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CORONAVÍRUS | FAVELA SÃO REMO

Favela São Remo se organiza para enfrentar a pandemia do coronavírus

terça-feira 31 de março| Edição do dia

Na ausência de qualquer preocupação dos governos com a situação dos trabalhadores que moram nas periferias diante dessa crise, diversas lideranças e movimentos sociais da favela São Remo tomaram a iniciativa de organizar uma ação coletiva para combater o COVID-19.

Impulsionado pelo Projeto Social Alavanca, pelo Projeto Social Catumbi e pela Associação de Moradores e Associação Poliesportiva da São Remo, a iniciativa já conta com o apoio e participação de diversos parceiros, como agremiações de futebol, mídias independentes como o Esquerda Diário, agrupações do movimento negro e de saúde na periferia, além do Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP).

O objetivo de combate à pandemia do coronavírus passa pela busca e arrecadação de doações em dinheiro e em material, seja de higiene pessoal, limpeza ou para a organização de cestas básicas, além de informativos de conscientização e cuidados em relação à prevenção. Mesmo estando diante de uma pandemia mundial, que atinge todas as classes sociais, sabemos que os maiores afetados seguirão sendo os trabalhadores e o povo pobre e negro da periferia, para quem o governo não garante nem a segurança sanitária necessária para evitar a contaminação e nem a segurança econômica necessária diante das medidas de isolamento social implementadas.

Marcello Pablito, trabalhador da USP e dirigente do Quilombo Vermelho, um dos grupos-parceiros nessa iniciativa comenta como “é extremamente violento contra o povo pobre o discurso do presidente Bolsonaro, que ironiza a possibilidade de que milhares de trabalhadores venham a morrer pelo vírus ao afirmar que ‘lamenta, mas assim é a vida’, enquanto não toma nenhuma medida para garantir o mínimo de condições para que sejam garantidos EPI’s e testes massivos para quem segue trabalhando, nem nenhuma política para quem está desempregado, ou sem renda por ter perdido o emprego ou por ter que ficar em casa em virtude da pandemia, nem as condições das pessoas que fazem parte do grupo de risco se afastarem do trabalho sem prejuízo do emprego nem do salário, nem a garantia de construção de leitos de UTI’s nos hospitais. Nem nada. A única preocupação do Presidente é manter os lucros dos patrões, mesmo que custe a nossa vida”.

Aqui em São Paulo o governador João Dória implementou a partir do dia 23/03 o isolamento social domiciliar, chamada de quarentena. Uma medida reconhecida pela Organização Mundial da Saúde e aplicada em vários países que pode mitigar a infecção no tempo e diminuir os impactos de atendimento no sistema de saúde já precarizado. Com relação a esse medida, Pablito afirma que “segue sendo uma política aplicada pela metade e pouco eficaz enquanto não se garante testes massivos pra poder saber quem está infectado e quem não está e garantir uma quarentena planificada. Muitos de nós precisamos seguir trabalhando, pois fazemos serviços essenciais ou porque não temos nenhuma garantia de manutenção da nossa renda ou salário ao ficarmos em casa. E ao não termos testes nem EPI’s adequados somos vetores de transmissão para nossa família e nossos vizinhos que estão em casa. Ainda mais nas condições de habitação que temos, já que nas favelas não temos o privilégio de poder nos isolar em um cômodo particular caso estejamos doentes. Enquanto isso vários imóveis seguem desocupados no centro de São Paulo gerando lucro pra especulação imobiliária. Quantos hotéis de luxo e spas não poderiam ser reorganizados para servir de espaços de quarentena coletiva para aqueles que fossem diagnosticados com o vírus?”

Diante da ausência histórica de políticas públicas para as periferias e favelas, a condição de vida da maioria dos trabalhadores no Brasil segue sendo um terreno favorável para a propagação do vírus. E não é possível esperar que em meio à essa crise os governos resolvam olhar pra realidade das favelas. Diante disso é muito importante a iniciativa tomada pelas lideranças e movimentos sociais da São Remo, medida que vem sendo impulsionada também por organizações em outras favelas de São Paulo e do Rio de Janeiro, de criar uma rede de apoio e solidariedade que busque garantir tanto as medidas mais elementares para que as famílias mais necessitadas possam ter o mínimo de condições de enfrentar essa pandemia - como cesta básica e materiais de higiene e limpeza -, como possa fortalecer iniciativas de pressão sobre as autoridades municipais e estaduais para garantir testes massivos para todos para organizar a quarentena, garantir um complemento na renda de dois salários mínimos para todos que não tenham renda fixa ou que fiquem impossibilitados de trabalhar nessa crise e garantir a construção de leitos nas UTI’s suficientes para todas as internações necessárias.

As doações podem ser entregues na Associação dos Moradores da São Remo, Rua: Aquianés, 100, CEP: 05360-120, Bairro Butantã, próximo ao Circo-Escola e em frente à quadra Poliesportiva.

Ou pela conta corrente: 32.481-7, Agência: 3559-9, Banco do Brasil. Razão social: Associação sócio-educativa e cultural projeto Alavanca Brasil. CNPJ: 07.849.157/0001-35




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