BLACK LIVES MATTER

Está em curso o julgamento do policial racista que assassinou George Floyd

Pelo assassinato brutal de George Floyd está sendo julgado o policial racista Derek Chauvin. Cerco militar à Minneapolis, Defesa de Chauvin sendo bancada por um fundo policial, escolha de Júri com filtros sociais e raciais são alguns dos escândalos que envolvem o julgamento.

segunda-feira 5 de abril| Edição do dia

Foto: CBS

Começou na semana passada o julgamento de Derek Chauvin, o policial que assassinou George Floyd ao se ajoelhar sobre seu pescoço por quase nove minutos. Floyd dizendo que não conseguia respirar repetidamente não comoveu o policial, que também não se intimidou com as câmeras. Talvez não tivesse medo porque sabe que nos Estados Unidos, assim como no Brasil, reina a impunidade aos policiais que cometeram assassinatos, ainda mais se tratando do assassinato de um homem negro. De fato, os antecedentes de Chauvin mostram que ele não tinha o que temer da Justiça estadunidense, pelo menos não por si só, seus antecedentes já contavam com assassinatos. O que ele não esperava era que a população negra se levantasse exigindo justiça para George Floyd enquanto clamavam que as vidas negras importam.

Chauvin integrava a Polícia a cerca de 20 anos e suas passagens racistas durante esse tempo não foram poucas. Além de 10 acusações de má conduta, ele conta com passagens que explicitam que sua atitude com Floyd não foi um desvio, foi a conduta regular das forças policiais de Mineapolis. Em 2006, um grupo de seis policiais, Derek Chauvin era um deles, dispararam 23 vezes contra um homem em seu carro, todos sendo absolvidos. Em 2011, dessa vez num grupo de cinco policiais, também com Derek Chauvin, atiraram repetidas vezes contra um homem. Não se trata de uma coincidência que tanto em 2006, quanto em 2011, se tratassem de indígenas nativo-americanos, e que agora em 2020, a vítima tenha sido um afroamericano. Apesar desses casos, além dos que permanecem em sigilo, em 2008 ele recebeu uma medalha de bravura por seu desempenho como policial.

Mesmo que as mobilizações por justiça para George Floyd tenham dado muita visibilidade ao caso, que está sendo coberto pela grande mídia e acompanhado pela população civil, isso não impediu as distorções do sistema racista de Justiça que contém muitos limites. Limites porque além de terem tido anteriormente a possibilidade de tirarem um policial racista das ruas mas não terem feito. Falando em ruas, as de Minneapolis estão militarizadas, com forte presença da guarda nacional e reforço no policiamento para evitar que qualquer manifestação ganhe maiores proporções. A escolha do Júri também é feita de maneira, no mínimo, suspeita.

O júri é composto por 8 pessoas, metade são brancas. Entre eles, sejam brancos ou não, discursos muito problemáticos se expressam. Uma das juradas que não-branca, tem um tio policial, disse em tom não enfático que teria “uma impressão negativa” de Chauvin porque “ninguém quer ver alguém morrer” ao mesmo tempo que diz que pessoas negras têm mais chance de ser abordadas por policiais, ela iguala o Black Lives Matters ao racista Blue Lives Matters como movimentos que só visavam o lucro na venda de produtos. Essa última é uma tendência entre alguns jurados que ou reivindicam tanto o Black Lives Matter como o Blue Lives Matters, ou condenam os dois dizendo que todas as vidas importam. O argumento do mal policial como “maçã podre” também foi sondado por alguns dos jurados.

Mas por que o júri é tão problemático? Porque a seleção em primeiro lugar é elitista, leva em conta carteira de motorista, situação eleitoral: com um sistema de voto não obrigatório, a maior precariedade entre os afro americanos se comparados aos brancos o que leva a um número muito maior de brancos com carros, é evidente que esse filtro já deixa de fora muitos homens negros. Além disso, um processo de entrevista para o cargo que envolve perguntas como qual a opinião da pessoa sobre a polícia, sobre o Black Lives Matter, sobre o Blue Lives Matter, o que permite a quem vai selecionar uma boa percepção da visão política do jurado, obviamente deixando de fora os com uma perspectiva mais radical. Ainda com todos os filtros, raciais e de classe, a Defesa não mediu esforços para que jurados latinos não participassem do Júri, ja tendo derrubado três jurados.

Ao observar a defesa de Derek Chauvin, podemos perceber que a argumentação das “maçãs podres da polícia” é absolutamente falsa. Em primeiro lugar, o advogado que o defendeu no início das negociações, ainda em 2020, era Tom Kelly, provavelmente escolhido por em 2017 ter livrado da cadeia um policial que assassinou um homem negro. Kelly depois largou a Defesa alegando problemas médicos mas sua escolha já mostra que os casos de policiais assassinando homens negros e se livrando são não só possíveis, como recorrentes e que os policiais já reconhecem advogados com “potencial” de os manter impunes. Aí entra em cena a Associação de Oficiais da Polícia de Minnesota (MPPOA em inglês) financiando a defesa de Chauvin. Seu atual advogado Eric Nelson também tem histórico de sucesso em absolver assassinos, por exemplo em 2017, livrou um homem que atirou fatalmente em seu vizinho desarmado. O fundo dos policiais levantou até agora U$1 milhão para a defesa que além de Tom Kelly, conta com mais 11 promotores, que não só defendem Chauvin, mas também os outros três policiais presentes no assassinato.

Acompanhar esse julgamento é de extrema importância porque o assassinato de George Floyd chacoalhou todo o mundo numa forte luta anti-racista , se expressando fortemente em diversos países, como foi o caso do Brasil. Não é de se estranhar que o movimento BLM tenha tido seus efeitos no Brasil, sabemos que aqui, como nos Estados Unidos, reina a violência policial principalmente com a população negra, assim como reina também a impunidade. Não nos esqueçamos do menino João Pedro baleado em São Gonçalo, do Massacre de Carandiru, de Ágatha Félix no Complexo do Alemão, todos com participação da polícia.




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