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COLUNA | Estou me guardando para quando o carnaval chegar

terça-feira 16 de fevereiro | Edição do dia

O documentário de Marcelo Gomes, que tem como nome o título dessa coluna, retrata a cidade de Toritama, no interior de Pernambuco, conhecida como “capital do jeans”, apresentando mais que uma cidade, as profundezas da situação do trabalho no Brasil. É uma obra que nos coloca pra pensar sobre esse novo slogan de empreendedorismo do capital financeiro, a nova forma laboral que vai se revelando cada vez mais como trabalho intermitente, jornadas indefinidas, perdas de direitos e, na sua última faceta, uberização.

O ponto principal é que o documentário retrata o cotidiano exaustivo da produção de jeans, com trabalho repetitivo, jornadas de 12, 14h de trabalho, ganhando em alguns casos 10 centavos por item da peça de roupa produzido, em uma dinâmica por vezes insalubre – que é feita nas chamadas “facções”, que são como fábricas nas casas dos moradores da cidade. Esse cenário se repete, incessante, domingo a domingo, na produção contínua dos 45 mil habitantes que tornaram a cidade a capital do jeans do país. Só existe uma coisa que irrompe contra a rotina e interrompe o cotidiano: o carnaval.

É um lado sensível e bem abordado no documentário: Toritama se torna uma cidade fantasma durante a grande festa nacional. As pessoas vendem geladeiras, televisão, e abrem mão de quase qualquer coisa para ir para Recife passar o carnaval. Os que não foram declaram no documentário que o balanço é de arrependimento, não se pode cometer esse erro.

A importância cultural do carnaval, que poderia ser abordada de muitos ângulos, é expressa em parte forte de seu significado nesse exemplo: apenas em um momento durante o ano em Toritama e outros locais do país, o tempo passa a ser da fruição e sociabilidade e, se é carnaval, tem que ser disruptivo, tem que ganhar a rua, tem que fantasiar. Não se trata aqui de fantasiar o próprio carnaval, afinal, a própria sociabilidade é determinada pela situação política e ideológica do país e dos estados, mas o sentido de conjunto que carrega o carnaval é claramente progressista e isso ficou bem claro quando da emergência da extrema-direita no país, pois no caso deles o ataque ao carnaval não foi escamoteado: é a família tradicional brasileira contra o carnaval.

Pois bem, o fato é que as ruas de Recife e de Olinda, onde os moradores de Toritama passam o carnaval, estão vazias. Realmente vazias. Uma primeira questão sobre isso: a polícia está reprimindo em todos os lados nesses dias quem está na rua. Um amigo me contava que na praça Roosevelt e na Augusta em São Paulo era polícia em todo lado, geral na juventude, multas a motoristas, clima de militarização.

Quem está se fortalecendo? As forças autoritárias desse novo regime político pós-golpe institucional, que em termos científicos chamamos de “bonapartismo institucional”, que destrinchando podemos dizer: governos estaduais, judiciário e em partes do congresso brasileiro, que encarnam essa nova forma da degradação da democracia brasileira “sob a égide da lei”. As forças que dão até golpe, mas dizem, “estava na constituição essa possibilidade”.

Bolsonaro e alguns setores da extrema-direita também buscaram se fortalecer, tem até bolsonarista postando que “agora vocês viram quem é que manda, no governo Bolsonaro não tem carnaval”, mas minha impressão é que não tem colado isso, a peãozada não está achando que não está tendo carnaval pelo conservadorismo do Bolsonaro, o peso central é a pandemia.

Os empresários foram além: nesses dias todo mundo trabalhando normal. Chicote estralando, como diz a expressão em um país de herança colonial escravocrata. Se olharmos o quadro de repressão policial, empresários querendo mais exploração, com uma ousadia inédita em anos de botar a população para trabalhar no carnaval, o quadro parece de avanço mais à direita na situação, o que leva a concluir que esperemos a PEC Emergencial (que corta salários do funcionalismo) e mesmo a administrativa com grandes chances de passarem nesse semestre.

Mas para retomar as belas palavras Fernando Pessoa: “E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário”. O clima da pandemia é reacionário e o fortalecimento político e ideológico das forças autoritárias do Brasil é inegável. É preciso encarar a realidade com olhos serenos, de frente. Mas eu também não acho que as pessoas estão simplesmente aceitando que não tem carnaval em 2021. Sinceramente, acho e sinto que as pessoas estão engolindo a seco isso. E para ilustrar, falo de três coisas escrevendo a partir do Recife.

Eu estava num bairro da cidade no sábado de carnaval e observava uma mesa de adultos de cerca de 60 anos, que só falou, durante a hora que fiquei no local, do Homem da meia noite e o Galo da madrugada, ao final começaram a cantarolar uma marcha de carnaval. Todos sentados, sem aglomeração, nas quatro mesas que existiam no local. Certo, estamos ainda na pandemia. Mas parecia existir um certo clima de “quando chegar o momento, esse meu sofrimento, vou cobrar com juros”.

A Bethânia fez uma live no carnaval, além de toda a beleza de seu canto, cantou a indignação da morte de Miguel, o filho da empregada doméstica Mirtes que teve seu futuro interrompido ao cair do 9º andar no curto período que estava sob as guardas da patroa. Não achei um detalhe, como também não senti do mesmo modo quando ela cantou sonho impossível. Já ouvi a música mil vezes, mas dessa vez me tocou mais ouvir “e assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor, brotar do impossível chão”.

Por fim, devo dizer que essa semana tiveram vários atos espontâneos na cidade: dia 9 os moto-frentistas, entregadores de recife, fizeram protesto exigindo melhores condições de trabalho; dia 10 houve protesto na Avenida Herculano Bandeira, cortando rua e colocando fogo em entulhos . Dia 12 um protesto por moradia interditou a avenida Recife, uma das principais da cidade com os moradores, também com barricadas com fogo. Na noite dessa segunda-feira dia 15, na Avenida Agamenon Magalhães, no bairro de Santo Amaro, na área central do Recife, protesto com barricada fechou a avenida que liga a capital a Olinda.

Situação muito difícil, mas minha impressão é que não passou apenas como um retrocesso a mais o fato de não ter carnaval esse ano, sem consequências. Talvez as pessoas estejam pensando, no fundo, que estão se guardando para quando o carnaval chegar...e não simplesmente que não vai ter carnaval e ponto.

Resta saber como esse “grito contido” vai se expressar...mas talvez não seguirá exatamente o calendário de 1 de março de 2022.




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