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Comitê da UFABC em Apoio a Greve da GM | Experiências da aliança entre estudantes e trabalhadores da UFABC com a greve da GM

Na terça-feira (19), os estudantes e trabalhadores da UFABC que organizaram um Comitê de Solidariedade à greve da GM se reuniram para debater o desfecho contraditório da greve, marcado pela traição da direção do Sindicato, as ricas experiências da aliança entre estudantes e trabalhadores e o movimento estudantil da universidade na região. Leia abaixo o documento publicado pelo Comitê:

quarta-feira 27 de outubro | Edição do dia

Os trabalhadores da GM entraram em greve na sexta-feira (01), e no mesmo dia, os estudantes da UFABC aprovaram uma moção de apoio a esta luta em Plenária Aberta do DCE. A partir deste apoio, os estudantes da UFABC foram nos portões da GM prestar sua solidariedade e decidiram por fazer um amplo chamado à todas as entidades estudantis e organizações de esquerda a organizar um Comitê da UFABC em Apoio à Greve da GM.

Na sexta-feira (08), os estudantes da UFABC junto com o Sintufabc organizaram uma primeira reunião emergencial do Comitê para organizar medidas efetivas de apoio, ampliando a visibilidade da greve dentro da universidade, e buscando apontar uma perspectiva de movimento estudantil em aliança com os trabalhadores que lutam fora da universidade. Entre estas medidas aprovadas, os estudantes impulsionaram uma campanha de fotos que contou com apoio de trabalhadores, estudantes e professores da universidade. E também uma panfletagem no portão da fábrica, após a assembleia, para demonstrar o apoio do Comitê. Apesar dos chamados ao DCE e aos Centros Acadêmicos da Universidade, o Comitê não contou com o apoio das entidades para impulsionar essa perspectiva em defesa dos trabalhadores dentro do movimento estudantil.

Leia abaixo, a carta publicada pelo Comitê da UFABC em Apoio à Greve da GM:

Experiências da aliança entre estudantes e trabalhadores da UFABC com a Greve da GM

Publicamos aqui o texto elaborado por membros do Comitê de estudantes e trabalhadores da UFABC que se formou em apoio à greve da GM de São Caetano do Sul que ocorreu no início deste mês.

Os trabalhadores da GM de São Caetano do Sul/SP cruzaram os braços durante duas semanas no começo deste mês de outubro não só pelo necessário reajuste salarial em meio à carestia de vida, mas também contra a precarização das condições de trabalho ao responder ao ataque da patronal contra o direito a estabilidade dos trabalhadores acidentados.

Numa mobilização como há muitos anos não se via na fábrica, conseguiram um reajuste salarial de 10,42% além de manter cláusulas do acordo coletivo anterior, dentre elas a que prevê a estabilidade para trabalhadores acidentados. Isso tudo, apesar da sua direção do sindicato, a Força Sindical, que ao longo de todo o processo buscou manter a luta isolada, sem ultrapassar os portões da fábrica, e foi denunciado por trabalhadores nos jornais regionais pelo encerramento da greve contra a decisão da maioria de trabalhadores em assembleia.

Após o conflito se encerrar, estudantes e trabalhadores da UFABC que construíram as medidas de apoio a esta greve que aconteceu numa das principais indústrias da região do ABC paulista - onde ficam localizados os campus da universidade - se reuniram para tirar as lições deste processo e das experiências que aproximaram estudantes e trabalhadores numa mesma luta.

Sintonia da greve da GM com processos moleculares que ocorreram/estão ocorrendo em outros lugares do país e do mundo

Assim como a greve da GM que estourou em nossa região, o ABC paulista, vimos os trabalhadores se levantarem por demandas semelhantes (contra a carestia de vida, contra a divisão dos trabalhadores e a precarização das condições de trabalho) em outros locais do país - como a greve da MRV (Campinas/SP), da SAE Towers (Betim/MG), da Carris (Porto Alegre/RS), Proguaru (Guarulhos/SP) - e também temos vistos expressões fortes em outras partes do mundo, como o “Striketober” nos EUA ou a greve geral que aconteceu na Coréia do Sul na última semana [1].

