Existe capitalismo “antirracista” e “feminista”? Confira relatos de trabalhadoras e trabalhadores sobre o tema

Nesta sexta (26) às 19h, vamos realizar o lançamento online do livro Mulheres Negras e Marxismo, editado por Letícia Parks, Carolina Cacau e Odete Cristina. Neste livro, discutimos uma questão crucial: é possível dentro do capitalismo sermos libertas do racismo e machismo? Contamos aqui com uma série de relatos para pensar essa questão.

Bianca Rozalia Junius

Equipe do podcast Peão 4.0 e militante do MRT

sexta-feira 26 de março| Edição do dia

Foto da CNN

É possível por dentro do capitalismo sermos libertas do racismo e do machismo? Qual é o feminismo e o antirracismo que a gente precisa e o que o marxismo tem a ver com essas questões? E o mais importante: como o nosso feminismo e antirracismo precisa estar vinculado à classe trabalhadora? Essas são perguntas muito importantes para nos fazermos, e que buscarão ser respondidas no livro Mulheres Negras e Marxismo, que será lançado hoje, às 19h, no YouTube do Esquerda Diário.

Estamos no século 21, e ainda seguimos tendo que gritar por igualdade de direitos para as mulheres, em especial as mulheres negras, direitos que não foram garantidos não porque não “merecemos” ou porque “somos incapazes”, mas sim porque o capitalismo é incapaz de abrir mão do tanto que lucra rebaixando nossos salários, nossos direitos, nos deixando nos postos mais precários, utilizando o trabalho doméstico não remunerado. Estamos no século 21, e mesmo com todo o desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos séculos, o capitalismo não está sendo capaz de lidar com um vírus, não porque não seja possível, mas pura e simplesmente porque não garante mínimas condições sanitárias, saúde pública de qualidade, emprego digno para que a população possa morar bem e se alimentar, testes e vacinas para toda a demanda… Mas Elon Musk segue batendo recorde de lucros em um só dia.

A pandemia gerou um retrocesso de mais de 10 anos nos direitos das mulheres. Calcula-se, que a taxa de desocupação das mulheres chegou a 22% em 2020. Os setores mais precarizados da linha de frente são compostos majoritariamente por mulheres negras, como técnicas de enfermagem e no serviço de limpeza, por exemplo. E são os corpos negros os mais vulneráveis nesse contexto, o nível de mortalidade da covid entre negros é maior que entre brancos. São também os negros que mais sofrem com o desemprego. E o mais gritante disso é mostrado no dado do IBGE, que diz que menos da metade das negras com filhos pequenos consegue trabalhar. Esse é um dado de 2019, antes da pandemia, imagine agora que as escolas não estão conseguindo abrir pela falta de condições sanitárias?

Mas o povo negro e as mulheres estão chegando no limite em todo o planeta, e começam a levantar a cabeça para dizer que não irão tolerar mais. O caso George Floyd, no coração do capitalismo, foi muito emblemático, porque gerou uma revolta generalizada não só nos EUA, mas no mundo todo. Com medo dessas explosões que aconteceram no mundo todo, muitas mídias e políticos burgueses e até mesmo empresas começaram a mudar um pouco de discurso.

Exemplo disso são a Rappi, Ifood, 99, Uber e todas essas empresas de entrega e de motoristas, que adoram fazer propaganda com um discurso sobre serem “antiracistas”, e na epoca do movimento Vidas Negras Importam postaram até aquele “quadrado preto” nas suas redes, mas na realidade o que vemos é que tratam igual lixo os e as motoristas e entregadores de aplicativo, o que é ainda mais absurdo de pensarmos que no caso dos entregadores, são em sua maioria negros. E essas empresas sequer os consideram como trabalhadores da empresa!

E com relação aos funcionários contratados que trabalham internamente na Uber, a situação também não é muito melhor. T., funcionária demitida, nos relatou que a empresa criou um projeto chamado “Women at Uber”, supostamente de inclusão e diversidade, mas que na realidade colocava pouquíssimas mulheres negras, e menos ainda pessoas trans, em cargos melhores. Além disso, a empresa trata os funcionários como descartáveis: “ano passado fizeram uma demissão em massa.”, relata ela. “As pessoas que eram de cargo s2 foram em sua maioria demitidas. E as pessoas de cargo s1 que ganhavam menos foram realocadas para o lugar delas. Mas mantendo o mesmo salário! Ou seja demite geral, e põe quem ganha menos pra fazer o mesmo trabalho!”.

