Gênero e sexualidade

Mulheres na FIT da Argentina

Entrevistamos Andrea D’Atri sobre a histórica lista de 70% de candidatas mulheres na Argentina

O Esquerda Diário entrevistou Andrea D’Atri sobre a lista de 70% de mulheres candidatas nas eleições argentinas, invertendo pela primeira vez na história do país, a cota feminina obrigatória.

sexta-feira 3 de julho de 2015| Edição do dia

Na foto: Andrea D’Atri ao centro, acompanhada de outras candidatas pelo PTS na FIT.

O Esquerda Diário entrevistou Andrea D’Atri, dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (que compõe a organização internacional Fração Trotskista - FT, assim como o MRT no Brasil) e fundadora do Pão e Rosas Argentino, sobre a lista de candidatas às eleições que o PTS na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) apresentou na Argentina, com 70% de mulheres, invertendo pela primeira vez na história, a cota feminina em uma eleição naquele país.

Andrea destaca o Plano de Emergência contra a violência às mulheres apresentado pelo deputado federal Nicolás Del Caño, jovem de Mendonza, segundo nas eleições desta província e pré-candidato à presidência, junto com Myriam Bregman, que é deputada nacional e nas eleições de 5 de julho na Argentina, concorre ao governo de Buenos Aires, sendo a única candidata mulher. Para defender esta fórmula presidencial, o PTS vai às Eleições Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (PASO).

Andrea, que é pré-candidata a deputada pelo ParlaSul e junto às demais candidaturas levantam o lema: “Renovar a Frente de Esquerda com a força das mulheres, dos trabalhadores e da juventude”, fala também das demais propostas da FIT em relação aos direitos das mulheres.

Esquerda Diário: Sabemos que na Argentina, assim como no Brasil, os partidos devem apresentar no mínimo 30% de candidatas mulheres. A grande novidade é que desde que existe na Argentina, há 24 anos, a lei de cota feminina, é a primeira vez que o partido inverte esta cota, tendo o PTS uma lista de 70% de mulheres, o máximo que permite a lei eleitoral. Conte-nos como o PTS encara esta questão.

Andrea D’Atri: Os partidos tradicionais, que defendem os interesses patronais, aceitam muito a contragosto ter que cumprir o 30% de mulheres em suas listas. A política “profissional” para esta casta que só pensa em enriquecer fazendo disso uma carreira profissional, não só é anti-operária, mas também misógina. Ao contrário, as listas da esquerda, sempre superam esse 30%.

A novidade, neste caso, é que não só superamos, mas também alcançamos um marco: pela primeira vez uma lista tem o máximo de mulheres que permite a lei (já que não se pode fazer uma lista com 100% de pessoas do mesmo gênero). Isto é histórico. Mas não há mulheres ali que não tenham seu próprio mérito para integrar a lista. Todas são lutadoras em seus lugares de trabalho, jovens ativistas estudantis, mulheres que lutam pelos direitos das mulheres.

E a lista é encabeçada por María Victoria Moyano Artigas (Vicky), uma filha de desaparecidos que foi restituída a sua família, pelas Avós da Praça de Maio quando tinha nove anos e que hoje, como integrante do Centro de Profissionais pelos Direitos Humanos, segue enfrentando a impunidade. Por isso, sua candidatura recebeu o apoio de Elia Espen, Mirta Baravalle e Nora Cortiñas, Mães da Praça de Maio que – igual à Vicky -, seguem lutando mantendo sua independência de todos os governos.

ED: Apesar de a Argentina ser presidida por uma mulher, a lista de seu partido (Partido Justicialista - PJ) é composta pela maioria de homens, assim como os representantes deste partido no Congresso. Os intelectuais diziam não ter nada à esquerda de Cristina Kirchner e do kirchnerismo. As candidaturas de maioria mulheres na lista do PTS podem ser uma alternativa à esquerda aos que confiaram no kirchnerismo e em Cristina Kirchner?

AD: Sem dúvida. Porque é difícil sustentar hoje que “a esquerda do kirchnerismo há uma parede”, como dizia o governo. Especialmente, porque Cristina Kirchner decidiu unilateralmente, que o candidato de seu partido para as próximas eleições presidenciais, será Daniel Scioli, o atual governador da Província de Buenos Aires e que acompanhou os governos de Carlos Menem (ex- presidente da Argentina, membro do PJ) e Eduardo Duhalde (vice de Menem, membro do PJ).