Uma das lições que tiramos deste processo que pudemos acompanhar mais de perto é que, embora a greve da GM se localize como um dos processos moleculares de luta que ainda não conseguiram romper o isolamento e imposto pelas direções burocráticas dos sindicatos, que inclusive quis impedir com que a nossa faixa em solidariedade pudesse ser aberta na Assembleia, a experiência embrionária que tivemos com a atuação do comitê da UFABC aponta para a força que pode ter a aliança entre estudantes e trabalhadores e porque é tão temida pelas burocracias. Inclusive porque essa experiência só reforça a consciência de que a luta contra a carestia de vida e a precarização das condições de trabalho é na mesma trincheira que a luta contra os ataques à educação, ao orçamento das universidades federais, em defesa da permanência estudantil.

Na luta de classes, todas as armas são validas: criatividade para construir um movimento estudantil aliado aos trabalhadores

A pandemia e o isolamento social colocaram dificuldades não só para o funcionamento da universidade mas também para a mobilização contra os ataques do governo Bolsonaro à educação, à saúde e às condições de vida e trabalho da maioria da população. Com o deslocamento da dinâmica da universidade e de muitos locais de trabalho para o meio “virtual”, se coloca a necessidade de pensar como extrair o máximo de potencialidades de todos os recursos que temos à mão, principalmente para quebrar o isolamento intencional promovido pelas grandes mídias, pelas burocracias sindicais, pelas patronais, para derrotar as nossas lutas.

Também é preciso lembrar que a conformação de redes de apoio mesmo virtuais podem fortalecer a subjetividade de quem está diretamente envolvido nas lutas, uma reserva de onde podem tirar as conclusões fundamentais de que não se está lutando sozinho. Nesse sentido, basta lembrar do que representa o apoio que diversos trabalhadores que estavam na linha de frente contra o golpe militar em Myanmar mandaram virtualmente para a Colômbia e todos que estavam na linha de frente na luta contra os ajustes do governo de Ivan Duque.

Nesse sentido, a partir do comitê se articulou uma campanha de fotos de apoio à greve da GM, buscando massificar a iniciativa entre estudantes, professores e trabalhadores da universidade, apresentar uma perspectiva de um movimento estudantil atrelado a classe trabalhadora, sempre pensando como articular a formação das redes virtuais de apoio com as medidas de representar concretamente esse apoio, quando estivemos ombro a ombro com os trabalhadores na porta da fábrica durante as assembleias, levando nossa faixa e os panfletos em apoio.

A importância de batalhar dentro da universidade por um movimento estudantil atrelado a classe trabalhadora, buscando de formas criativas atrair ao máximo de simpatizantes a uma luta comum e dialogando com as bases dos cursos que estão atomizadas pelo EaD, o medo ainda da pandemia, e as dificuldades de deslocamento, é essencial para também questionar a própria estrutura da universidade que atinge principalmente os estudantes trabalhadores, mas que mantém uma universidade de classe que não é feita para os filhos dos trabalhadores da GM, que estávamos apoiando. Cada foto que furava esse bloqueio construído conscientemente contra a nossa unidade, fortalecia essa perspectiva, ampliava a luta e reforçava as energias daqueles que acordavam as 4:30 da manhã para se solidarizar aos operários e operárias em luta.

O apoio que repercutiu entre os trabalhadores (e os estudantes), mas que as direções tentaram ignorar

A moção aprovada em plenária aberta do DCE da UFABC foi um passo dentre vários a serem dados para apoiar os trabalhadores da GM legitimamente. Foi o que nos permitiu nos articularmos para colocar de pé o Comitê e avançar de uma moção para ações ativas que pudessem causar um impacto real de solidariedade para que a luta triunfasse. Mas essa experiência, nos permitiu ver que há um abismo entre a política pregada e dita da política feita e vivida. Nós que estivemos na porta da fábrica, de estar em contato direto com a greve e, consequentemente, com os trabalhadores de modo a vivenciar todo o processo de reivindicação de melhores condições de trabalho, vimos como isso fez uma diferença.

As entidades estudantis da UFABC, como o DCE, poderiam ter cumprido um papel importante para tentar romper o isolamento da greve da GM, mas mesmo depois de aprovada a moção de apoio na plenária do DCE e dos chamados feitos pelo próprio comitê da UFABC, essas entidades não se incorporaram nas medidas que se propuseram para potencializar o apoio à greve da GM. Infelizmente, sequer divulgaram as campanhas de fotos dos próprios estudantes e trabalhadores para dar visibilidade a este tema.

