Cultura

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Entrevista com o ator e diretor Fransérgio Araújo

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

segunda-feira 24 de abril de 2017| Edição do dia

Fabio Nunes - Eu sempre peço para x entrevistadx se apresentar...

Fransérgio Araújo - Eu sou ator e diretor de teatro, já trabalhei com grandes diretores de cinema e teatro, tenho alguma participação na TV, sou remanescente do Teatro Oficina, nestes 25 anos de carreira, já viajei o mundo com teatro e faço dele meu oficio-ferramenta de vida, só consigo falar através dele. Depois de todo este tempo trabalhando com atuação cênica decidi criar um novo método de atuação e desenvolvimento humano, intitulado Teatro Selvagem.

Fabio Nunes - Fale sobre o Teatro Selvagem

Fransérgio Araújo - É uma forma inovadora de revolucionar sua conduta perante o massacre imposto, pela cultura da concorrência, pelo mérito do quem é o melhor, é uma revolta contra tudo que hoje gera depressão e perda de interesse pela vida, nas pessoas. Eu proponho com o Teatro Selvagem uma metamorfose, um mergulho no inconsciente, trazer a tona sua sombra, seus bichos, sua maldade, para justamente você banir a hipocrisia de sua morada. O Teatro Selvagem grita, contra a cultura do homem individualizado pela cultura do bem estar, a mesma que sufocou toda sabedoria total, sua ancestralidade e apagou de sua verdadeira índole, sua extirpe sensorial, animal.

Porque a razão só tem trazido à humanidade guerras, destruição em massa, riqueza que gera pobreza, as grandes tecnologias não vão nos salvar como já disse Eduardo Viveiro de Castro, o dinheiro não está saindo do bolso dos ricos, está saindo do bolso da natureza. O Teatro Selvagem veio para tetanizar os espíritos com a exposição da peste, como um grito rasgado no ar!

Fabio Nunes - Fale sobre a Instalação Selvagem

Fransérgio Araújo - Ela está ali para mostrar o método que criei para o ator, um método de atuação que envolve técnicas de respiração, transe e realinhamento dos sentidos, eu proponho o fortalecimento da pulsão do intérprete, através do seu animal de poder, e assim introduzo o verbo muscular, que é a força que um texto pungente transformador em suas palavras, que pode ativar toda uma audiência. É uma exposição que tem o caráter de trazer de volta ao reconhecimento, e ao pensamento de todos, para a sua animalidade, para sua esquizo-presença. Ouvir seus humores, reconhecer seu espectro sem o medo gerado pela cultura da diabolização do mal. O mal é inerente ao homem, o que precisamos é viver em paz cada um ao seu lado, é como na natureza, a grande família universal é uma utopia digna das mais medíocres das logicas. Na instalação temos a presença dos manequins/selvagens, feitos pelo artista peruano Adrián ILave, eles são a representação da transfiguração do ser humano em animal. Na instalação também contém toda a pesquisa desde seu inicio em 2012, com videos e textos, do Brasil e do Peru, onde apliquei o treinamento selvagem. Tenho um trabalho em desenvolvimento no Peru desde 2014 onde fui convidado pelo lendário diretor do Cuatrotablas, Mário Alejandro Delgado para ficar em residência com o Teatro Selvagem na sede de seu grupo em Lima.

Fábio Nunes - Antonin Artaud hoje

Fransérgio Araújo - Artaud hoje é para a pesquisa do Teatro Selvagem uma grande referência, a força de um grito, a exposição de um orgão diante a platéia, todos os interpretes precisam de Artaud, não se pode mais fazer teatro sem Artaud hoje, ele redimensionou toda a psiquiatria que ainda não absorveu toda sua contribuição, com Artaud podemos ser loucos sem ser medicados. Ele deixou um texto guia de seu método "O Atletismo Afetivo", neste texto ele propõe uma respiração para o interprete, ou seja, ele é a base da pesquisa. Artaud também nos ensina o seu teatro de protesto, sua imprecação, ele é a pedra de toque, para um teatro de resistência e agressão à sociedade que nos degola sem dó!

Fabio Nunes - Vivemos uma forte crise econômica e política. A direita avança. O monstro da guerra mundial quer reaparecer. A classe trabalhadora ensaia alguns movimentos. Qual o papel da arte neste barulho todo?

Fransérgio Araújo - Boa pergunta. A maioria da classe artística hoje visualiza apenas seus próprios interesses, vejo a minha volta meus colegas lutando para serem aceitos, a maioria se enquadrando para o mercado, nenhum interesse pelos movimentos populares, poucos são os que levantam bandeira de alguma causa. Os atores são explorados e muitas vezes se submetem para poder trabalhar em algum projeto, infelizmente vivemos o mesmo cancro que hoje o Brasil vive, o artista poderia ser a vetor para transformação do nosso país, mas infelizmente ele ainda é um alienado que bate cabeça para as culturas externas, para as grandes mídias, veja o jornalismo de cultura, veja as criticas cada vez mais entretenimento e menos opinião jornalistica de fato, o descarte em prol da celebrização é o que mais tem distorcido a comunicação entre artista e opinião publica. O meu papel é dar voz ao fracassado, àquele que não conseguiu, que errou, que sofre com a violência financeira, que não consegue se medicar, que não se encaixa, o Teatro Selvagem exibe o rasgo, o nervo exposto, em revolta contra o homem e o que ele criou.




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