Mundo Operário

TESTES MASSIVOS JÁ!

Entrevista com um trabalhador da saúde, que mesmo doente não teve direito a fazer o teste

domingo 29 de março| Edição do dia

ED: Explique quem você é, onde trabalha…
Sou Raí Neres, tenho 37 anos, estudo Planejamento Territorial na Universidade Federal do ABC – UFABC, Trabalho em hospital municipal da Prefeitura de São Paulo / SP na região da Mooca, como Assistente de Gestão de Politicas Públicas – AGPP e trabalho na recepção do Pronto Socorro com atendimento direto de todos os pacientes que passam no hospital durante o meu plantão

ED: Qual seu caso clínico, em que situação está, há quantos dias esta doente. Você conseguiu fazer o teste depois que os sintomas apareceram?
No início de março já começaram a chegar no hospital algumas transferências de pacientes suspeitos de estarem contaminados com coronavírus. Dia 15/03 fui afastado por 7 dias por síndrome gripal grave, fui informado que não poderia fazer o exame de COVID-19, uma vez que só pacientes internados em estado grave teriam direito. Passaram antibióticos (Fiz raio-x e o pulmão estava normal). NEM NÓS PROFISSIONAIS DA SAÚDE DOENTES PODEMOS FAZER, conheço diversas pessoas da saúde na mesma situação. Dia 21/03 tive falta de ar, no dia seguinte fui ao hospital mais próximo de casa em Itaquera, ao tirar raio x foi detectada infecção grave nas vias respiratórias inferiores,CID J22, ou seja, pneumonia. A medicação foi trocada por uma bem mais forte, espero que nos próximos dias a pneumonia seja revertida. EM 06 DIAS UMA GRIPE EVOLUIU PARA PNEUMONIA.

Mais uma vez foi negado o direito de eu fazer o exame COVID-19. Sinto que estou piorando, não há o que fazer, mesmo sendo profissional da saúde me é negado o direito de fazer o exame .

Detalhe, moro com minha mãe de 58 anos, que tem saúde frágil e acabou ficando gripada.

Estou preocupado e com medo que minha pneumonia evolua, também fico apreensivo pois não sei se tenho de fato COVID-19. Por isso estou em quarentena, sem sair de casa em hipótese alguma. Dia 06/04/2020 termina o período de afastamento e terei que voltar a trabalhar.

ED - Você defende testes massivos já? Explique os motivos

Sim defendo, na realidade esta é a recomendação da Organização Mundial da Saúde, também envolve a dignidade da pessoa humana e o direito á saúde, ter o diagnóstico correto e a partir dai ter o tratamento e as precauções necessárias, vejo toda hora no jornal caso de pessoas que morreram e só depois que fizeram o exame do COVID 19. Também só com os exames adequados poderemos ter um controle epidemiológico e da expansão da doença.

Vale ressaltar que este não é apenas o nosso problema o nosso sindicato entrou com ação na justiça porque nem EPI adequados temos, falta luvas, máscaras e outras proteções para todos os funcionários.

ED: Tem mais alguma coisa que queira expressar?
Quantas pessoas morrerão por está política onde trabalhadores e pessoas vulneráveis não possuem direito a um diagnóstico adequado. Espero que eu fique bem, me preocupo com o restante da população e com a minha mãe que mora comigo

Entenda a NECROPOLíTICA DO CORONAVÍRUS

Quem está doente e pode ou não fazer o teste do Coronavírus mostra bem a divisão e a restrição de direitos entre classes sociais.

Por um lado, pessoas ricas, políticos, celebridades, mesmo assintomáticas fazem o exame COVID-19 sem restrições, em hospitais privados e/ou até mesmo no SUS, basta ler noticias e assistir TV que constatará isso.

Por outro, pessoas pobres, sem notoriedade, que dependem exclusivamente do SUS só podem fazer se estiverem internadas em estado Grave, mesmo que estejam com sintomas claros e evoluindo.

Vide que dois casos que sabemos de pessoas que morreram em São Paulo, estavam internadas e somente fizeram o exame de COVID-19 após a morte.

Nem mesmo profissionais da Saúde doentes, muitas vezes contaminados por pacientes, podem fazer, são afastados e só farão se o quadro clínico piorar e for internado.

Também, não foram apresentadas políticas públicas emergenciais claras e efetivas para as populações em situação de rua e para aquelas que vivem em habitações e/ou em condições precárias.

Concluímos que a grande massa dos que morrerão ou terão grandes sequelas é o povo, trabalhadores, que se quer podem deixar de trabalhar para se proteger e historicamente tiveram seus direitos negados em detrimento das elites. As principais, ou quase todas, crises socioeconômicas e político social foram geradas pela burguesia.




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