RACISMO ESTRUTURAL

Família roubou a pensão de mulher escravizada por 38 anos para pagar faculdade da filha

Madalena Giordano, feita escrava por 38 anos, teve além da liberdade de sua vida extorquida, também o direito a uma pensão de R$ 8 mil, utilizada para pagar a faculdade de medicina da filha da família.

segunda-feira 4 de janeiro| Edição do dia

Madalena Giordano teve a liberdade de sua vida roubada por 38 anos, ao ser feita de escravo por uma família de Minas Gerais, mas não bastasse tamanho absurdo, novas informações da investigação apontam que a família mineira também lhe roubou o direito a uma pensão de R$ 8,4 mil reais, a que tinha direito devido a um casamento com Marino Lopes da Costa, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial.

A suspeita é de que a família Milagres Ribeira, da qual Madalena foi resgatada, forjou o matrimônio entre Madalena e Marino Lopes justamente para ter acesso a pensão, dado que o ex-combatente era tio de Valdirene Lopes da Costa, esposa de Dalton César Milagres Rigueira, e estava no fim de sua vida quando em 2001 a união foi realizada.

Chamou a atenção dos auditores da Receita o fato de os rendimentos da família serem incompatíveis para quem tem um imóvel de quatro quartos financiado na área mais nobre de Patos, com parcelas de R$ 1,7 mil, e paga faculdade para duas filhas, uma delas estudante de medicina em Uberaba, com mensalidade de R$ 6,8 mil. A conclusão da investigação do Ministério Público do Trabalho é de que a pensão a que teria direito Madalena foi utilizada para o pagamento da faculdade de medicina de uma das filhas da família.

Em São Miguel do Anta, a família Milagres é vista como uma das mais tradicionais. Um dos símbolos da tradição da família é Ildeu Pereira Milagres Fialho, político influente que foi prefeito da cidade na década de 1970.

Apesar de escandaloso o caso é mais uma expressão dos muitos resquícios da mentalidade racista da Casa Grande presente na elite brasileira. A tradicional família Milagres não se incomodou em extorquir por mais de 38 anos todo o trabalho, a dignidade, a liberdade, e até a pensão, de uma mulher negra. O drama da vida de Madalena é a mostra da permanência dessa mentalidade escravocrata da Casa Grande, como ao longo do ano de 2020 é preciso resgatar o espírito de revolta das senzalas para botar um fim em todos esses resquícios do racismo estrutural de nosso país.




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