Há outros casos muito emblemáticos dessas tentativas de cooptação nas empresas aéreas também. Como abordamos no último episódio do Peão 4.0 - A representatividade nos representa?, existe um abismo social e racial nas empresas aéreas e em toda estrutura aeroportuária onde pessoas negras são vistas apenas em setores que foram e estão sendo precarizados. E mesmo quando há inclusão de negros e negras em cargos um pouco melhores, como comissários de bordo por exemplo, são poucos funcionários, e apenas pra responder a demanda da representatividade. Essas empresas, que dizem em seus manuais repudiar o preconceito, (pq eles não dão nome ao racismo), acobertam os casos sofridos pelos funcionários. A Latam é uma dessas, como nos relata um funcionário demitido da empresa:

“O primeiro caso de racismo que passei na Latam foi em 2012, quando fui chamado de macaco por um funcionário, e dezenas de funcionários acabaram rindo e ainda na época fui ameaçado de demissão caso eu fizesse um boletim de ocorrência. E na época, pra não perder o emprego, acabei não fazendo e de certa forma acabei sendo intimidado. 3 anos depois aconteceu novamente e o mais revoltante foi que o racista admitiu as ofensas e ainda perguntaram para ele qual punição ele gostaria de receber. Ele recebeu uma advertência do RH. E foi então que tomei coragem e fui ao centro de combate ao racismo, fiz a denúncia e de lá fui encaminhado ao Ministério do Trabalho que na época tinha lançado uma campanha contra o assédio moral. A empresa foi chamada e eles ainda negaram fazer o quê Ministério do Trabalho propôs, que seriam as campanhas educativas. E como a minha demissão já era certa, era questão de tempo, entrei com ação mesmo trabalhando, e assim que saiu a sentença eu fui demitido. E para vocês terem ideia, até nisso o judiciário é racista, porque eu tinha ganho uma indenização de 30.000, que já era pouco, só que a indenização caiu para 10 mil reais.”

E o mais cínico dessa situação toda é que em 2010, quando a empresa ainda se chamava TAM, chegou a ganhar o prêmio “Camelia da Liberdade”, uma premiação absurda que enaltece empresas como se fossem promovedoras de “igualdade racial” pelo simples fato de terem 10% de seu quadro de funcionários ocupado por pretos e pardos. 10%!!!! Em um país em que mais da metade da população é negra!

Um outro exemplo relatado no podcast é sobre a Magazine Luiza. Essa empresa criou uma política de colocar alguns negros nos cargos altos, como se isso fosse resolver o problema do racismo que elas acobertam por baixo. A questão é que ela tem mais de 40 mil funcionários, e mais da metade são pretos e pardos, segundo o próprio Frederico Trajano, CEO da empresa. Eles estão nas lojas físicas e escritórios. São vendedores, estoquistas, montadores, assistentes. Desse levantamento, esse CEO já parte pra questionar onde estão os líderes negros e desvia o foco, colocando o ideia de que chegar ao topo capitalista transformaria o capitalismo. Só que do topo, se olhar pro chão, ele ainda vai estar sujo de sangue negro e operário, feminino e LGBT+, porque os mais de 20 mil negros e negras da Magazine Luiza não cabem todos no topo.

Assim, em vez de garantir salários e direitos dignos para todos, a empresa só escolhe alguns poucos para esses cargos de liderança. Sem contar que todas essas empresas utilizam o trabalho terceirizado em todas as áreas, mas em especial na limpeza, onde a maioria são mulheres negras, e nós sempre ressaltamos aqui no podcast como funciona esse tipo de trabalho: mesmo fazendo o mesmo serviço que os efetivos, têm direitos e salários rebaixados.

E não é só no meio empresarial que vemos esse esvaziamento do discurso sobre feminismo. Mesmo nas áreas acadêmicas e artísticas isso também se reproduz, como nos relata C., que diz que trabalhou de forma gratuita para uma professora que se recusou a buscar remunerá-la por mais de 4 meses na ilustração de um livro sobre a primeira mulher programadora da história. “Quando eu decidi romper nossa parceria, em menos de 3 semanas ela já estava lançando um livro só dela com editora e um ilustrador”, se baseando em todo o projeto que C. havia desenvolvido sem nenhuma remuneração. De que vale esse discurso supostamente “feminista” se baseando no trabalho precarizado?

É nesse sentido que propomos no livro Mulheres Negras e Marxismo a importância da luta antirracista e feminista estar vinculada à luta para a libertação da classe trabalhadora, resgatando as lições históricas que o marxismo traz para nossa realidade. Como aborda o livro:

“Em 1922, o IV Congresso da III Internacional votou uma resolução sobre a questão negra em que defendem, por exemplo, a igualdade salarial imediata entre negros e brancos em todas as empresas, uma reivindicação que colocou o marxismo na ofensiva como a primeira tradição da classe trabalhadora a se enfrentar contra o racismo em uma resolução internacional e com uma perspectiva proletária, que é necessariamente a única que consegue ser massiva. Essa perspectiva se complexifica durante o século XX e terá em Leon Trotski e no seu Programa de Transição a forma mais acabada do que pode ser um programa efetivo de luta contra todas as opressões e contra o capitalismo, com propostas “viáveis” a partir da luta organizada da classe trabalhadora. Unificando a tese de 1922 da III Internacional com o Programa de Transição de Trótski é que hoje cabe a qualquer socialista antirracista defender a efetivação das terceirizadas, todos os direitos e salários dignos a entregadores e domésticas, entre outras medidas que os capitalistas que se dizem “antirracistas” se recusam a fazer."

Participe do lançamento do livro! Nesta sexta, 26, as 19h:

🗣️ Para o debate, convidamos: Andrea D’Atri , fundadora do grupo internacional de mulheres Pão e Rosas na Argentina; Renata Gonçalves , professora da UNIFESP; e Mirtes Renata, mãe de Miguel, lutadora incansável por justiça a seu filho.

No YouTube do Esquerda Diário! https://youtu.be/oIPMNX7f0K4

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