e ataque à classe trabalhadora.

No jantar entre Lula, o ex-senador Garibaldi Alves Filho e seu filho Walter Alves, deputado federal, foram servidas propostas para compartilharem palanque com Lula na campanha pela reeleição da governadora do PT no RN, Fátima Bezerra. Walter Alves foi cogitado a vice-governador da chapa com Fátima, enquanto seu pai Garibaldi entraria na composição como candidato ao Senado, ou à deputado federal, a depender de conversas com o sobrinho Henrique Alves, que busca voltar à Câmara de Deputados.

Na mesma semana que os povos indígenas realizavam um acampamento com 10 mil pessoas em Brasília contra o Marco Temporal, que busca retroceder nas terras demarcadas após 1988, Lula manteve o silencio sobre essa luta enquanto dividia goles e garfadas com uma das principais famílias do Rio Grande do Norte, estado que até hoje não tem nenhuma terra demarcada, por conta dos interesses dessas mesmas oligarquias.

Isso por si só já bastaria para concluir que, ao contrário do que promete Lula, sua candidatura é incapaz de parar e muito menos reverter os ataques de Bolsonaro e de Temer. Até por que, o próprio Garibaldi, quando Senador, depois de ter sido presidente do Senado e base do segundo mandato de Lula, além de Ministro da Previdência de Dilma, deu seu voto pelo golpe institucional de 2016 e pela aprovação da reforma trabalhista, a PEC do Teto de gastos. São inimigos dos indígenas, das mulheres, da juventude e dos trabalhadores do RN e de todo o país. O próprio Walter Alves recentemente foi favorável à aprovação da medida golpista de Bolsonaro do voto impresso, a reforma da previdência, bastante alinhado aos interesses do governo atual.

Portanto essa aliança é inofensiva contra o bolsonarismo e apenas busca revitalizar o papel político de velhas figuras da direita oligarca nos estados, para garantir a todo custo a volta do PT à cabeça do regime e da administração dos negócios capitalistas. Algo que o próprio governo Fátima no RN, assim como os demais governos estaduais do PT, vem dando exemplo na prática, aprovando a reforma da previdência. A máscara de Fátima de que sua eleição derrotou as oligarquias regionais se desmancha de vez com essa possível aliança, depois de já ter tecido diversos elogios a ministros de Bolsonaro do RN como Rogério Marinho. Mostra que não é pela via das eleições, mas pela luta de classes, que as oligarquias podem ser devolvidas pro museu.

Um breve histórico sobre os Alves

Os Alves são uma família que estão há mais de 60 anos continuamente ocupando mandatos políticos no estado do Rio Grande do Norte ou no Congresso Federal. O grande nome dessa família é Aluísio Alves, um jornalista que ganha destaque ao ser redator-chefe nos anos 50 do jornal carioca Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, um dos principais articuladores do golpe de 1964. A experiência lhe permite dirigir o jornal Tribuna do Norte, que depois viria a ser proprietário.

Quando governador do RN, eleito em 1960, convidou o embaixador norte-americano Lincoln Gordon, e o homenageou no palácio do governo. Fora através dele que os Alves foram agentes dos EUA contra a “ameaça comunista”, recebendo financiamento entre os anos de 1962 e 1966 para o projeto “Aliança para o Progresso”. Nesses quatro anos, receberam dos americanos uma quantia equivalente a três anos de receita do Estado. Os recursos eram utilizados em obras de infraestrutura, como rede elétrica, estradas, adutoras de água, além de escolas. O projeto tinha objetivo de evitar que regiões tidas como “bolsões de pobreza” pudessem ser terreno fértil para ideias “subversivas”. Afinal, o Nordeste era palco de uma das mais fortes organizações no campo que foram as Ligas Camponesas, com greves de dezenas de milhares de operários agrários. O projeto chegou a financiar inclusive o projeto de alfabetização massiva de Paulo Freire, cujo piloto foi realizado na cidade de Angicos (RN) – que um ano depois fora desmantelado pelo golpe. [1]

Foi através dessa parceria com o imperialismo, que terminou sendo um fracasso com poucos efeitos para a população, que o império midiático dos Alves ganhou força no RN, comprando a Rádio Cabugi e outras rádios nos interiores. Hoje já soma mais de uma dezena de rádios no nome dos Alves, além da participação societária da Rede Globo no estado, como a TV Cabugi. Além disso, consolidara sua família como uma importante família no Estado, tendo sido inclusive ministro do governo tutelado pelos militares de José Sarney, após a ditadura e de Itamar Franco.

Ficaram conhecidos como os “Bacurau”, com significado radicalmente distinto do transmitido no filme dos diretores Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, apesar de fazer referência à mesma ave de hábitos noturnos. No caso dos Alves, buscava representar o mais podre fisiologismo da família. Quando governador, Alves emitia despachos na madrugada com a nomeação de apadrinhados políticos e parentes para cargos na burocracia estatal.

Irmão de Aluísio, Garibaldi (o pai do atual Garibaldi, aposentado da política), se beneficiara também com o ascenso político do irmão e das obras financiadas pelo imperialismo no Agreste e Oeste potiguar. Proprietário de terras, fora um importante produtor de algodão. Embora tenha abandonado a atividade, a família não perdera o controle de terras importantes no estado e mantendo a criação de gado. Tanto ele quanto seu filho seguiram a tradição política de Aluísio, sendo representantes de interesses nacionais e estrangeiros na implementação de obras na região, que beneficiassem seus interesses. Com recursos do Banco Mundial, o governo de Garibaldi Filho no RN obteve recursos para o seu Programa de Recursos Hídricos, que favoreceram o desenvolvimento da friticultura irrigada, além de ferrovias e rodovias, atento aos interesses ruralistas da região, e também a um ascendente setor de comércio e serviços. [2]

Na capital potiguar, o sobrinho de Garibaldi, Carlos Eduardo Alves, foi eleito por dois mandatos, tendo sido alvo das manifestações da Revolta do Busão em 2012, que antecederam as jornadas de Junho de 2013 no Brasil, lutando contra as máfias dos transportes públicos de Natal, cujos interesses seguem sendo garantidos pela gestão de Álvaro Dias (PSDB).

