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"Este será meu governo": Luis Arce se delimita de Evo Morales

Todas entrevistas que concedeu o virtual novo presidente da Bolívia giraram em torno do mesmo, sua relação com Evo Morales. "Vai ser meu governo e em meu governo vamos colocar o país pra frente". Assegurou Arce ao ser entrevistado por EFE

quarta-feira 21 de outubro| Edição do dia

As primeiras declarações públicas de Luis Arce a pouco de se publicar os resultados da boca de urna que o dão como ganhador em primeiro turno apontaram a unidade nacional, e um governo "para todos os bolivianos". Nesta terça-feira Arce procurou marcar distância do ex-presidente Morales em várias entrevistas nas quais relativizou seu papel e marcou que ele será quem dirige.

Enquanto se espera o resultado oficial, ainda que todos seus adversários já reconheceram seu triunfo, Luis Arce falou da necessidade de dar lugar a profissionais, jovens com "compromisso" e setores sociais que não foram tomados em conta. Em uma tentativa clara de desprender-se do que pode ser visto como "lastro" em seu partido, falou do MAS 2.0. É QUE Arce é um profissional da classe média mestiça, com menos relação com os líderes históricos do campesinato indígena no país.

Nesta "renovação", David Choquehuanca, o que será o vice-presidente, atuará como ponte entre o próximo governo e os setores do movimento camponês e indígena, principalmente aymara. Deve se levar em conta que por sua tradição religiosa - é pastor batista -, sempre foi propenso a uma orientação mais dialoguista com a oposição e com as classes dominantes; isso o converte na figura desse partido mais dirigível pela direita.

Uma boa parte de seus votos são provenientes das classes médias que no ano passado saíram as ruas junto com a direita e alimentaram as forças golpistas. Diante do desastre da gestão da pandemia e os escândalos de corrupção do Governo de Áñez muitos destes setores reconsideraram sua posição e apoiaram a Arce. Sua distância das lideranças políticas mais tradicionais do MAS facilitaram essa mudança.

A promessa do novo presidente propõe "reconduzir o processo de câmbio" o que pode ser interpretado de várias maneiras. Uma delas, em vista de seu distanciamento com Morales, é uma negociação mais concessiva com os poderes de fato que justamente estiveram por trás do golpe, que o conceda um arco de apoio mais amplo para os ajustes que seguramente deverá implementar.

"Vamos construir todas as pontes que sejam necessárias para que eles possam ver que existe a possibilidade de governarmos todos" disse de maneira taxativa à agência EFE. Essas pontes seguramente se inclinarão mais aos setores mais concentrados da burguesia boliviana e menos para os trabalhadores e camponeses pobres, que foram os que resistiram ativamente ao golpe nas ruas, apesar da queda de seu líder histórico e as negociações do resto do MAS.

Arce foi o Ministro da Economia de Evo durante todo o seu mandato. Economista de 57 anos, é mais um tecnocrata que um político de carreira. Durante sua gestão se caracterizou por manter a estabilidade macroeconômica do país sob o modelo e os critérios estabelecidos por todo o ciclo neoliberal e avançando em reformas que priorizaram o investimento estatal; chegando com isso o Estado a alcançar um protagonismo na economia de mais de 30%.

Apesar da retórica do "modelo econômico social comunitário e produtivo pode se falar de um neoliberalismo ligth ou de um neo-desenvolvimentismo que foi cada vez mais priorizando os grandes negócios dos agroindustriais bancários a tempo de haver preservado as leis que permitiram a precarização e flexibilização laboral. As favoráveis condições econômicas nas quais governou o MAS já não são as mesmas para seu governo.

A economia atual do país enfrenta uma profunda crise, com uma contração prevista de 11,11% do PIB para este ano. Mas além disso, o MAS terá que lidar com uma direita que está fortalecida e que lhe marcará fortemente não só no parlamento mas também nas ruas. E terá que lidar com umas Forças Armadas que cada vez mais atuam como ator político independente e que ainda que saíram muito golpeados com as eleições passadas mantém intacto todo seu poder repressivo.

Neste cenário não é só a direita golpista que cruza as múltiplas frações mas também o MAS está atravessado por inumeráveis disputas internas desde ideológicas, políticas e ajustes de contas pelos "papéis" cumpridos durante o golpe entre outras. Uma mostra disso foi o pronunciamento de hoje por parte da Confederação Nacional de Mulheres Camponesas "Bartolinas Sisa" que sinalizaram que "o MAS não é de Evo Morales mas sim dos movimentos sociais". As brechas que se aprofundaram entre as cúpulas e as burocracias massistas marcam as tensões internas para esse novo capítulo no marco de uma crise econômica que vai se agravando.




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