Um homem do Opus Dei, amigo do Papa, empresário, que foi repreendido pelo kirchnerismo, durante todos esses anos, por ser “amigo dos fundos abutres” (que compra títulos de dívidas (abaixo do valor real) e lucra enormemente depois, ao exigir o pagamento pela via judicial) e agora, de repente, escolhido para encarnar “o modelo” kirchnerista, a presidenta impediu que o kirchnerismo participasse das eleições primárias com vários candidatos e isso gerou uma onda de descontentamento entre os que se negam a aceitar que Scioli represente esses valores que o kirchnerismo dizia representar.

ED: Qual a importância desta lista de maioria de mulheres em um momento que existe uma grande mobilização contra a violência contra as mulheres, através da campanha #NiUnaMenos, que tomou as ruas do país no dia 3 de Junho (3J)?

AD: A lista com maioria de mulheres é, de fato, um símbolo que homenageia essa mobilização, que embora tenha surgido da ideia de um reduzido grupo de mulheres jornalistas, expressou uma Argentina profunda e permitiu que a voz das mulheres mais oprimidas – e também de milhares de homens – se expressasse de maneira contundente. Durante várias semanas, todo o país esteve atravessado pelos debates sobre a violência machista, e outras formas de violência – além dos feminicídios – as que suportamos todos os dias, de quais formas reproduzimos essa violência de maneira invisível no cotidiano. Uma grande força de centenas de milhares de pessoas que, depois, nas campanhas eleitorais dos partidos tradicionais, volta a ser silenciada. Nós queremos que siga viva essa voz, que siga escutando-se esse grito que disse Ni Uma Menos, porque sabemos que esse caminho que escolheram centenas de milhares de pessoas, de mobilizar-se e fazer-se ouvir é o caminho que temos para continuar conquistar nossos direitos.

ED: Um dia antes do 3J, o deputado federal Nicolas Del Caño, acompanhado pela candidata à vice-presidente Myriam Bregman pelo PTS, apresentou no Congresso um projeto de lei contra a violência contra as mulheres. Quais são as propostas deste plano?

AD: O projeto é para um Plano de Emergência, porque existe uma lei para erradicar, prevenir e sancionar todas as formas de violência contra as mulheres, mas esta carece de orçamento, enquanto uma mulher é assassinada a cada 30 horas no país. Por isso, o projeto de Nicolás Del Caño propõe, entre outras medidas, a criação imediata de abrigos provisórios e um plano de moradia em curto prazo, com créditos à taxa zero do Banco da Nação, para as mulheres vítimas de violência; licenças trabalhistas recebendo o salário completo para as mulheres nessa situação e subsídios para as que não têm trabalho. Também contempla a criação de um regime de licenças educativas, para as mulheres que estejam estudando e sejam vítimas de violência, e o direito à assistência de docentes em casa durante o tempo que for necessário. O projeto inclui o direito de acesso, de maneira gratuita e imediata, ao acompanhamento e intervenção de equipes interdisciplinares especializadas na prevenção e assistência às mulheres vítimas de violência, e que o Estado garanta todos os meios necessários para a promoção de campanhas de difusão massiva deste Plano de Emergência em Violência contra às mulheres, entre outros pontos.

ED: Além do plano de emergência contra a violência às mulheres, quais são os direitos das mulheres defendidos pelas candidatas e candidatos do PTS na FIT?

Defendemos também o direito ao aborto, pois na Argentina a cada ano mais de 300 mulheres morrem por consequências do aborto clandestino. Defendemos que a educação sexual nas escolas de fato ocorra. Também lutamos contra as redes de tráfico de mulheres, pois mais de 600 jovens estão desaparecidas, sequestradas por estas redes. E defendemos os direitos das mulheres trabalhadoras, pois na Argentina 50% das mulheres trabalham em condições precárias. Os candidatos e candidatas do PTS na FIT lutam por uma vida livre de qualquer forma de violência e discriminação contra as mulheres e a comunidade LGBT.




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