A força dos estudantes da UFABC representa um poder agregador a um movimento que não diz respeito apenas aos trabalhadores ou, até mesmo, somente aos estudantes, mas sim aos dois: uma luta conjunta contra diversos ataques direcionados pelo governo Bolsonaro e em defesa de uma UFABC à serviço dos trabalhadores, especialmente para que os filhos dos operários e operárias da região possam estudar. Lutar pelos trabalhadores é lutar pelos estudantes, pois existem uma quantidade expressiva de discentes da UFABC que trabalham. É um movimento contra uma precarização exacerbada e desmedida tanto da vida do trabalhador quanto do estudante; portanto, aliar forças é uma urgência em um momento de seguidos abusos à dignidade da classe trabalhadora cada vez mais desumanizada.

A devolutiva instantânea dos trabalhadores da GM ao verem os estudantes da UFABC dando total apoio à sua luta mostra como é fundamental estarmos aliados contra o Bolsonaro e Mourão. Estar em diálogo ativo com as reivindicações feitas pelos trabalhadores cada vez mais atacados pelo capitalismo caracteriza uma união de forças com um mesmo inimigo em comum: o sistema capitalista que favorece poucos em detrimento de muitos. À frente da fábrica da GM é onde teoria e prática se alinham para uma luta organizada a favor de justiça social que desmantela coletivamente políticas de enfraquecimento da classe trabalhadora. Assim, os agradecimentos dos trabalhadores ao passarem pelas faixas é uma recíproca verdadeira no embate em prol de uma vida digna sem limitações aos trabalhadores e aos estudantes.

Essas ações que tivemos poderiam ter sido potencializadas se cada entidade estudantil, como os Centros Acadêmicos dos cursos, o Diretório Acadêmico e o DCE estivessem colocando toda sua energia para expressar essa solidariedade. Com mais forças, seria muito difícil que a direção do sindicato tivesse impedido que nós estudantes tivéssemos contato com os trabalhadores durante as assembleias, que ignorassem nossa presença ou que limitasse os caminhos dessa poderosa aliança que buscamos construir. Por isso, esse aprendizado que estamos fazendo após a luta, acreditamos que pode servir para todas as entidades, estudantes e trabalhadores, para pensarmos os nossos próximos passos.

A necessidade de apoiar as lutas em curso e como isso fortalece a nossa própria luta como estudantes

Os importantes debates e iniciativas de apoio que tiveram lugar no comitê colocam a importância de retomar essa iniciativa sempre que houver processos de luta, como o que ocorreu na GM. Sem perder de vista a necessidade de chamar as entidades estudantis e as organizações de esquerda ao papel que podem cumprir frente a processos de luta que podem ocorrer em nossa região, que apesar de todos os ataques, segue sendo uma das mais estratégicas da industrialização do país.

E como forma de reafirmar o propósito com o qual foi organizado, o próprio comitê chama os estudantes, trabalhadores e professores da UFABC a acompanhar e cercar de solidariedade a luta dos servidores municipais de São Paulo que entra nesta semana em seus momentos decisivos na luta contra a precarização do presente, nas condições de trabalho, e contra a precarização do futuro que o prefeito Ricardo Nunes quer implementar contra o direito de se aposentar.

Mande a sua foto de apoio aqui.






- - Nota de rodapé
[1] Nos EUA, trabalhadores saíram em protesto contra acordos sindicais assinados em 2016, durante a gestão Obama, que previam a divisão dos funcionários em dois níveis. O primeiro nível, contratados antes do acordo, não sofreu grandes mudanças, enquanto o segundo, contratados depois do acordo, não possuem o direito de escolher se prestarão horas extras, frequentemente trabalhando 7 dias por semana, e recebem salários substancialmente menores que os de primeiro nível realizando os mesmos serviços.

Os movimentos que buscam denunciar essa situação ficaram conhecidos como Striketober e exigem o fim da divisão dos trabalhadores em dois níveis, visando a igualdade de salários e carga horária.

Do outro lado do mundo, na Coreia do Sul, trabalhadores de diferentes setores estão em greve reivindicando melhores condições e regulamentação do trabalho, maior poder de decisão aos trabalhadores assim como a nacionalização de indústrias-chave, da educação, moradia e serviços básicos.

A Coreia do Sul registrou a terceira maior carga horária global em 2015, assim com terceiro maior índice de acidentes ligados ao trabalho (OCDE). Além disso, estima-se que 40% da população encontra-se em situação irregular de trabalho, ou seja, quase metade da população sobrevive vendendo sua mão de obra para o ramo dos aplicativos, conhecidos principalmente pela exploração abusiva e não garantia dos direitos de sua mão de obra, situação muito semelhante à do cenário brasileiro.”




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