São a típica família que vive da política, beneficiando negócios particulares que, em um país semi-colonial como o nosso, dependem e favorecerem setores do capital estrangeiro, seja industrial ou financeiro, prática que não mudou quando Garibaldi se tornou parte da sustentação do Centrão ao governo Lula e do PT. Após envolvimento nos escândalos de corrupção da Odebrecht, com a prisão de Henrique Alves, primo de Garibaldi, a influência da família decaiu, mas não perdeu a importância enquanto oligarquias de influência na região, que Lula prontamente se dispôs a recuperar, agora como potencial vice da candidatura de Fátima em 2022.

A volta da conciliação com os Alves apenas fortalece a direita golpista e enfraquece às lutas dos trabalhadores

Fica evidente com esse histórico de alianças com imperialismo, nepotismo, corrupção, que aliar-se com os Alves está longe de contribuir com o enfrentamento com Bolsonaro. Não só é inofensivo, como fortalece a direita que foi parte do golpe, a serviço da implementação das reformas e privatizações, ligadas aos interesses da burguesia nacional e imperialista, para descarregar a crise sobre os trabalhadores. Esse cenário de ataques se acelera hoje sob as mãos do mesmo Centrão que Lula busca se aliar, e o PT e PCdoB são parte fundamental de que sigam passando sem que seja dada uma batalha definitiva, pelo papel que cumprem as suas direções na CUT, CTB e na UNE.

Essas entidades, a serviço dessas alianças com a direita, fazem de tudo para impedir a auto-organização dos trabalhadores em aliança com a juventude, ignoram cada resistência parcial como a greve na MRV, no metrô de São Paulo, em rodoviários de Porto Alegre, e até mesmo a luta indígena em Brasília, como fizeram com as greves dos rodoviários em Natal no ano passado, ou com a forte expressão da greve dos Correios no estado. Não daria para fechar palanque com essa gente que odeia os trabalhadores e que tem medo de que o aumento da inflação, da conta de luz, do aumento da precarização da vida, levem a greves, ainda mais se generalizadas, que atrapalhassem seus planos de salvar seus lucros com os ataques.

Historicamente o PT sempre cumpriu o papel de impedir o desenvolvimento da luta de classes, com Lula como verdadeiro guardião da estabilidade burguesa, por isso alianças como a com Garibaldi não deveriam espantar. O PT está disposto a fazer muito pior se necessário salvar o regime do golpe institucional. No RN, Fátima chega a agradar gente do tipo de Flávio Rocha, um escravista, que elogiou o seu o RN cresce + pelo perdão de dívidas de empresários, isenções de impostos, em plena pandemia e em uma situação de ⅓ da população do estado em insegurança alimentar e desemprego record. Essas burocracias atuam em serviço da estratégia eleitoral do PT cumprindo a função de se omitir e garantir a passividade diante dos ataques, para que essas “alianças indefensáveis”, como brincou o próprio Lula, apareça em 2022 como a única alternativa.

Nós do Esquerda Diário defendemos que não há como barrar a extrema-direita sem batalhar para derrubar essa obra econômica de Bolsonaro e Temer, por isso também não caindo na armadilha do impeachment que daria lugar a Mourão e manteria os ataques de pé. Tampouco o STF ou setores pseudo-democráticos do Centrão, que travam uma disputa autoritária com Bolsonaro, são quaisquer aliados nessa luta, pois apesar das disputas estão juntos para nos atacar. Foram parte de implementar ataques do Golpe Institucional que aprofundaram e aceleraram medidas que já vinham sido tomadas pelo próprio PT.

Seguimos exigindo que as Centrais Sindicais e a UNE rompam com sua paralisia de espera rumo às eleições de 2022, quando deixam passar cada vez mais ataques, com a convocação de um plano de lutas a altura do que acontece no país. Nesse sentido, defendemos uma política independente dos trabalhadores, uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pela mobilização, na qual o conjunto dos problemas do país possam ser discutidos por deputados eleitos e revogáveis, como a revogação das reformas e privatizações, destituindo Bolsonaro, os militares, o Centrão e o STF. Medidas assim atacariam os lucros capitalistas e nos colocaremos em defesa da auto-organização e auto-defesa para defender as necessidades da maioria da população, em defesa de um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo, onde não existe qualquer espaço para a burguesia e seus representantes de qualquer tom.

Chamamos o conjunto dos setores da esquerda, como o PSOL, UP e PCB, que rompam com o silêncio diante das burocracias e com a política do impeachment, e se apoiem nos parlamentares e entidades que dirigem não para repetir os mesmos métodos de oposição parlamentar ou burocráticos do PT e PCdoB, mas dar exemplo de auto-organização e solidariedade com as lutas em curso. Fazemos esse chamado com o objetivo de estabelecer o debate de como superar a fragmentação da esquerda socialista para construir um partido revolucionário que supere o PT pela esquerda, uma necessidade urgente.

Editorial MRT: 7 de setembro: enfrentar Bolsonaro, os ataques e a medida ditatorial de Doria nas ruas




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