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Estudo do FMI prevê onda mundial de revoltas após a pandemia

Analistas do FMI fazem um estudo das repercussões sociais das pandemias, e indicam que “o mal-estar social era grande antes da covid e se moderou durante a pandemia, mas, se a história nos serve de guia, é razoável esperar que, conforme a pandemia diminuir, as revoltas sociais voltarão de novo”.

quarta-feira 24 de fevereiro | Edição do dia

Foto: Ali Burafi/AFP

Partindo de uma análise de milhões de artigos de imprensa publicados desde 1985 em 130 países, o FMI elaborou um índice de mal-estar social que permite quantificar a probabilidade de uma explosão de protestos como consequência da pandemia. Os técnicos relacionam os casos de revoltas sociais com 11.000 acontecimentos diferentes ocorridos desde os anos oitenta. Entre eles, desastres naturais como inundações, terremotos ou furacões, bem como epidemias.

Utilizando equações algébricas complexas, os especialistas Barrett e Chen propõem no relatório que “existe uma relação positiva entre as revoltas sociais e as pandemias”.

O mal-estar social era grande antes da covid e se moderou durante a pandemia, mas, se a história nos serve de guia, é razoável esperar que, conforme a pandemia diminuir, as revoltas sociais voltarão de novo

“Da praga de Justiniano no século VI à Peste Negra do século XIV, até a gripe espanhola de 1918, a história está repleta de exemplos de epidemias que têm fortes repercussões sociais: transformam a política, subvertem a ordem social e provocam revoltas sociais”. Esses especialistas acreditam que o cenário posterior à Covid não deve ser muito diferente.

Por que? Uma explicação possível é que uma pandemia “põe em evidência as rachaduras já existentes na sociedade: a falta de segurança social, a desconfiança nas instituições, a percepção de incompetência ou corrupção dos governos”, é o que sustentam os técnicos do FMI.

Porém, o mais interessante da análise do FMI é a relação cronológica que aproxima as epidemias das revoltas sociais. Existe um efeito de atraso muito importante. Vários meses, até anos, separam o ápice da epidemia e as revoltas.

De fato, houveram poucos protestos durante esta pandemia. Na verdade, nos últimos meses “o número de manifestações físicas de mal-estar social caíram ao nível mais baixo em quase cinco anos”. A exceção foi o movimento Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd nas mãos da polícia em Minneapolis, que desencadeou uma onda de protestos os EUA.

Para além desse resultado pacificador imediato das epidemias, “em longo prazo a frequência de revoltas sociais dispara”, está escrito no informe do FMI, em tom muito mais frio e distanciado que a informação que analisa sobre revoltas em milhões de indignados artigos de imprensa escritos ao longo de décadas.

A pandemia tampouco é a causa inicial, e sim um catalisador. A primeira peça do efeito dominó é a desigualdade e a percepção de injustiça, explicam os analistas do FMI. “Os resultados do nosso estudo indicam que a desigualdade elevada está relacionada com mais revoltas sociais (...) e o mal-estar social será maior quanto mais alta a desigualdade de renda no início”, escrevem.

As pandemias detonam a bomba relógio “porque reduzem o crescimento econômico e aumentam a desigualdade” e criam “um círculo vicioso onde o crescimento mais lento, a subida da desigualdade e o aumento do mal-estar social reforçam um ao outro”.

A partir da informação obtida sobre diferentes tipos de protestos, os investigadores do FMI demonstram que, com o tempo, “o risco de distúrbios e manifestações contra o governo aumenta”. E mais, “sobe o risco de graves crises políticas (acontecimentos que podem derrubar governos), que normalmente ocorrem nos dois anos posteriores à epidemia grave”, resumem os técnicos da instituição multilateral com sede em Washington.

O informe chega à conclusão de que “o mal-estar social era grande antes da covid e se moderou durante a pandemia, mas, se a história nos serve de guia, é razoável esperar que, conforme a pandemia diminuir, as revoltas sociais voltarão de novo”.

Outro informe do FMI intitulado “Como as pandemias conduzem ao desespero e o mal-estar social” (outubro de 2020), de Tahsin Saadi Sedik e Rui Xu, utiliza uma metodologia similar para determinar com precisão esse efeito de atraso. “As epidemias severas que provocam elevada mortalidade aumentam o risco de distúrbios e manifestações antigovernamentais”, explicam. Esses “eventos pandêmicos geram um risco de desordem civil significativamente mais alto depois de 14 meses”. Cinco anos após a pandemia, porém, existe um “efeito quantitativamente significativo sobre a probabilidade de revoltas sociais”. Os surtos de ebola no oeste da África entre 2014 e 2016, por exemplo, “provocaram um aumento da violência civil superior a 40% ao cabo de um ano e seu efeito sobre o mal-estar social persistia vários anos depois”.

Mas uma coisa são as “revoltas sociais” que nascem como uma resposta espontânea às profundas diferenças entre as classes sociais em situações críticas, outra coisa é a possibilidade concreta de lutar por uma sociedade distinta. Para isso, a classe explorada deve alcançar maiores níveis de organização política, e para isso devem se preparar para cenários mais catastróficos. Para que essas revoltas triunfem, é necessário que os explorados tenham sua própria organização: um partido revolucionário que tenha como perspectiva terminar com essa sociedade de classes e lutar por um governo de trabalhadores.




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