Gênero e sexualidade

DIA DAS MÃES

"Feliz" dia das mães para quem?

Hoje não há um "feliz" dia das mães para as mães que tiveram seus filhos executados pela polícia assassina, pelas mãos de outros racistas ou pelo Estado capitalista...Para as mães que perderam seus filhos e filhas para a COVID. Hoje não há um "feliz" dia das mães as mães que tiveram seus filhos assassinados pelas mãos da polícia racista, não só as do Jacarezinho, mas todas ao longo da história. As "Mirtes" e todas as mães e mulheres negras que lutam incansavelmente todos os dias por justiça.

domingo 9 de maio| Edição do dia

Hoje acordei e a primeira coisa que fiz foi abraçar minha mãe é minha avó, não falei nada, só pensei como estava feliz por elas estarem vivas. Ao mesmo tempo, não consegui falar quase nada, um aperto no peito e uma angústia me embargaram.

Só me vinha à mente todas as mães e filhos que não podem compartilhar o dia de hoje, não só por estarem longe, mas por não estarem mais vivos. E não por fatalidades, mas pela ação do Estado.

Fiquei pensando: em quantas mães perderam seus filhos e filhas para a COVID? Quantas filhas e filhos perderam suas mães para a COVID? Não consegui contar. A única certeza é que a maioria dessas famílias estariam reunidas hoje se tivéssemos testagem massiva da população, quarentena racional, liberação de todos os trabalhadores não essenciais, auxílio emergencial de pelo menos um salário mínimo, vacina para todos...E a ausência dessas medidas não foi negligência, foi projeto, projeto de morte, genocídio.

Além disso, no dia de hoje, na favela do Jacarezinho, dezenas de mães não tem o que celebrar. Essa semana, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro invadiu a comunidade e tirou em torno de 30 vidas, assassinou 30 pessoas, executou 30 seres humanos. Deixou uma favela banhada de sangue e corpos no chão, a maior chacina da história do RJ. E adivinhem a cor da pele das pessoas executadas? Obviamente, todos eram negros. Nada disso é por acaso, o genocídio do povo preto nunca parou, e seus algozes são o Estado e seu braço armado, a polícia. Não, não eram "bandidos", não eram "suspeitos". Eram estudantes e trabalhadores, filhos, irmãos, primos, enfim cidadãos. Mas eram pretos, pobres e periféricos, isso já é o suficiente para a polícia assassina e racista puxar o gatilho. Quem viu as imagens percebeu as casas destruídas, reviradas, cheias de sangue. Sim, as pessoas foram assassinadas dentro das casas. Imaginem vocês acordarem com um tanque de guerra subindo a rua junto de assassinos fardados com fuzis nas mãos e você é o alvo. Imaginem o desespero de ter sua casa arrombada e ver uma execução ou ser executado dentro dela. Isso é terrorismo, isso é extermínio, isso é genocídio, é chacina.

Mas isso não é novidade, podemos lembrar das dezenas de crianças assassinadas na saída da escola, como foi Ágatha Félix. Podemos lembrar que escolas precisavam pintar nos seus telhados "aqui é uma escola, não atire", para que os helicópteros de guerra não abrissem fogo contra uma escola. Podemos lembrar do menino Miguel, que foi abandonado e encaminhado à morte pela patroa de sua mãe, caindo do 9° andar de um prédio de luxo. Todas essas crianças foram levadas pelo racismo.

Hoje não há um "feliz" dia das mães para essas mães que tiveram seus filhos executados pela polícia assassina ou pelas mãos de outros racistas.

Hoje não há o que comemorar, não vou postar foto da minha mãe ou das minhas avós - apesar de amar incondicionalmente. Hoje é um dia triste.

Me solidarizo com todas as mães que perderam seus filhos e filhas para a COVID. Com todas e todos aqueles que perderam suas mães também para a COVID.

Me solidarizo, sobretudo, com as mães que tiveram seus filhos assassinados pelas mãos da polícia racista, não só as do Jacarezinho, mas todas ao longo da história.

Me solidarizo à Mirtes e todas as mães e mulheres negras que lutam todos os dias por justiça.

Todos nós, sobretudo da classe trabalhadora, precisamos nos organizar e lutar, é urgente! Pessoas estão morrendo aos montes. É urgente a queda de Bolsonaro, Mourão, e todos os golpistas. É urgente o fim da polícia. É urgente controlar a crise pandêmica. É urgente pensar coletivamente!

Termino perguntando: é possível vencer na vida enquanto milhões estão na miséria? Enquanto as favelas viram chacinas semana sim, semana não? Enquanto caminhamos para 500 mil mortes? Será que é possível ser feliz nesse modelo de sociedade?




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